Escrito por Daniel Medeiros | 30 de março de 2026
Tema: quando o coletivo volta a ocupar o centro do debate, a utopia deixa de ser ideia e passa a ser força política real - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
"A sociedade está mais preocupada em se entreter do que em se engajar em diálogos significativos." Neil Postman
Imagino os jornais, as revistas, os canais de televisão, as redes sociais, os influenciadores, os podcasts, os programas de entrevistas discutindo como desenvolver uma educação para a compaixão — o mais poderoso antídoto contra a violência verbal e física que assola nossa sociedade. Imagino uma mobilização cotidiana e intensa para apresentar propostas de como proteger os eleitores da desinformação, de como prepará-los para uma escolha balizada em fatos demonstráveis e propostas coletivas — que não visem somente dissipar os temores projetados para que o indivíduo deseje um governante "forte" para protegê-lo, mas que, ao contrário, gerem expectativa em torno de um representante capaz de compreender as complexidades de uma sociedade plural, onde as demandas que visam o bem-estar e a felicidade são justas e merecem ser atendidas, desde que não firam, não humilhem e não gerem riscos à existência de ninguém.
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Onde andam os temas importantes? Estes dias, neste mesmo portal, li uma série de reportagens sobre a água. Que espetáculo! Um oásis em meio ao deserto de "debates" e "análises" obtusas — como, por exemplo, o que se promoveu em torno do uso da palavra "brasa" no uniforme da seleção, ou sobre o nível de representatividade de uma pessoa trans na presidência da comissão de defesa das mulheres.
O espaço público precisa de horizontes amplos para que possa sonhar. Se nos fecharmos em torno da pequenez dos temas mesquinhos, matamos a utopia. E sem utopia — que não se refere a um mundo impossível, mas a um mundo ainda não existente — como seremos capazes de melhorar e realizar nossas potencialidades?
O Brasil é um país devedor aos seus cidadãos há séculos. Seus homens públicos, raras vezes, utilizaram seu tempo para algo além de interesses pessoais ou corporativos. Nossos avanços coletivos são sempre concessões minoritárias, restos de negociações com grandes benefícios para pequenos grupos. As transformações mais importantes, no entanto, tiveram a mão da mobilização cidadã. E mobilização exige alimentar um desejo comum. Foi assim com a Anistia, com as Diretas, com a Constituinte, com a campanha contra a Fome, com as campanhas solidárias em torno das grandes tragédias. A utopia se manifesta nessas nesgas de ação em meio ao céu carregado da mediocridade e do egoísmo. E a utopia é a de que o Brasil é um país capaz de produzir oportunidades reais para todos — e com um coração enorme para compreender e acolher quem não tem o ritmo ou o fôlego dos demais. E para dar horizontes a todos, a utopia deseja direitos positivos: mais pão, mais pluralidade, mais emprego, mais vagas nas escolas, mais qualidade em tudo o que se oferece, mais saúde, mais respeito pelo cidadão. A utopia é generosa. É mãe.
A grande questão é que o desejo precisa de solo e de alimento para crescer forte. É preciso, como lembra a filósofa norte-americana Martha Nussbaum, desenvolver a utopia estimulando nossa imaginação narrativa — isto é, nossa capacidade de pensar cenários melhores e mais democráticos. Sem o otimismo da vontade tensionando o pessimismo da razão, como afirmava Gramsci, não há mudança capaz de se criar dentro de cada um de nós.
Onde andam, afinal, os temas importantes? Nossa pauta precisa mesmo girar em torno do aluno que levou zero na redação porque escreveu um monte de besteiras com linguagem condoreira? Ou do que disse o político tal para o político tal, insinuando que ele era isso ou aquilo? Ou do que comentou na cozinha do BBB a participante tal? Engolidos por essa panóplia de insignificâncias, como teremos tempo e espaço para os temas grandes de que precisamos para voltar a sonhar?
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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