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O Brasil tem 1.737 espécies de formigas — e um modelo de organização que a IA está copiando

Escrito por Neo Mondo | 13 de julho de 2026

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Brasil concentra a maior diversidade de formigas do planeta — colônia inteira se desloca em cooperação sobre um caule, sem qualquer comando central - Foto: ilustrativa/Magnific

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO*

Uma formiga sozinha decide pouco. Um formigueiro inteiro decide tudo — e sem que ninguém esteja no comando

Essa é a premissa que sustenta um dos livros mais ambiciosos já publicados sobre o inseto que domina a biomassa terrestre. Lançado no fim de 2025 durante o XXVII Simpósio de Mirmecologia, em Recife, *Brazilian Myrmecology: Exploring the World's Richest Ant Fauna* reúne 144 cientistas de 48 instituições brasileiras e estrangeiras em 24 capítulos que atravessam dois séculos de pesquisa: dos naturalistas do XIX aos laboratórios de genômica e comportamento do presente. A obra foi organizada por Rodrigo Machado Feitosa, da Universidade Federal do Paraná, Carla Rodrigues Ribas, da Universidade Federal de Pernambuco, e Fernando Augusto Schmidt, da Universidade Federal do Acre.

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O recorte não é gratuito. O Brasil concentra a maior diversidade de formigas do planeta — 1.737 espécies e subespécies catalogadas até 2025, distribuídas por biomas que vão do Pantanal à Amazônia. Em escala global, estima-se algo próximo de 20 quatrilhões de indivíduos vivos, o equivalente a 2,5 milhões de formigas para cada pessoa na Terra. Poucos grupos de organismos oferecem esse volume de dados comportamentais para observar, e é exatamente esse volume que começa a interessar campos que, à primeira vista, nada têm a ver com entomologia.

O ponto de partida é o que Feitosa chama de inteligência coletiva: decisões complexas que emergem da cooperação entre muitos indivíduos, sem que exista um organismo central exercendo controle. Em vez de uma rainha comandando operações, o formigueiro funciona como um sistema distribuído, onde cada indivíduo segue regras simples de resposta a estímulos químicos e táteis — e o resultado agregado é uma logística capaz de resolver problemas que confundiriam qualquer gestor humano.

A prova está na adaptação a crises ambientais. No Pantanal, sujeito a inundações sazonais, colônias inteiras migram verticalmente, subindo para o topo das árvores até que as águas baixem — uma realocação coordenada sem planejamento centralizado. Sob ataque, algumas espécies formam o que os pesquisadores descrevem como campos de sobrevivência: evacuação em massa do ninho, com as crias carregadas para fora do perigo. Há também cooperação entre espécies distintas — Camponotus femoratus e Crematogaster levior dividem trilhas e estruturas de ninho, somando forças de defesa e de forrageamento em benefício mútuo.

É esse tipo de padrão que migrou para a engenharia de sistemas. Operárias de Acromyrmex crassispinus regulam o tráfego em suas trilhas por contato tátil e feromônios, ajustando o fluxo entre ninho e fontes de alimento de forma a evitar congestionamentos e erros de navegação em bifurcações — um problema de roteamento que qualquer rede logística reconhece. Formigas do gênero Pachycondyla praticam a corrida em tandem, na qual uma operária experiente guia outra até o alimento, replicando o caminho com precisão para as demais. Modelos de otimização por colônias de formigas — hoje aplicados a roteirização de entregas e a buscas em grandes bases de dados — simulam exatamente essa lógica: milhares de agentes exploram rotas simultaneamente, e os caminhos mais eficientes recebem reforço digital equivalente às trilhas químicas que as formigas reais deixam no solo. O sistema converge para a melhor rota sem que nenhum agente individual saiba qual é o objetivo final.

A navegação, por si só, já é um capítulo à parte. Além de feromônios e contato tátil, diferentes espécies recorrem ao padrão do dossel florestal, à luz polarizada do sol ou, no caso de Mayaponera constricta, a partículas magnéticas no próprio corpo que funcionam como bússola — um sensor biológico do campo magnético terrestre. A combinação dessas ferramentas de orientação segue alimentando pesquisas em robótica e sistemas autônomos, que buscam replicar em máquinas a mesma robustez que as formigas exibem em terrenos complexos e imprevisíveis.

Fora da lógica computacional, as formigas prestam serviços que a ciência forense já sabe explorar. Espécies específicas colonizam cadáveres em estágios sucessivos de decomposição, e o conhecimento desse padrão temporal ajuda peritos a reconstruir cronologias em investigações criminais. A mesma sensibilidade ambiental que orienta esse uso forense faz das formigas bioindicadoras privilegiadas da saúde de um ecossistema: como praticamente todas as espécies dependem de temperatura e umidade para sustentar suas atividades, qualquer alteração climática se traduz, quase de imediato, em mudanças de distribuição e abundância.

Essa dependência tem um verso menos otimista. Regiões que se tornam mais quentes e secas tendem a favorecer um número reduzido de espécies generalistas, enquanto formigas especializadas — muitas restritas a microambientes específicos — correm risco de desaparecimento local. O efeito em cascata reduz a diversidade das comunidades e compromete funções que essas espécies desempenham sozinhas: dispersão de sementes, reciclagem de nutrientes, controle populacional de outros insetos, alteração física da estrutura do solo, além do papel como base alimentar de uma cadeia inteira de predadores.

Há ainda um capítulo de agricultura que antecede a espécie humana em dezenas de milhões de anos. Formigas dos gêneros Atta e Acromyrmex cortam e processam volumes expressivos de material vegetal para cultivar jardins de fungos — sistemas de produção de alimento organizados e protegidos contra patógenos muito antes de qualquer civilização ter inventado a lavoura. Outras espécies incorporam sementes às paredes dos próprios ninhos: a planta que germina fornece sustentação física e recursos, e recebe em troca nutrientes e proteção contra herbívoros. É simbiose em sentido estrito, testada por escalas de tempo evolutivo que tornam qualquer parceria comercial humana parecer provisória.

Feitosa resume o valor da obra como um exercício de memória tanto quanto de ciência: compreender como as formigas respondem às mudanças climáticas pode ajudar a identificar áreas prioritárias de conservação e antecipar efeitos sobre outros grupos de organismos. É uma aposta modesta na aparência — mais um livro de mirmecologia — mas que carrega, entrelinhas, uma proposta maior: a de que sistemas sem centro de comando, testados e refinados por dezenas de milhões de anos, ainda têm muito a ensinar sobre como organizar o que parece incontrolável.

*Com informações de Livia Inacio (Ciência UFPR).

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