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Escrito por Neo Mondo | 29 de março de 2019
“No panorama global apresentado no artigo, o Brasil tem destaque negativo: pelo menos 50 espécies ou populações foram afetadas, sendo que 12 foram extintas e 38 sofreram declínio. Algumas populações já dão indício de recuperação, enquanto outras permanecem desaparecidas”, contou Toledo.
A Mata Atlântica, segundo o pesquisador da Unicamp, foi o bioma mais afetado no país. A grande maioria dos registros de extinção vai do Espírito Santo ao Paraná.
“Existem alguns pontos em que sabidamente sumiram muitas espécies, como Boraceia [litoral norte de São Paulo], Serra dos Órgãos [Rio de Janeiro], Itatiaia [na divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais] e Caparaó [divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo]. Mas isso não quer dizer que outras regiões não sofreram impacto. Simplesmente não tínhamos uma amostragem tão boa como a da Mata Atlântica”, disse Toledo.
Doença fatal
A quitridiomicose é causada por duas espécies de fungo do gênero Batrachochytrium. O B. salamandrivorans afeta apenas as salamandras e nunca foi registrado no Brasil. Já o B. dendrobatidis é encontrado em todos os continentes e acomete os três grupos de anfíbios: anuros (sapos, rãs e pererecas), salamandras e cobras-cegas, ou cecílias.
O patógeno se aloja nas células da pele dos indivíduos adultos, prejudicando a respiração e levando-os à morte por parada cardíaca. Em girinos, o fungo parasita a região do bico e dos dentículos, dificultando a alimentação e comprometendo o crescimento.
Segundo o levantamento divulgado na Science, o grupo dos anuros – onde estão 89% das espécies anfíbias – foi o que sofreu o maior número de declínios severos (93%) por ser também o mais abundante. As regiões tropicais da Austrália e das Américas Central e do Sul foram as mais afetadas, enquanto Ásia, África, Europa e América do Norte apresentam número “notavelmente baixo” de declínios.
As principais vítimas foram as espécies de distribuição geográfica restrita, com corpo grande, moradoras de regiões úmidas e com hábitos aquáticos perenes – uma vez que os esporos do Batrachochytrium são liberados na água e conseguem nadar até infectar outro hospedeiro.
Segundo Toledo, alguns gêneros de anuros se mostraram particularmente suscetíveis à infecção, como é o caso do Atelopus – com espécies ocorrendo entre a América Central e a América do sul, desde a Costa Rica até a Amazônia brasileira.
“O pico dos declínios aconteceu nos anos 1980, como mostramos em um artigo anterior, e a doença só foi descoberta em 1998. Isso prejudicou os trabalhos de mensuração do impacto, pois quando percebíamos as espécies declinando ou sendo extintas não tínhamos ideia do motivo”, disse Toledo.
A hipótese defendida pela maior parte dos especialistas, divulgada em 2018 também na Science, é que uma linhagem virulenta do fungo originária da Ásia tenha chegado à América Central no último século e se disseminado para o continente sul-americano. Acredita-se que o processo tenha sido favorecido pelo transporte de anfíbios – tanto para consumo humano, quanto para o mercado de bichos de estimação.
“Na Mesoamérica, onde acreditamos que os anfíbios não tinham contato prévio com o fungo, muitas espécies foram totalmente dizimadas. No Brasil, onde a doença existe desde o século 19, pelo menos, alguns animais já haviam desenvolvido resistência e o impacto parece não ter sido tão grande”, disse Toledo.
No artigo mais recente, os cientistas afirmaram que a “letalidade sem precedentes de uma única doença que afeta uma classe inteira de vertebrados destaca a ameaça de disseminação de novos patógenos em um mundo globalizado”.
Para os autores, políticas de biossegurança efetivas e a redução imediata no comércio de vida selvagem são “urgentemente necessárias” para reduzir o risco de disseminação de novos patógenos.
“Como a mitigação da quitridiomicose na natureza permanece incerta, novas pesquisas e monitoramento intensivo com tecnologias emergentes são necessários para identificar mecanismos de recuperação de espécies, bem como desenvolver novas ações de mitigação para espécies em declínio”, disse Scheele.
O artigo Amphibian fungal panzootic causes catastrophic and ongoing loss of biodiversity, de Ben C. Scheele et al, pode ser lido em http://science.sciencemag.org/cgi/doi/10.1126/science.aav0379.
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