Tempestade que atingiu Santa Catarina na semana passada tem semelhanças com outra que afetou o RS no ano quente de 2016, dizem cientistas
Miriam Prochnow estava numa teleconferência em casa quando o vendaval começou no dia 30 de junho. “Os ventos vieram do nada e muito, muito fortes. Nunca tinha visto nada dessa natureza”, afirma a ambientalista, que dirige com o marido, Wigold, a Apremavi, uma ONG dedicada a restauração florestal em Atalanta, Santa Catarina.
Duas horas depois, quando a tempestade amainou, ela recebeu uma ligação de um dos coordenadores da Apremavi: a estufa de mudas construída no ano passado havia sido destruída. Prejuízo até pequeno diante da pior tempestade já registrada em solo catarinense, o ciclone-bomba que atingiu quase 190 municípios e matou 12 pessoas. No domingo, dia 5 de julho, ainda havia 50 mil residências e comércios sem luz no Estado. Na internet viralizou
sacudido pela ventania num prédio em construção em Balneário Camboriú (todos se salvaram).
Com ventos de até 130 km/h, o ciclone se formou a partir do dia 29, pelo choque entre uma frente fria muito forte e muito rápida vinda da Argentina e ar quente no sul do Brasil. Originou-se uma tempestade giratória, com queda de pressão muito rápida – ar da superfície sendo “tragado” muito velozmente para o centro da tormenta, o que causa o vendaval altamente destrutivo. Normalmente esses ciclones se formam sobre o oceano. Apenas 22% deles surgem sobre o continente, e são os mais destrutivos.
Na taxa TNAc, que mede a potência de ciclones extratropicais (não confundir com ciclones tropicais, que são chamados de furacões no Atlântico, tufões na Ásia e – só pra atrapalhar – ciclones no oceano Índico), o evento atingiu 1,93. Uma tempestade dessas é considerada “forte” a partir de 1,8.
O fenômeno da semana passada, pela extensão do dano e pela quantidade de cidades afetadas, já é considerado a pior tempestade a atingir Santa Catarina desde que se tem registro. Foi pior do que o furacão Catarina, um inédito ciclone tropical que se formou no oceano e tocou terra no litoral catarinense, destruindo 1.500 casas e matando 11 pessoas.
Imagem de satélite do ciclone de SC
A quase 500 quilômetros de Atalanta, em Porto Alegre, um outro casal já viu – e estudou – algo dessa mesma natureza. A geógrafa Venisse Schossler e o climatologista Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, publicaram com mais dois colegas em maio deste ano uma análise de dois ciclones-bomba que aconteceram quase ao mesmo tempo em 2016: um no sul do Brasil e um na Austrália. E fizeram a primeira caracterização climatológica do evento da semana passada, mostrando como a pressão do ar na tempestade despencou 28 milibares (unidade de pressão atmosférica) em 24 horas – o que deu ao ciclone seu caráter explosivo.
Eles veem uma série de semelhanças preocupantes entre os eventos de 2016 e de 2020.
“Na sua fase de frente fria avançando rapidamente sobre Rio Grande do Sul e Santa Catarina, o ciclone de 2016 gerou muitos danos, porém agora, infelizmente, em 2020 superamos. Em 2016, o sistema frontal gerou vendaval e rajadas de até uns 100 km/h ou 110 km/h. O atual evento teve um sistema frontal muito mais robusto, intenso e com avanço rápido, o que amplia muito os danos”, conta Aquino. O de então atingira apenas 1,71 na TNAc.
Mas as duas bombas se formaram em anos excepcionalmente quentes. 2016 entraria para os registros como ano mais quente desde o início das medições globais, em 1880. E 2020 caminha para ser o segundo mais quente.
Em Santa Catarina, o inverno chegou com temperaturas altas, após uma estiagem incomum que se estendia desde o fim do ano passado. “Na entrada do inverno todos os nossos ipês amarelos estavam florindo” diz Prochnow.
Outro paralelo entre os ciclones explosivos de 2016 e o de 2020 foi que em todos os casos frentes frias vigorosas vindas da Antártida estão na origem dos eventos. Em 2016, o fenômeno tinha ligação direta com o SAM (Modo Anular do Hemisfério Sul), uma espécie de “campo de força” de ventos que circunda o continente austral. O SAM oscila entre fases positiva e negativa. A negativa facilita a injeção de ar polar, ultrafrio, nas latitudes mais baixas. Em 2016 o SAM estava negativo.
Segundo os pesquisadores gaúchos, o SAM tem estado positivo neste ano, mas passou para negativo a partir de 27 de junho – três dias antes do ciclone-bomba.
Com o aquecimento da Terra, o contraste de temperatura entre a Antártida e a região tropical pode favorecer ciclones mais intensos, embora o número dessas tempestades não tenha variado muito desde a década de 1980.
É bom a população catarinense “já ir” se acostumando. “Tivemos alguns alertas, mas foram poucos”, diz Miriam Prochnow. “Precisamos levar isso a sério. Ninguém foi alertado para não subir em andaimes, como aconteceu em Balneário Camboriú, ou para não andar em estradas.”