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Escrito por Neo Mondo | 24 de fevereiro de 2026
Brasil queimou menos. 437 mil hectares — uma queda de 36% em relação a janeiro de 2025, segundo dados do Monitor do Fogo - Foto: SOS Pantanal
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Dados inéditos do MapBiomas revelam a menor área queimada em dois anos — e mostram por que comemorar com cautela pode ser o gesto mais inteligente do momento
Tem algo de incomum acontecendo no calendário do fogo no Brasil. Janeiro de 2026 fechou com 437 mil hectares queimados em todo o país — um número que, à primeira vista, pode parecer assustador, mas que representa uma queda de 36% em relação ao mesmo mês de 2025 e de nada menos que 58% em relação a janeiro de 2024. Os dados são do Monitor do Fogo, plataforma do MapBiomas, e chegam como uma rara boa notícia em um debate que raramente oferece motivos para respirar fundo.
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Só que o alívio, como quase tudo em meio ambiente, não é simples. E é justamente essa complexidade que vale a pena explorar.
A queda expressiva no total nacional esconde um paradoxo geográfico fascinante. Enquanto o Brasil como um todo queimou menos, três biomas específicos — Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica — registraram aumentos expressivos em relação a janeiro de 2025. O Pantanal viu sua área queimada saltar 323%, chegando a 38 mil hectares. A Caatinga cresceu 203% e a Mata Atlântica, 177%. Ou seja: o país melhorou no agregado, mas algumas regiões estão na contramão dessa tendência. E o fato de esses aumentos ocorrerem em janeiro — mês em que grande parte do Brasil está no período chuvoso — é o que mais preocupa os pesquisadores. "Embora janeiro de 2026 tenha apresentado uma queda expressiva da área queimada no país como um todo, os aumentos pontuais no Pantanal, na Caatinga e na Mata Atlântica chamam atenção por ocorrerem em um mês que, em geral, registra menos fogo", explica Vera Arruda, pesquisadora do IPAM e coordenadora técnica do MapBiomas Fogo.
A Amazônia continua sendo o bioma mais afetado, mesmo tendo registrado queda de 46% em relação a janeiro de 2025. Com 337,2 mil hectares queimados, o bioma concentrou sozinho a maior parte de tudo o que ardeu no país — nove vezes mais do que o segundo colocado, o Pantanal. Mas há um detalhe que muda completamente a leitura desse dado: Roraima, o estado mais atingido, com quase 157 mil hectares queimados, está vivendo seu próprio verão. O estado é o único do Brasil inteiramente localizado acima da Linha do Equador, e seu calendário climático funciona ao contrário do restante do país. Enquanto o Sul e o Sudeste enfrentam chuvas intensas em janeiro, Roraima atravessa sua estação seca — o chamado "verão roraimense" — entre dezembro e abril. "O predomínio do fogo na Amazônia em janeiro está diretamente associado a essa sazonalidade invertida, que torna o norte do bioma um ponto crítico de fogo no início do ano, enquanto a maior parte do país se encontra em pleno período úmido", explica Felipe Martenexen, pesquisador do IPAM e do MapBiomas Fogo. Os municípios de Pacaraima, Normandia e a própria capital Boa Vista concentraram os maiores focos em Roraima. Maranhão e Pará completaram o pódio estadual, e juntos os três estados responderam por 76% de toda a área queimada no Brasil no mês.
Outro dado que merece reflexão: dos 437 mil hectares queimados em janeiro, 66,8% ocorreram em vegetação nativa. As formações campestres lideraram as perdas, com 35% do total, e nas áreas agropecuárias as pastagens foram as mais atingidas, com 26,3%. Isso importa porque revela que o fogo não está apenas alcançando áreas já degradadas ou em uso produtivo — ele avança sobre ecossistemas naturais com papel fundamental na regulação do clima, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ciclos hídricos.
O que os dados de janeiro mostram, em essência, é que o Brasil está em transição — mas uma transição desigual. A tendência de queda no total queimado é real e merece reconhecimento. Políticas de monitoramento mais robustas, maior fiscalização em algumas regiões e um janeiro chuvoso em boa parte do território contribuíram para esse resultado. Mas a história que os biomas individuais contam é outra: o Pantanal, ainda fragilizado após os megaincêndios recentes, já voltou a registrar aumentos. A Caatinga, frequentemente esquecida nas grandes narrativas ambientais, triplicou sua área queimada. E a Mata Atlântica — o bioma mais devastado da história brasileira, com menos de 12% de sua cobertura original preservada — viu quase 15 mil hectares irem a cinzas, sendo 95% deles em áreas agropecuárias.
Janeiro de 2026 foi melhor do que os dois anteriores. Isso é factual, e merece ser dito sem rodeios. Mas a leitura mais honesta desse dado talvez seja esta: o Brasil ainda está muito dependente das condições climáticas de cada ano para determinar o tamanho de sua tragédia ambiental. Quando chove mais, queima menos. Quando a seca antecipa, o fogo avança. A questão que fica — e que deveria guiar o debate público nos próximos meses — é se o país está construindo estruturas permanentes de prevenção, fiscalização e recuperação que funcionem independentemente do tempo que vai fazer. Porque o próximo janeiro seco, em algum bioma, já está no calendário.
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