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Parem de falar de futuro

Escrito por Neo Mondo | 26 de agosto de 2025

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O futuro não é 2050. O futuro é AGORA. - Foto: Ilustrativa?Freepik

Por - Laura Peiter*, especial para Neo Mondo

Nos últimos anos, a palavra “futuro” tornou-se onipresente no vocabulário corporativo da sustentabilidade. Relatórios, campanhas publicitárias e até discursos de lideranças repetem expressões como “nosso compromisso com o futuro”, “o futuro que queremos” ou “jornada para o futuro sustentável”.

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Mas será que essa narrativa ainda faz sentido diante da realidade atual?

A sustentabilidade, por definição, sempre esteve ligada à ideia de garantir as necessidades das próximas gerações. O conceito clássico de desenvolvimento sustentável é justamente “atender às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de atender às suas próprias necessidades”. No entanto, a ênfase excessiva no futuro vem produzindo um efeito colateral: a desconexão com a urgência do presente.

A crise climática não é uma previsão distante, mas uma realidade consolidada. O último relatório do IPCC indica que a temperatura média global já está 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando limites projetados para daqui a 20 anos. O impacto já é visível: ondas de calor extremas, enchentes devastadoras, incêndios florestais e secas prolongadas tornaram-se parte do noticiário anual em diferentes partes do planeta. No campo social, os números também são alarmantes. De acordo com relatório da UNESCO, cerca de 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável devidamente gerenciada, e 3,5 bilhões carecem de saneamento básico. Na gestão de resíduos, o mundo gera mais de 2 bilhões de toneladas de lixo urbano por ano, dos quais pelo menos 33% não recebem destinação adequada, segundo dados do Banco Mundial.

Diante desse cenário, é cada vez mais difícil sustentar narrativas corporativas que olham exclusivamente para o futuro, enquanto o presente exige respostas imediatas. Um exemplo recorrente são as metas de neutralidade de carbono para 2050. Embora possam parecer ousadas e visionárias, tais metas estão distantes demais da realidade concreta. Em 25 anos, uma empresa pode passar por várias mudanças de liderança, estratégia e até de foco de negócio. O que hoje soa como um compromisso de longo prazo pode, na prática, se transformar em uma promessa vazia, facilmente abandonada ou reconfigurada ao sabor das circunstâncias.

Além disso, a humanidade simplesmente não pode se dar ao luxo de esperar até 2050. A cada ano, a crise se intensifica e a conta da inação chega mais alta. Compromissos para um futuro distante, sem ações robustas no presente, já não inspiram confiança. Pelo contrário: soam como adiamento de responsabilidade.

É verdade que falar sobre catástrofes climáticas, crises ambientais e desigualdades sociais não agrada. O tom é duro, e poucos querem se deparar com más notícias. Mas ignorar a realidade não a torna menos verdadeira. A sustentabilidade precisa ser comunicada de forma honesta, mesmo que desconfortável.

O que o mercado, os clientes e a sociedade querem saber não é qual a promessa para 2045 ou 2050, mas sim: o que está sendo feito agora? Como as empresas estão enfrentando a crise já instalada? Como estão assumindo responsabilidade pelos impactos imediatos que geram?

A era do discurso abstrato sobre o futuro chegou ao fim. O desafio das lideranças é abandonar a retórica da promessa distante e assumir compromissos concretos no presente. Porque a pergunta já não é “o que faremos em 2050?”, mas sim: o que estamos fazendo hoje?

Laura Peiter é engenheira ambiental pós-graduada em Marketing, e atua há mais de 16 anos com sustentabilidade corporativa. Hoje é Diretora de Sustentabilidade da Profile, agência de comunicação para impacto.

foto de Laura Peiter , autora do artigo Parem de falar de Futuro
Laura Peiter - Foto: Divulgação

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