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Escrito por Neo Mondo | 23 de junho de 2026
35% Até 2035: a eletrificação deixa de ser apenas uma meta climática e passa a ocupar o centro da segurança energética global - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
Na manhã mais quente do ano em Londres, enquanto uma segunda onda de calor em poucas semanas que varria a Europa, nove governos e a Comissão Europeia reuniram-se na Mansion House para o primeiro Global Energy Transition and Electrification Summit, onde lançaram a campanha *Electrify Now*. A Semana de Clima de Londres é a primeira grande arena diplomática fora do espaço das negociações da ONU desde a COP30 em Belém, e o momento carrega a marca de uma terceira crise energética consecutiva ligada aos combustíveis fósseis — desta vez deflagrada pela escalada de conflito no Oriente Médio e pela perturbação no Estreito de Ormuz. Para Ed Miliband, secretário de Estado britânico para Segurança Energética e Net Zero, o que está em jogo não é abstrato: desde o início do conflito, afirmou ele, famílias, empresas e as finanças públicas do Reino Unido foram expostas aos efeitos de acontecimentos além de suas fronteiras — e os mais vulneráveis, sobretudo no Sul Global, enfrentam não apenas uma crise energética, mas uma ameaça à segurança alimentar e ao desenvolvimento.
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A coalizão formada nesta terça-feira (23) reúne alguns dos atores mais estratégicos do calendário climático: a Turquia, anfitriã da COP31 em Antalya; a Austrália, que preside as negociações; a Etiópia, futura anfitriã da COP32; e ainda Coreia do Sul, Filipinas, Barbados, Canadá e Reino Unido. A Agência Internacional de Energia (IEA) adere à campanha junto de mais de 40 organizações internacionais. O eixo da campanha é uma meta já anunciada pela presidência turca em Bonn, em 9 de junho: elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia global de pouco mais de 20% hoje para 35% até 2035. A meta ficou conhecida como "35 by 35".
Segundo o relatório publicado pela Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA) em maio deste ano, os combustíveis fósseis ainda respondem por 80% da oferta primária de energia no mundo. Passar de 23% para 35% de participação elétrica em uma década exige mais do que instalar painéis solares e turbinas eólicas: demanda reconstruir a espinha dorsal física das economias. A própria IRENA estima que o investimento em redes elétricas precisa alcançar uma média de US$ 1,2 trilhão por ano, mais que o dobro dos US$ 500 bilhões aplicados em 2025. Há atualmente cerca de 2.500 gigawatts de capacidade solar e eólica aguardando conexão às redes ao redor do planeta — um gargalo de infraestrutura que nenhuma meta climática resolve sozinha.
Essa tensão atravessa o lançamento da *Electrify Now* com uma força que os discursos tendem a suavizar. O secretário-geral da ONU, António Guterres, que discursou horas antes no mesmo espaço, situou a eletrificação do transporte, dos edifícios e da indústria entre as formas mais rápidas de reduzir emissões e romper a dependência de combustíveis fósseis importados. Murat Kurum, presidente da COP31, prometeu forjar "uma forte coalizão global determinada a agir", com atenção especial à assistência técnica para países em desenvolvimento. O diretor-executivo da IEA, Fatih Birol, afirmou esperar que a meta seja "um dos grandes legados da COP31". Dan Jørgensen, comissário europeu para Energia e Habitação, convocou governos, empresas e instituições financeiras a escolherem "a transformação em vez da turbulência".
A dimensão econômica do argumento é, neste ciclo, tão poderosa quanto a climática. Dave Jones, cofundador do think tank Ember, afirma que até três quartos da demanda global de energia já podem ser eletrificados com tecnologias disponíveis no mercado. "A lógica econômica para realizar essa transição nunca foi tão convincente", disse Jones, referindo-se ao grau de transformação nos preços e na qualidade dos produtos desde a crise energética de 2022. Nick Mabey, CEO da E3G e presidente da London Climate Action Week, reforçou a leitura: para ele, a volatilidade geopolítica está empurrando líderes a enxergar na segurança das energias limpas e na redução da dependência dos fósseis uma estratégia de resiliência econômica, não apenas climática.
Essa convergência de incentivos é o que distingue o momento atual dos ciclos anteriores. Em Bonn, o negociador-chefe australiano, Chris Bowen, sintetizou com precisão o que a presidência da COP31 pretende levar para Antalya: "eletrificar tudo o que pode ser eletrificado, e garantir que a maior parte possível dessa eletricidade seja renovável". A presidência definiu a meta "35 by 35" como fundamento de sua Agenda de Ação — ao lado de metas para redução de resíduos e eficiência em edificações — e comprometeu-se a produzir, em parceria com IEA e IRENA, relatórios técnicos que mapeiem as trajetórias nacionais de implementação.
O México, embora produtor de petróleo, revelou a natureza sistêmica da dependência: o país importa cerca de 75% do gás natural que consome. "Precisamos desenvolver nossa independência dessas importações por meio da geração solar e eólica, recursos dos quais dispomos em abundância", afirmou José Luis Samaniego Leyva, subsecretário de Desenvolvimento Sustentável e Economia Circular do país. A Indonésia, por sua vez, apresentou um roteiro de transição para seu setor elétrico até 2060, descrito pelo ministro do Meio Ambiente, Jumhur Hidayat, como uma estratégia para construir um sistema energético "menos dependente das oscilações dos mercados globais de combustíveis fósseis". São dois exemplos que iluminam o paradoxo central desta Semana do Clima: países que produzem ou consomem grandes volumes de petróleo e gás reconhecendo abertamente que sua vulnerabilidade está, em parte, inscrita nesses mesmos fluxos.
A conexão com a agenda brasileira é direta. O Brasil lançou, durante a COP30 em Belém, um processo internacional de elaboração de *roadmaps* para a transição para longe dos combustíveis fósseis — os chamados TAFF Roadmaps. O governo brasileiro sinalizou esperar que a agenda de eletrificação se articule com essa iniciativa. Na mesma terça-feira, o relatório da Conferência de Santa Marta sobre a transição para longe dos fósseis foi entregue à diretora-executiva da COP30, Ana Toni, com Colômbia e Países Baixos na copresidência do processo. Cazaquistão, Chade e Trinidad e Tobago anunciaram adesão à *Beyond Oil and Gas Alliance* (BOGA) para desenvolver seus próprios planos de transição.
O roteiro da IRENA projeta que, no cenário compatível com 1,5°C, a participação dos fósseis no consumo final de energia decline de 80% hoje para cerca de 50% em 2035 e para 20% ou menos até 2050. Nesses modelos, a eletricidade se tornaria o principal vetor energético do planeta já na metade do século. Mas a agência é precisa ao apontar o que esses modelos não contam: a infraestrutura é hoje o principal gargalo. Redes, armazenamento, flexibilidade de sistema — e US$ 5,5 trilhões em investimentos em grades e flexibilidade energética somente até 2030 — são as condições de possibilidade de qualquer meta política que aspire a se converter em realidade física.
A eletrificação chegou ao centro da diplomacia climática com a força de um argumento que cruza pelo menos três crises simultâneas: a climática, a energética e a geopolítica. Para Claudio Ângelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, a economia real está mandando sinais que a diplomacia não conseguiu dar na conferência de Bonn, semana passada. "Os governos precisam agora captar esses sinais e transformar em ação acelerada", disse Ângelo — e a eletrificação, na sua leitura, desponta como o atalho possível para sair das duas crises que o secretário-geral Guterres nomeou no mesmo dia: a energética e a climática, ambas causadas pelos combustíveis fósseis. O que a Mansion House reuniu nesta terça-feira foi, em essência, um reconhecimento de que os três problemas têm a mesma raiz — e pode ser que tenham a mesma saída. Se a COP31 em Antalya conseguirá transformar esse consenso de corredor em compromisso juridicamente robusto, é a pergunta que nenhum discurso ainda responde.
*Com informações do ClimaInfo.
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