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Reinventando o Plástico: como a ERT está construindo um futuro compostável e circular

Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2025

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Saco de bioplástico compostável da ERT - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

ERT aposta em bioplástico compostável, feito de cana-de-açúcar, para liderar a transição para uma economia circular na América Latina

Imagine um mundo onde o plástico não é sinônimo de poluição, mas de regeneração. Onde cada sacola, copo ou talher descartável volta para a terra e vira adubo em poucos meses, em vez de se transformar em um problema para gerações futuras. É exatamente esse o futuro que a ERT Bioplásticos está ajudando a construir — e Gabriela Gugelmin*, diretora de estratégia e sustentabilidade da empresa, é uma das mentes por trás dessa revolução verde.

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Nesta conversa, mergulhamos no universo de uma greentech que nasceu para desafiar o status quo do plástico convencional. Falamos sobre inovação feita com ciência e propósito, sobre o impacto das legislações na América Latina, sobre a experiência do consumidor e, claro, sobre o papel que os bioplásticos podem desempenhar na tão sonhada economia circular.

Prepare-se para uma entrevista que combina paixão e pragmatismo, ciência e mercado, propósito e resultado. Porque o que está em jogo aqui vai muito além de tecnologia — é sobre redesenhar a relação entre consumo, planeta e futuro.

foto de gabriela gugelmin, entrevistada da matéria; Reinventando o Plástico: Como a ERT Está Construindo um Futuro Compostável e Circular
Gabriela Gugelmin - Foto: Divulgação

"O plástico não precisa ser o vilão da história — se ele nasce para voltar à terra, ele pode ser parte da solução."
Gabriela Gugelmim, diretora de estratégia e sustentabilidade da ERT Bioplásticos

Acompanhe a entrevista:

Gabriela, antes de falarmos de bioplásticos, quero entender sua jornada pessoal — o que te moveu para o campo da sustentabilidade e como isso moldou sua visão de negócios?

Sempre tive uma paixão genuína pela sustentabilidade. Desde jovem, sabia que queria dedicar minha trajetória a esse tema. Meu grande sonho era estudar com Jeffrey Sachs, criador dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS) da ONU, e isso me levou a aplicar para Universidade Columbia, em Nova York, onde me formei em Economia e Desenvolvimento Sustentável. Essa experiência foi transformadora e consolidou minha convicção de que sustentabilidade não é apenas um valor, mas um propósito que guia minhas escolhas profissionais. Acredito muito no equilíbrio do tripé da sustentabilidade — ambiental, social e econômico. Para mim, é nesse equilíbrio que os negócios se tornam realmente sólidos e capazes de gerar impacto positivo.

O plástico é um vilão para muitos, mas vocês apostam em um “novo plástico” que fecha o ciclo. Qual foi o maior desafio de convencer o mercado de que um material compostável pode ser tão eficiente quanto o convencional?

O maior desafio, sem dúvida, é quebrar paradigmas. A indústria do plástico é centenária, altamente consolidada e, ao mesmo tempo, vem sendo bastante criticada — o que naturalmente gera resistência a mudanças. Nosso papel tem sido mostrar, na prática, que esse “novo plástico” é uma nova tecnologia que vem para fortalecer e fazer o setor crescer, oferecendo a mesma eficiência do convencional, mas com a vantagem de fechar o ciclo e ser muito mais sustentável. Fazemos isso oferecendo suporte técnico próximo aos nossos clientes transformadores de embalagem e apresentando referências globais, como os casos da Itália, dos Estados Unidos e da China, que já avançaram bastante na transição para o plástico compostável. Aos poucos, essas barreiras estão sendo superadas, e já vemos grandes marcas adotando essa solução como parte de sua estratégia de inovação e sustentabilidade.

A resina PLA da ERT vem da cana-de-açúcar e ainda assim entrega performance técnica. Como foi equilibrar ciência, inovação e viabilidade econômica para chegar a esse resultado?

A ERT vem estudando o desenvolvimento dos seus compósitos há mais de oito anos. Nossa história começou dentro de um laboratório de pesquisa da Clemson University, um dos centros de maior referência mundial em polímeros. Desde então, a inovação constante se tornou um dos pilares da empresa. Mas sempre tivemos clareza de que inovação, sozinha, não é suficiente: é preciso ser também economicamente viável, caso contrário a mudança nunca acontece. Esse equilíbrio tem sido construído com diferentes fatores — a matéria-prima, como o PLA da cana-de-açúcar, vem reduzindo custos globalmente com ganho de escala, e nosso time interno de P&D trabalha continuamente para aprimorar tanto a performance técnica quanto a competitividade de custo. O resultado é um material que alia ciência, inovação e viabilidade econômica, tornando possível acelerar a transição para embalagens mais sustentáveis.

Você acompanha de perto os avanços regulatórios da região. Qual país da América Latina te inspira mais hoje em termos de políticas públicas para plásticos de uso único? E como o Brasil está se posicionando nesse cenário?

Na América Latina, o país que mais me inspira hoje é a Colômbia — em julho de 2024 entrou em vigor a Lei 2232, que proíbe oito tipos de produtos plásticos de uso único, mostrando que regulação efetiva é viável e pode ter impacto prático. Outros como Chile, Peru, México e Argentina também têm avançado bastante, especialmente exigindo compostáveis, regulando sacolas e restringindo descartáveis.
E o Brasil? Estamos atrasados num sentido importante: ainda não temos uma legislação nacional unificada sobre plásticos de uso único. Essa lacuna deixa o mercado sem uma diretriz clara — embora exista grande potencial para inovação e negócios sustentáveis, precisamos de uma política pública forte para destravar esse movimento.

foto de sacola com bioplástico degradável da ERT, remete a matéria Reinventando o Plástico: Como a ERT Está Construindo um Futuro Compostável e Circular
Sacola com bioplástico compostável da ERT - Foto: Divulgação

No dia a dia, qual é a maior mudança que o consumidor percebe quando usa uma sacola ou um talher da ERT? Há alguma reação ou história que te marcou?

No geral, é incrível ver a surpresa das pessoas ao tocar nossos materiais: parecem plástico comum, e muitos duvidam que ele realmente se transforme em adubo… mas transforma mesmo! (risos) Mas um exemplo muito legal é o canudo. Por anos, ele foi visto como vilão e substituído pelo canudo de papel, que infelizmente não entrega uma boa experiência — derrete rápido e gruda na boca.O canudo feito com bioplástico da ERT, em contrapartida, oferece a mesma experiência agradável do plástico convencional, mas sem o impacto ambiental negativo.

Com fábricas em Curitiba e Manaus, vocês já estão em operação industrial robusta. Qual o próximo passo para escalar essa solução e tornar os bioplásticos mainstream no Brasil?

Nosso próximo passo é expandir ainda mais a base de clientes em toda a América Latina, ampliando escala e consolidando o uso dos bioplásticos. Com esse crescimento, queremos criar as condições para verticalizar a cadeia e produzir PLA no próprio Brasil, a partir da cana-de-açúcar. O país já é uma referência global nessa matéria-prima e possui tecnologia de ponta nesse setor. Trazer a produção de PLA para cá significa não apenas reduzir custos e ampliar competitividade, mas também posicionar o Brasil na liderança mundial da bioeconomia.

Se você pudesse imaginar o Brasil em 2030, no cenário ideal de economia circular, qual seria o papel dos bioplásticos e da ERT nessa transformação?

No cenário ideal para 2030, o Brasil teria uma legislação nacional clara para a adoção de plásticos de uso único compostáveis, seguindo exemplos inspiradores como o da Colômbia. Isso incluiria produtos como sacolas de supermercado, embalagens de delivery, canudos, hastes de cotonete, embalagens de frutas e verduras, bags de e-commerce e invólucros de revistas. Nesse contexto, os bioplásticos teriam um papel central na construção de uma economia circular de verdade.

No fim das contas, a mensagem da ERT Bioplásticos é clara: não basta reciclar o mundo, é preciso reinventá-lo. Cada escolha que fazemos — da sacola no supermercado ao copo que usamos no café — é uma oportunidade de transformar impacto em legado.

Se a tecnologia já está aqui e o futuro pode literalmente virar adubo em 180 dias, por que continuar no mesmo ciclo de desperdício? A transição para uma economia circular depende de todos nós — empresas, governos e consumidores. E histórias como a de Gabriela Gugelmim e da ERT nos mostram que é possível, viável e urgente.

Talvez a próxima vez que você segurar um talher descartável, pense: este objeto pode ser parte do problema… ou do começo de uma solução. A escolha está nas nossas mãos.

*Gabriela Gugelmin - é Diretora de Estratégia e Sustentabilidade da ERT Bioplásticos, liderando desde 2023 a agenda de crescimento e inovação sustentável da maior produtora de bioplásticos 100% compostáveis da América Latina. Anteriormente, atuou como Diretora de Pessoas da empresa, conduzindo projetos estratégicos de gestão e desenvolvimento organizacional. Também integra o conselho da Remasa Reflorestadora, reforçando sua atuação em negócios ligados à economia verde.

É graduada em Economia pela Columbia University, com concentração em Desenvolvimento Sustentável.

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