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O Brasil construiu o mapa. Agora começa a travessia

Escrito por William Wills | 17 de julho de 2026

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O Brasil escolheu o caminho da transição climática. Agora, precisa transformar planejamento em ação, conectando desenvolvimento, inovação e proteção das florestas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - WILLIAM WILLS*

Foram três anos de trabalho, 25 ministérios mobilizados e mais de 24 mil pessoas envolvidas na construção do Plano Clima. Em um país onde coordenar políticas públicas já é, por si só, uma tarefa complexa, trata-se de uma conquista importante.

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Mas planos, não reduzem emissões. O mapa está traçado. Agora começa a travessia.

E o tempo é curto, 2030 está a menos de quatro anos. O país conta hoje com um conjunto de instrumentos mais robusto do que em qualquer outro momento recente: metas setoriais, Fundo Clima capitalizado, mercado regulado de carbono em implantação, Lei do Combustível do Futuro, marco do hidrogênio de baixa emissão e uma política industrial que voltou a incorporar a descarbonização. O Brasil se equipou. Agora precisa fazer essas peças funcionarem juntas.

Uma meta sem financiamento é apenas uma intenção. Uma linha de crédito desconectada das prioridades nacionais pode apoiar bons projetos, mas dificilmente promoverá as transformações sistêmicas de que o país precisa. E um plano setorial que não conversa com quem regula, financia e investe corre o risco de permanecer correto no papel e fragmentado na prática. Uma das exigências mais importantes desta nova etapa é justamente conectar.

O Fundo Clima, operado pelo BNDES, é um bom exemplo. O Brasil possui uma capacidade de financiamento público que poucos países em desenvolvimento têm. Mas ainda precisamos aproximar, de forma mais clara, os instrumentos financeiros das metas estabelecidas nos planos setoriais.

A pergunta central é simples: quem financiará as profundas transformações necessárias para que essas metas sejam cumpridas?

A resposta é complexa. Algumas tecnologias já são competitivas. Outras dependerão de crédito de longo prazo, garantias, mecanismos de redução de risco ou recursos internacionais. O capital público não precisa substituir o privado. Em muitos casos, a função mais importante do governo será justamente criar as condições adequadas para que o investimento privado aconteça.

Também será necessário combinar diferentes fontes. Bancos multilaterais, fundos climáticos, investidores privados e mecanismos como o Artigo 6 do Acordo de Paris podem ajudar a mobilizar recursos para reduzir emissões e acelerar a adoção de novas tecnologias.

A questão, portanto, não é apenas mobilizar capital. É fazê-lo chegar aos projetos certos, na escala e no momento necessários, com custos e condições de risco compatíveis com investimentos de longo prazo. Isso exige governança.

O mesmo vale para o território.

Estados e municípios terão papel decisivo na implementação do Plano Clima. É nos territórios que a transição ganhará forma concreta: nas cidades, nas fábricas, no campo, nas redes de transporte e nos sistemas de energia. Muitos governos subnacionais já avançam em seus próprios planos de adaptação e descarbonização, um movimento importante que agora precisa ganhar escala e coordenação.

Em um país federativo e continental como o Brasil, isso exige uma governança climática multinível capaz de alinhar prioridades, metas, instrumentos e investimentos entre União, estados e municípios.

A criação da Câmara de Articulação Interfederativa do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) foi um avanço importante nessa direção. Mas esse é apenas o começo. O passo seguinte é transformar essa instância em um mecanismo efetivo de cooperação e articulação. Sem alinhamento, recursos escassos podem se dispersar em iniciativas desconectadas. Com uma boa articulação federativa, políticas nacionais podem destravar investimentos nos territórios, enquanto soluções estaduais e locais contribuem diretamente para as metas do país.

Há ainda uma condição incontornável: o combate ao desmatamento.

O desmatamento zero é um requisito central para que o Brasil cumpra sua NDC. Nos últimos anos, o país já conseguiu reduzir fortemente o desmatamento, mostrando que é possível avançar quando há prioridade política, capacidade de fiscalização e mobilização institucional. Mas o desafio que permanece ainda é enorme e exigirá continuidade, coordenação e o envolvimento de toda a sociedade — governos, setor produtivo, sistema financeiro e comunidades locais.

Avançar de forma consistente rumo ao desmatamento zero é também uma escolha econômica estratégica. Quanto menores forem as emissões associadas à perda de florestas, maior será o espaço, dentro das metas climáticas do país, para que os setores produtivos cresçam, invistam, gerem empregos e renda enquanto avançam em sua própria descarbonização. Ao mesmo tempo, preservar as florestas significa proteger a biodiversidade e serviços ecossistêmicos essenciais para a agricultura, a segurança hídrica, a geração de energia e a qualidade de vida da população. Combater o desmatamento, portanto, não é uma agenda separada da modernização da economia. É uma das condições para que ela aconteça.

Essa relação entre clima e economia será cada vez mais evidente. Empresas brasileiras já operam em um mundo no qual emissões, rastreabilidade e origem dos produtos influenciam o acesso a mercados, o financiamento e a competitividade. Para o setor produtivo, política climática deixou de ser apenas uma questão de sustentabilidade e virou estratégia de negócio.

E o Brasil tem vantagens importantes. Poucos países combinam uma matriz elétrica amplamente renovável, agricultura de grande escala, base industrial relevante, enorme potencial em bioenergia e biocombustíveis e uma das maiores biodiversidades do planeta.

Mas vantagens comparativas não se convertem automaticamente em desenvolvimento. É preciso transformá-las em capacidade produtiva, inovação, competitividade e empregos de qualidade.

A publicação do Plano Clima marca um momento decisivo: a oportunidade de transformar a redução de emissões em vetor de modernização da economia brasileira, atraindo investimentos, fortalecendo empresas, abrindo novos mercados e melhorando a qualidade de vida.

Os próximos anos dirão se seremos capazes de converter esse potencial em realidade. O Brasil já sabe, em grande medida, aonde precisa chegar. Agora precisa alinhar instituições, mobilizar capital e criar as condições para que a ambição se traduza em resultados concretos.

Mapas não fazem travessias. Mas ajudam a escolher o caminho, e o Brasil já decidiu aonde quer chegar. Agora é hora de avançar com urgência, aproveitar as oportunidades que essa transformação abre para o país e sustentar o compromisso de fazer da agenda climática uma prioridade permanente de desenvolvimento.

*William Wills - Diretor Técnico do Centro Brasil no Clima (CBC), engenheiro eletricista pela UFRJ, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, com mais de duas décadas de atuação na interface entre ciência, política pública, setor privado e agenda climática. É sócio-diretor da EOS Consultoria e consultor sênior do CentroClima/COPPE/UFRJ, tendo liderado e coordenado projetos estratégicos em mitigação, transição energética, precificação de carbono, modelagem macroeconômica, financiamento climático e transição justa.

foto de william wills, autor do artigo O Brasil construiu o mapa. Agora começa a travessia
William Wills - Foto:Divulgação

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