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Escrito por Neo Mondo | 25 de junho de 2026
Planta que alimenta civilizações há mais de três mil anos, o cacaueiro exige do produtor tanto saber botânico quanto paciência — duas coisas que nenhum fungicida substitui - Foto: Ilustrativa/Pixabay
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
A vassoura-de-bruxa foi descrita pela primeira vez em 1785, durante a expedição do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira pela bacia amazônica. Dois séculos depois, o fungo Moniliophthora perniciosa seguia sendo a maior força destrutiva da cacauicultura das Américas, responsável por perdas de até 90% da produção em lavouras suscetíveis e pelo colapso econômico do sul da Bahia nos anos 1990, quando o Brasil passou de quase 400 mil toneladas anuais para 123 mil toneladas em menos de uma década. O problema nunca foi, rigorosamente, a ausência de conhecimento sobre o fungo. Foi a incapacidade de modificar o ambiente em que ele prospera.
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É nesse ponto que uma pesquisa publicada na Scientific Reports em fevereiro de 2026 muda o enquadramento da questão. Em vez de combater o fungo com agroquímicos ou tentar alterar o clima quente e úmido que o favorece, a equipe liderada por Renato de Mello Prado, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Jaboticabal, voltou o olhar para dentro da própria planta, para o que ela é capaz de fazer quando recebe a genética e a nutrição certas. O estudo avaliou 25 cultivares de cacau na Estação Experimental Frederico Afonso, da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), em Rondônia, e identificou dois com desempenho notavelmente superior: os clones EEOP 63 e EEOP 65. Comparados às variedades mais suscetíveis ao fungo, esses dois materiais registraram aumento de até 32% na produção de sementes.
O que torna o achado relevante para além do número não é a magnitude do ganho em si, mas sua explicação. Os dois clones não foram simplesmente mais produtivos; foram mais equilibrados nutricionalmente em condições adversas. Solos amazônicos são altamente intemperizados, sujeitos a processos severos de degradação física e química provocados pelo excesso de chuvas — e que são naturalmente pobres em minerais essenciais como cálcio, magnésio e potássio. Nesses solos, a tendência recorrente entre os 25 cultivares avaliados foi o acúmulo de nitrogênio não metabolizado e a deficiência de boro, duas condições que, em combinação, criam um ambiente favorável ao fungo e desfavorável à planta. O excesso de nitrogênio gera compostos que o M. perniciosa utiliza como alimento; a falta de boro enfraquece a integridade das paredes celulares e compromete os processos reprodutivos do cacaueiro.
Os clones EEOP 63 e EEOP 65 escaparam desse padrão. Suas análises foliares mostraram concentrações mais elevadas de fósforo, potássio, cálcio e magnésio, o que os pesquisadores associam à maior tolerância à doença e à capacidade de manter produtividade mesmo sob estresse. Edilaine Istéfani Franklin Traspadini, pesquisadora de pós-doutorado da Fapesp e primeira autora do artigo, explica que o estudo confirmou que a tolerância à vassoura-de-bruxa na Amazônia não é uma característica isolada: "ela pode ser modulada pelo equilíbrio nutricional e pela capacidade produtiva sob estresse de um cultivar."
Essa leitura tem implicações que transcendem a agronomia. Quando uma planta é atacada por um patógeno, enfrenta o que Prado descreve como um dilema biológico: depositar energia no crescimento ou na resistência. Plantas com desequilíbrio nutricional não conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo e acabam cedendo em uma das frentes. Os clones selecionados, ao apresentarem perfil mineral mais equilibrado, rompem essa escolha forçada. "Quando recebe a nutrição adequada e tem a genética certa, a planta consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo e supera essa limitação", afirma Prado.
A pesquisa envolveu colaboração entre a Unesp, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Porto Velho, a Universidade Federal de Rondônia (Unir, campus Rolim de Moura) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam, campus Humaitá), e foi apoiada pela Fapesp. Esse tipo de articulação institucional é um indicativo de que o trabalho não foi concebido como experimento isolado, mas como parte de uma agenda mais ampla de melhoramento genético adaptado às condições do bioma. Os pesquisadores são explícitos ao afirmar a necessidade de estudos semelhantes e mais abrangentes na região, com o objetivo de ampliar o portfólio de clones disponíveis para o produtor rural. Ter duas opções testadas é uma base; ter dez ou vinte é uma estratégia.

O contexto de mercado torna essa agenda ainda mais premente. O Brasil produz hoje cerca de 220 mil toneladas de cacau por safra, segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO), o que o coloca na sexta posição mundial, bem atrás de Costa do Marfim e Gana, que juntos respondem por quase metade da oferta global. O país segue como importador líquido, situação que persiste mesmo com a queda recente no consumo interno de derivados, que em 2025 registrou retração de aproximadamente 15% na moagem, segundo dados compilados pela Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (Aipc). Ao mesmo tempo, os preços internacionais se mantêm em patamares elevados após o ciclo de escassez de 2024, quando as cotações oscilaram entre US$ 10 mil e US$ 13 mil por tonelada em bolsa, pressionados pelo colapso das safras africanas. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda global cria, objetivamente, espaço para a expansão da cacauicultura amazônica, mas só se ela for capaz de competir com produtividade e sem ampliar a dependência de insumos externos.
É exatamente aí que a pesquisa de Prado e Traspadini se encaixa. A combinação entre seleção genética e manejo nutricional equilibrado, com atenção especial a micronutrientes como o boro, representa uma rota de produtividade que prescinde do modelo convencional de quimificação pesada. Não é uma proposta de volta a um passado idealizado de baixo insumo; é uma proposta de precisão, de identificar o que a planta precisa para não ter que escolher entre crescer e resistir. Na floresta onde o fungo e o cacau evoluíram juntos, essa precisão pode ser a única forma de equilíbrio possível.
*Com informações da Agência FAPESP.
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