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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 13 de julho de 2026
Roupa que veste o corpo também pode deixar marcas no planeta. O impacto continua mesmo depois da lavagem - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Há um exercício que faço com frequência no consultório: perguntar ao paciente não o que ele aplica na pele, mas o que ele veste sobre ela. A resposta quase sempre revela poliéster, nylon, acrílico, elastano — tecidos derivados do petróleo que já discuti aqui em outro texto, quando falei sobre o que essas fibras provocam na barreira cutânea ao longo de um dia inteiro de contato. Mas há uma pergunta que essa consulta nunca responde, e que comecei a me fazer depois de olhar para o próprio cesto de roupa suja: para onde vai o tecido depois que ele sai da pele?
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A resposta, descobri, não é tão diferente do raciocínio clínico que aplico todos os dias. Assim como avaliamos o que acontece no microambiente entre a pele e o tecido — calor, atrito, umidade retida —, existe outro microambiente que começa exatamente onde o primeiro termina: a máquina de lavar. O atrito, o uso e principalmente as lavagens liberam fibras microscópicas de plástico que a pele não vê, mas que seguem para algum lugar. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Agência Europeia do Ambiente estima que os tecidos sintéticos estejam relacionados a uma parcela significativa dos microplásticos que chegam aos oceanos — entre 16% e 35% das liberações de microplásticos para o ambiente marinho. Essas fibras seguem pela água da lavagem até os sistemas de tratamento de esgoto; parte é retida, mas outra parte alcança rios, solos e oceanos.
Acho essa continuidade reveladora. Como dermatologista, aprendi a enxergar a pele como um órgão em diálogo constante com o que a toca — e a roupa é o material que permanece mais tempo nesse contato, todos os dias, por horas seguidas. O que talvez ainda não tenha me ocorrido, até recentemente, é que essa mesma peça carrega uma segunda vida depois que sai do corpo, e que essa vida também deixa marcas, só que num organismo maior: o do ambiente onde vivemos e onde, no fim, nossa própria pele volta a estar exposta.
Não se trata de demonizar o poliéster, como já disse antes sobre a pele, nem de fingir que fibras naturais resolvem sozinhas essa equação — seu cultivo também consome água, terra e energia, e a produção de qualquer tecido carrega uma pegada própria. O que aprendi observando pacientes, e agora observando também o próprio guarda-roupa, é que a pergunta certa não é "qual tecido é o vilão", mas por quanto tempo uma peça é usada e quantas vezes ela passa pela máquina antes de ser descartada. Uma roupa comprada por impulso e descartada depois de poucos usos multiplica exatamente aquilo que a lavagem libera; uma peça durável, usada por anos, reduz esse ciclo de forma mais eficaz do que qualquer troca de fibra.
É um raciocínio que uso todos os dias na dermatologia e que passei a aplicar também aqui: pele e ambiente não são discussões separadas, são a mesma discussão vista em duas escalas diferentes. Cuidamos da nossa barreira cutânea escolhendo com atenção o que fica em contato com ela por horas. Talvez seja hora de estender esse mesmo cuidado para o que acontece depois — quando a roupa sai do corpo, entra na máquina e segue, invisível, para um lugar que também precisamos proteger.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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