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Escrito por Carlos Primo Braga | 22 de outubro de 2025
Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR – CARLOS PRIMO BRAGA
O acrônimo ESG (referente aos temas Environmental, Social and Governance; isto é, os pilares Ambiental, Social e de Governança da agenda de sustentabilidade e responsabilidade corporativa) vem atraindo muita atenção e gerando debates nos últimos anos. Em 2004, o Pacto Global da ONU, em parceria com o Banco Mundial e o governo da Suíça, publicou o documento Who Cares Wins, que introduziu o termo ESG e argumentou que as empresas deveriam considerar temas como sustentabilidade ambiental, ética e direitos humanos em seus modelos de negócio.
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O conceito de investimentos socialmente responsáveis não é novo. Grupos religiosos — muçulmanos, quakers, entre outros — historicamente adotaram parâmetros éticos para influenciar decisões de investimento. Durante a Guerra do Vietnã, por exemplo, pastores de igrejas metodistas nos EUA iniciaram um movimento para impedir que recursos da igreja fossem aplicados em empresas que se beneficiavam de contratos militares. De forma similar, o reverendo Leon Sullivan desenvolveu, em 1977, um código de conduta (os Princípios Sullivan) com o objetivo de pressionar economicamente o governo da África do Sul e seu regime de apartheid. O desastre do navio-tanque Exxon Valdez, com o derramamento de petróleo no litoral do Alasca em 1989, por sua vez, motivou investidores, líderes empresariais e organizações não governamentais a promover campanhas pela adoção de práticas sustentáveis no setor privado, com o objetivo de acelerar a transição para uma economia de baixo carbono.
O Pacto Global, no entanto, ampliou o escopo do conceito ao interligar os três pilares. Inicialmente, o impacto da agenda ESG nas decisões de investimento foi limitado. O interesse pelos temas associados à agenda, contudo, passou a crescer na década de 2010. Em 2015, o Acordo de Paris, adotado na COP21, introduziu metas para reduzir o aquecimento global, contribuindo para alavancar o interesse em questões ambientais no contexto da alocação de capital.
É possível identificar um aumento significativo de referências a temas da agenda ESG em apresentações de CEOs de empresas incluídas no índice S&P 500, bem como em teleconferências de resultados (earnings calls) dessas companhias, no período de 2015 a 2020. O interesse nessa agenda também foi reforçado por declarações de associações como a Business Roundtable, que congrega CEOs das maiores empresas dos EUA. Em 2019, a entidade emitiu uma declaração apoiando explicitamente a reorientação do foco das empresas em favor de um capitalismo de stakeholders (ou capitalismo de propósito), com atenção aos interesses de consumidores, empregados, fornecedores, comunidades e acionistas — em contraposição ao capitalismo focado na maximização dos lucros para os investidores. Em paralelo, líderes empresariais como Larry Fink, CEO da BlackRock, também expressaram apoio ao uso dos princípios da agenda ESG em decisões de investimento.
A pandemia de Covid-19, por sua vez, trouxe nova atenção ao pilar social da agenda ESG. E, em 2021, a “diplomacia” ambiental no contexto da COP26, em Glasgow, renovou a ênfase nos compromissos assumidos no Tratado de Paris — em particular, a meta de limitar o aquecimento global a menos de 2 °C acima das temperaturas pré-industriais (com a ambição adicional de manter o aumento abaixo de 1,5 °C).
Os países participantes da COP26 também anunciaram intenções ambiciosas quanto ao controle de emissões de metano, ao combate ao desmatamento e ao apoio às regras do mercado global de créditos de carbono, em conformidade com o Artigo 6 do Tratado de Paris. Além disso, cerca de 450 empresas de 45 países anunciaram apoio à mobilização de US$ 130 trilhões em capital privado nas próximas três décadas, para viabilizar a meta de net zero (isto é, o equilíbrio entre a quantidade de gases de efeito estufa gerada e a removida por meio de redução de emissões, reflorestamento e captura de carbono).
A invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, entretanto, começou a influenciar os debates sobre ESG. O aumento dos preços de energia (petróleo e gás natural) e as preocupações geopolíticas geraram incentivos para maior atenção às questões de resiliência e segurança energética nas estratégias econômicas.
Em paralelo, o debate sobre casos de greenwashing ganhou destaque crescente. Um exemplo marcante foram as acusações contra uma das maiores firmas de investimento da Europa, o DWS Group, do Deutsche Bank. De acordo com as denúncias, o DWS vinha exagerando as credenciais ESG de seus investimentos como forma de atrair clientes interessados em estratégias sustentáveis. Investigações judiciais realizadas entre 2022 e 2024 resultaram em punições financeiras significativas na Alemanha contra o grupo. Escândalos associados a práticas de greenwashing afetaram de modo relevante a credibilidade dos fundos ESG.
Outro problema que passou a ganhar atenção crescente diz respeito à confiabilidade dos índices de avaliação de fundos ESG elaborados por agências de rating (como MSCI, S&P Global, Sustainalytics/Morningstar e Sustainable Fitch). Por volta de 2024, fundos de investimento com ativos expressivos já eram signatários dos Princípios para o Investimento Responsável da ONU e comprometiam-se a considerar questões da agenda ESG em suas decisões. Infelizmente, as avaliações de fundos ESG por diferentes agências de rating mostravam-se inconsistentes, refletindo a arbitrariedade das metodologias adotadas. Por conseguinte, esses índices passaram a ser vistos como indicadores imprecisos para avaliar investimentos com características ESG.
É também evidente que o zeitgeist (espírito da época) vinha se alterando de forma significativa. Nos EUA, por exemplo, governos republicanos — como os do Texas e da Flórida — adotaram medidas contra empresas que explicitamente apoiavam estratégias ESG. Nas chamadas “guerras culturais” do período, a agenda ESG passou a ser apresentada por seus críticos como um exemplo de capitalismo “woke”, típico de corporações que adotam uma retórica de responsabilidade socioambiental apenas para favorecer sua imagem, sem compromisso real com a pauta.
O interesse das empresas pelos temas ESG, capturado pelas referências feitas em teleconferências de resultados de companhias do S&P 500 entre 2015 e 2020, foi revertido a partir de 2022. No início de 2025, por exemplo, as menções ao tema ambiental haviam diminuído cerca de 76% em relação a 2022. Além disso, fundos ESG começaram a registrar retiradas significativas de recursos, particularmente nos EUA, a partir de 2023.
A reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos acentuou essas tendências — não apenas pela reorientação da diplomacia norte-americana em relação às mudanças climáticas (por exemplo, a nova saída dos EUA do Acordo de Paris), mas também em razão de medidas restritivas impostas ao trabalho de agências governamentais voltadas ao combate à crise climática. Esse clima adverso também afetou a retórica do setor privado sobre a agenda ESG. Larry Fink, por exemplo, declarou que deixaria de usar o acrônimo ESG, por considerá-lo politicamente controverso.
Pode-se argumentar que essa estratégia de moderação, após um período de “entusiasmo excessivo” — como observou o Conselho Editorial do Financial Times em 2024 —, era inevitável. Cabe assinalar, contudo, que a diminuição das referências a questões climáticas pode refletir uma estratégia de greenhushing, adotada por empresas que desejam evitar temas politicamente sensíveis em suas declarações públicas. Na prática, análises recentes de diversas consultorias continuam a apontar um comprometimento expressivo das empresas com temas de sustentabilidade em 2024 e 2025.
Além disso, é importante reconhecer o papel do progresso tecnológico, que vem viabilizando novas fontes sustentáveis de energia. A invenção das células solares fotovoltaicas ocorreu na década de 1950, mas o primeiro terawatt de energia solar instalada só foi alcançado em 2022. Nos últimos três anos, entretanto, a capacidade instalada de energia solar mais que dobrou. Fontes renováveis — principalmente solar e eólica — foram responsáveis por mais de 90% do acréscimo da capacidade global de geração de energia em 2024. Essa trajetória, contudo, continuará a depender, no médio prazo, da manutenção de subsídios que estimulem investimentos em tecnologias “verdes”.
Em síntese, o movimento anti-ESG ganhou novo impulso com o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA. A realidade, porém, é que a agenda ESG continua essencial para a construção de um capitalismo de propósito. Será interessante observar até que ponto as discussões em Belém, no contexto da COP30, irão revigorar essa agenda.

Carlos A. Primo Braga é atualmente Professor Associado da Fundação Dom Cabral, Brasil. Ele é também Professor Visitante do El Colégio de México. No período 2012-15, ele foi professor de Economia Política Internacional no IMD e Diretor do Evian Group@IMD, Suíça. Anteriormente como funcionário do Banco Mundial (1991-2012), atuou como Representante Especial e Diretor para a Europa, Relações Externas (2011-12); Diretor, Política Econômica e Dívida (2008-2010); Vice-Presidente e Secretário Corporativo Interino do Grupo Banco Mundial (2010); Secretário Executivo Interino do Comitê de Desenvolvimento do FMI/Banco Mundial (2010); e Administrador do programa infoDev (1997-2001). Foi também “Fulbright Scholar” (1988-89) e professor visitante (1988-98) na Paul Nitze School of Advanced International Studies, The Johns Hopkins University; Professor Assistente de Economia, FEA/USP (1984-91); e pesquisador senior da FIPE, São Paulo. Ele tem títulos de Ph.D., Economia, University of Illinois at Urbana-Champaign (1984), Mestrado, Economia, USP (1980), e Engenharia Mecânica, ITA (1976).
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