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O fim do excesso

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 27 de março de 2026

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Excesso que promete cuidado, mas entrega inflamação silenciosa e desordem na pele - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI

Depois de anos atendendo pacientes com peles irritadas, reativas e cronicamente inflamadas, aprendi a fazer uma pergunta antes de qualquer diagnóstico: mostre-me o que você usa. A resposta, quase sempre, é uma lista longa. Muito longa. E é nessa lista — e não na genética, no estresse ou na poluição — que está boa parte do problema.

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A indústria de beleza construiu sua prosperidade sobre um princípio que a dermatologia nunca endossou: quanto mais produtos, mais saudável a pele. O resultado foi uma geração de consumidores com rotinas de dez, doze etapas e barreiras cutâneas em colapso silencioso. Há um nome para o que o excesso produz ao longo do tempo — inflammaging, o envelhecimento acelerado por microinflamações crônicas causadas por ativos que se antagonizam, fragrâncias desnecessárias e camadas que a pele simplesmente não consegue processar. Não é a falta de produtos que envelhece. Em muitos casos, é a abundância deles.

O que me anima em 2026 é ver esse entendimento finalmente migrar do consultório para o mercado.

O movimento que a indústria chama de skinimalism não é uma tendência de simplificação estética. É a convergência de três forças que venho acompanhando há anos: a ciência da barreira cutânea demonstrando os limites do excesso, a biotecnologia viabilizando fórmulas multifuncionais que reúnem em um produto o que antes demandava cinco, e a tecnologia de diagnóstico permitindo identificar com precisão o que cada pele especificamente precisa — eliminando o tentativa e erro que gerava tanto desperdício, de dinheiro e de recursos. A chamada "beleza metabólica", focada na saúde celular de longo prazo, sai dos laboratórios e chega às embalagens. Isso é, para mim, uma vitória da ciência sobre o marketing.

Há ainda um dado que poucos discutem, mas que nenhuma formuladora séria ignora: a sinergia sensorial. Pesquisas em neurociência mostram que o prazer genuíno de usar um produto — textura, aroma, toque — libera neurotransmissores que potencializam a eficácia dos ativos. Um único produto que a pessoa ama usar vale mais, biologicamente, do que cinco que ela aplica por obrigação. A rotina que funciona é a que se sustenta.

Fora do consultório, observo uma mudança igualmente relevante no comportamento de compra. O status migrou da prateleira cheia para a curadoria precisa. O consumidor de alta renda — aquele que sempre teve acesso a tudo — é hoje o que mais questiona se aquilo é mesmo necessário. A beleza aspiracional vendia falta: você comprava porque aspirava ser diferente, mais próxima de uma imagem construída para permanecer inalcançável. O que emerge agora é uma lógica de valores: rastreabilidade de ativos, embalagem circular, marcas que respondem pela cadeia produtiva inteira. O movimento Plastic-Free Beauty saiu de um nicho militante e entrou na agenda de compra de executivos e formadores de opinião. A ética virou critério, não diferencial.

Chamo de slow beauty essa reorientação mais ampla — não como slogan, mas como postura. É a compreensão de que a pele tem ciclos, que resultados reais demandam tempo e consistência, e que a corrida por novidades a cada lançamento é, antes de tudo, um negócio para a indústria — não para quem usa. Como dermatologista, nunca prescrevi quantidade. Prescrevi precisão. É satisfatório ver o mercado, finalmente, aprender a mesma lição.

O armário curado, com poucos produtos de procedência clara e eficácia comprovada, não é austeridade. É a forma mais inteligente de cuidar da pele que existe — e, talvez, a mais honesta que o setor já nos ofereceu.

Dra Marcela Baraldi, Médica Dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, cadastrada no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e consultório particular – CRM: 151733 / RQE: 66127. Colunista de Neo Mondo.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigo O Fim do Excesso
Dra. Marcela Baraldi, "excesso nunca foi prescrição — precisão sempre foi o caminho para a saúde da pele" – Foto: Arquivo pessoal

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