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Escrito por Neo Mondo | 30 de novembro de 2018
Se você acreditar, o futuro pode ser inacreditável[/caption]
“A primeira coisa que precisa acontecer para a reversão dos efeitos da mudança climática é a diminuição da quantidade de gases de efeito estufa,” explica Christina Kwauk, pesquisadora do Centro de Educação Universal do Brookings Institute, nos Estados Unidos. “Mas não estamos prestando atenção no seguinte: o crescimento populacional é maior nos lugares em que as meninas não estão indo à escola ou não estão terminando os estudos; onde mulheres não têm controle sobre a própria vida reprodutiva e não têm acesso a planejamento familiar.”
Christina é uma das autoras de uma pesquisa publicada em setembro de 2017 que encontrou uma forte associação entre a duração média da educação de meninas em um país e a pontuação desse país em índices que medem a resiliência a desastres ambientais. Afinal, quanto maior a escolaridade de meninas e mulheres, mais rendimento e oportunidades de mobilidade social elas têm. Isso quebra ciclos de pobreza, que aumentam a vulnerabilidade a desastres ambientais. “Investir em igualdade de gênero é uma opção muito mais barata quando se trata de alívio dos efeitos do clima, além de ajudar a melhorar a qualidade de vida e o futuro de metade da população do mundo”, diz a pesquisadora.
Segundo o projeto Drawdown, sem planejamento familiar, a projeção é de que o planeta tenha 9,7 bilhões de pessoas em 2050. Isso teria impacto, por exemplo, na construção civil, na produção de alimentos e de resíduos, no uso de transportes, gerando o lançamento de 119,2 gigatoneladas de gás carbônico (1 gigatonelada equivale a 1 milhão de toneladas) na atmosfera.
É preciso dizer, no entanto, que os países com maior crescimento populacional hoje no mundo não são os que mais poluem. O Sudão do Sul, por exemplo, que está entre os líderes mundiais de crescimento populacional, é o 157⁰ país mais poluente, enquanto os Estados Unidos, cuja população cresce quatro vezes menos, é o segundo maior poluidor.
Além disso, segundo especialistas, é preciso ter cuidado para “não culparmos, mesmo que acidentalmente, as mulheres pela superpopulação e danos climáticos”, explica Amber Fletcher, professora de sociologia da Universidade de Regina, no Canadá. “Os corpos das mulheres são frequentemente alvo de discursos sobre excesso de população”, diz ela. “Se formos muito longe com isso corremos o risco de entrar em políticas e medidas legislativas que podem na verdade ferir os direitos reprodutivos das mulheres.”
Mas o acesso à educação e aos direitos reprodutivos não é a única estratégia relacionada a gênero que beneficia o meio ambiente. Segundo o projeto Drawdown, o empoderamento de mulheres agricultoras também teria efeito sobre a quantidade de poluentes lançados na atmosfera.
As mulheres representam, em média, 43% da força de trabalho no campo. Nas regiões mais pobres, elas produzem de 60% a 80% da comida. Mas a maioria delas é de pequenas proprietárias, com menos renda, menores chances de conseguir empréstimos e menos proximidade com novas tecnologias em comparação aos produtores homens.
Se elas tivessem o mesmo acesso que eles a recursos, a produção aumentaria entre 20% e 30%, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Esse ganho levaria a uma necessidade menor de desmatar outras áreas em busca de melhores resultados, evitando, pelos cálculos dos especialistas do Drawdown, o lançamento de 2 gigatoneladas de dióxido de carbono na atmosfera até 2050.
Ilaete e Sandra dos Reis, filha e mãe, trabalham juntas na horta de casa, na Zona da Mata, em Pernambuco: a produção alimenta a família, e o excedente gera renda (Fabio Erdos/Actionaid)
Aos poucos, as mudanças vão acontecendo. Em junho, a Comissão de Direitos Humanos da ONU aprovou a realização de um painel sobre o tema e de um estudo avaliando a integração de abordagens de gênero na ação climática global. Além disso, a COP23 deu início à implantação do primeiro Plano de Ação de Gênero, que traz cinco pontos para aumentar o número de mulheres nas próximas conferências e garantir que a questão de gênero influencie todos os debates.
Isso é importante, pois, como explica Sherilyn MacGregor, “quaisquer políticas que tentem responder à mudança climática, seja reduzindo emissões ou fazendo sociedades e comunidades mais resilientes à mudança do clima, terão diferentes implicações e impactos em pessoas de acordo com o gênero, a raça, a classe.”
Por isso, também é importante que os fundos distribuídos pelas Nações Unidas para programas de adaptação aos efeitos da crise do clima sejam principalmente direcionados a grupos de mulheres nas áreas mais afetadas. “Precisamos garantir que esses recursos financeiros impactem agricultoras e pequenas proprietárias”, explica Patricia Glazebrook, professora de filosofia da Washington State University e conselheira da organização Gender CC: Women for Climate Justice. Afinal, garantir que todos os seres humanos tenham os mesmos direitos e recursos é não só preservar nossa sobrevivência como espécie, mas também garantir a sobrevivência do planeta.
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