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Escrito por Neo Mondo | 7 de agosto de 2026
Genética a serviço da fiscalização: bexigas natatórias desidratadas apreendidas em Guarulhos, cuja identificação só foi possível por análise de DNA. Um quilo do produto alcança R$ 3 mil no Pará, cerca de cem vezes o preço da carne de espécies como a pescada-amarela - Foto: Fábio Porto-Foresti/FC-Unesp
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Estavam dentro de malas, escondidas em caixas, algumas embaladas em saquinhos que imitavam salgadinhos industrializados. Bexigas natatórias desidratadas de peixes amazônicos, prontas para embarcar rumo a Hong Kong, Estados Unidos, Reino Unido e China. Em outra apreensão no mesmo terminal, milhares de pepinos-do-mar secos seguiam para a Itália. O Aeroporto Internacional de Guarulhos virou ponto de passagem de um comércio que o olho humano não consegue flagrar, porque a mercadoria chega descaracterizada. Sem forma, sem cor, sem qualquer traço que permita dizer de que espécie se trata.
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A resposta veio do DNA. Diante de amostras ressecadas e impossíveis de identificar pela aparência, pesquisadores da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista, em Bauru, recorreram ao sequenciamento genético para nomear o que estava dentro daquelas embalagens. O trabalho, feito em parceria com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, saiu em dois artigos, um na Forensic Science International: Reports e outro na Scientific Reports.
A técnica se chama DNA barcoding. Funciona como um código de barras biológico: sequencia-se um trecho específico do genoma, o gene COI, que difere de espécie para espécie e serve como assinatura única. Basta um fragmento minúsculo de tecido. No caso das bexigas natatórias, os cientistas analisaram 120 amostras apreendidas pelo Ibama e encontraram oito espécies diferentes misturadas na carga.
A maioria pertencia a duas delas. A pescada-amarela (Cynoscion acoupa) e a gurijuba (Sciades parkeri), ambas classificadas como vulneráveis à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza. O dado que aparece nesse ponto muda a natureza do problema. A bexiga natatória, órgão que controla a flutuabilidade do peixe na coluna d'água, alcança R$ 3 mil o quilo no Pará quando desidratada. Cerca de cem vezes o preço da carne dessas mesmas espécies. O produto seco é conhecido como grude, e dele se extrai um composto usado para clarificar vinho e cerveja. Na China e em Hong Kong, entra em caldos, sopas e na medicina tradicional.
"Nosso estudo mostrou que a grande maioria das amostras era dessas duas espécies, o que traz uma preocupação sobre seu real estado de conservação e se os estoques naturais estariam sendo explorados num volume maior ao que pode ser reposto pela reprodução dos peixes", afirma Ricardo Utsunomia, professor da FC-Unesp que coordenou os trabalhos ao lado de Fábio Porto-Foresti.
Nem tudo o que passa por Guarulhos é ilegal em si. A exportação de bexiga natatória é permitida, desde que respeitados os trâmites: estocagem correta, documentação que ateste a origem. As cargas interceptadas não cumpriram nada disso. "Nem todo material é necessariamente proibido de ser exportado, mas pode ser apreendido por problemas na documentação", explica Porto-Foresti. A ausência de papel legal é justamente o que abre espaço para que espécies ameaçadas entrem disfarçadas na cadeia de exportação, embaladas junto a peixes de captura permitida.
Com os pepinos-do-mar, a regra é outra. O comércio é proibido. Nas amostras apreendidas pelo Ibama, os pesquisadores identificaram 18 exemplares de Holothuria grisea e 22 de Isostichopus badionotus, as duas espécies mais abundantes na costa brasileira. Ambas figuram como "menos preocupante" na lista da IUCN, mas o dado global esconde a fragilidade local: o comércio não é monitorado, e a coleta é fácil demais. Os animais são apanhados com as mãos, em costões rochosos à beira-mar.
"Os pepinos-do-mar são animais negligenciados em termos de conservação, com poucos dados disponíveis e sem o apelo de espécies da chamada 'fofofauna', como golfinhos e baleias", relata Auany Camila Fantinelli, primeira autora do artigo publicado na Scientific Reports e bolsista de iniciação científica da FAPESP. "Ainda que haja dados escassos, nos últimos anos pesquisadores que acompanham essas populações têm notado um declínio de sua abundância."
Extrair informação genética desse material desidratado beira o impossível. "Foi como tirar DNA de pedra", brinca Fantinelli. Os pepinos-do-mar são exportados secos para reduzir volume e conservar melhor, e o processo degrada o material genético no caminho. Havia ainda um obstáculo mais estrutural. Uma das espécies encontradas, Holothuria grisea, sequer tinha sequências depositadas em bancos de dados públicos. Sem essa referência, não há como comparar e confirmar a identidade. Os pesquisadores tiveram que sair a campo, coletar espécimes frescos em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, sequenciar o trecho COI e usá-lo como padrão. Só então o cruzamento com as amostras do aeroporto fechou a identificação.
A investigação integra projeto apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA. E aponta para uma lacuna que vai além da apreensão pontual: sem bancos genéticos completos, o Estado não consegue nem sequer saber o que está sendo traficado. O caso chinês serve de alerta. Apostichopus japonicus, pepino-do-mar antes abundante na Ásia, foi capturado a ponto de despencar em número, o que empurrou a demanda para espécies de outros países. O Brasil está no fim dessa fila.
"Embora sua aparência possa parecer desagradável para nós, esses organismos têm importantes funções ecológicas no ambiente, filtrando detritos e servindo de alimento para outras espécies", diz Porto-Foresti. "A redução ou extinção das populações pode ainda resultar na perda de compostos bioativos com potencial benefício para a saúde global. Os pepinos-do-mar são bastante estudados por conta de sua grande capacidade de regeneração, por exemplo."
Os autores defendem monitoramento contínuo das espécies exportadas e a expansão dos bancos genéticos para cobrir as lacunas que hoje deixam animais ameaçados invisíveis à fiscalização. Enquanto o código de barras de uma espécie não existe num repositório aberto, ela viaja sem nome, dentro de uma mala, embalada como petisco.
*Com informações da Agência Fapesp.
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