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Escrito por Alexander Turra | 13 de outubro de 2025
Union Buildings, em Pretória — sede do governo sul-africano e símbolo da democracia do país, com a icônica estátua de Nelson Mandela celebrando a liberdade e a reconciliação nacional - Foto: Alexander Turra
POR – ALEXANDER TURRA
É impossível chegar ao final de 2025 sem preocupação. Sem uma profunda angústia sobre o que acontecerá com a natureza e com as pessoas. Entretanto, à medida que as disputas armadas e comerciais se multiplicam e as crises globais do clima, da biodiversidade, da poluição e da pobreza aumentam, surgem sinais de esperança associados ao trabalho árduo, obstinado e abnegado de muitos incógnitos que perseveram na construção de um processo civilizatório.
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Criados, subsidiados e acompanhados pela Organização das Nações Unidas, os esforços para que a humanidade caminhe em um processo continuado de evolução têm se capilarizado mundo afora. Um movimento subversivo que se opõe a interesses não alinhados com a Declaração do Rio, assinada em 1992 — e, por isso, tem sido severamente criticado. É claro que a ONU pode ser aprimorada, mas o mundo não seria o mesmo sem ela, assim como sem todo o processo de diálogo multilateral que fortaleceu, inspirado na tragédia da Segunda Guerra, mas também na clara mensagem que Cândido Portinari nos deixou em 1957.
Os painéis Guerra e Paz, gigantescos em tamanho e contundentes na mensagem, adornam a sede das Nações Unidas em Nova Iorque e representam os extremos de nossa existência. A busca pela paz pode parecer uma unanimidade, mas o caminho para alcançá-la não é. Para tanto, é necessário usar todos os recursos disponíveis em um movimento convergente que nos una mais do que nos separe.
Esse movimento está passando por um novo capítulo entre 2015 e 2030: a Agenda das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável — um processo no qual 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e 169 metas foram acordados pelos países que participam da ONU. Uma agenda transformadora para cuidar de questões essenciais a cada ser humano, como o combate à pobreza e à fome, a promoção da produção responsável e do consumo consciente e a proteção do oceano, um aliado fundamental da sociedade.
E isso me trouxe a Pretória, na África do Sul. Um importante evento que, em sua oitava edição, foi realizado na África pela primeira vez. A Conferência G-STIC integra a comunidade global, visando à promoção da tecnologia e da inovação para a sustentabilidade, e busca soluções transformadoras para atingir as metas da Agenda 2030. O evento ocorreu no Conselho para a Ciência e Pesquisa Industrial da África do Sul (CSIR), uma instituição que, em seus 80 anos de trajetória, reflete a transição de um mundo em opressão para um futuro de liberdade, prosperidade e esperança.
Este é o desafio que instituições de todos os cantos do planeta estão tentando superar. No Brasil, a Fiocruz tem se empenhado fortemente em promover a Agenda 2030, com ênfase em aspectos relacionados à saúde. E foi a convite da Fiocruz que tive a oportunidade, no G-STIC, de fortalecer a conexão do oceano com os demais ODS e, em especial, com o bem-estar humano, ao enaltecer o conceito de saúde única azul. Baseado na busca pela manutenção da homeostase planetária, esse conceito revela o papel central e transversal que o oceano desempenha na agenda da sustentabilidade.
Mas onde é que entra o lilás? Embora essa não seja a cor do oceano, em algumas pinturas de Monet ele já foi retratado em tons lilases. Na verdade, o lilás simboliza o espetáculo que vi e senti em Pretória. Uma cidade inteira ornada com infinitos buquês arbóreos recobertos por pequenas e incontáveis flores de cor lilás. Os jacarandás, em floração sincrônica, inundam Pretória todos os anos com um aroma sem igual. Revelando a chegada da primavera e simbolizando um novo começo, Pretória traduz, em si, a essência que o G-STIC e a Agenda 2030 pretendem promover. E as mensagens subliminares não param por aí.

Ao visitar os jardins do Palácio Presidencial — o Union Buildings Garden —, referências adicionais a esse movimento despontaram. Flores de todos os tipos, desde amarílis a estrelítzias, passando por rosas e hibiscos. Pinheiros e ciprestes entremeados com palmeiras. Aromas de todas as cores resplandeciam na imagem e na mensagem civilizatória de diversidade, equidade e inclusão, exibidas nos gestos e expressões daquele que ensinou, pelo exemplo, a humanidade a evoluir. Nelson Mandela, aqui em bronze, está representado em uma estátua de mais de 10 metros de altura, a qual não faz jus à sua efetiva estatura. Mandela é do tamanho do mundo — assim como o seu legado. Olhando de frente, ele nos fala. Olhando do lado oposto, ele, na verdade, fala a todos, com seus braços abertos e acolhedores.
O Union Garden possui outro simbolismo — um simbolismo fractal. Ele é ornado e arquitetado por baixas muretas e jardins em inúmeros platôs, delimitados por longas fileiras de rochas delicadamente empilhadas e amalgamadas. Rochas sedimentares criadas a partir da deposição paciente, grão a grão, de areia no fundo de um mar que emergiu e se tornou continente na história geológica. Grãos que representam cada um de nós na construção de algo sólido e consistente, que resgata o passado e o ressignifica na construção do futuro. Da mesma forma, porém em outra escala, os blocos da rocha sedimentar, representando todos os povos do mundo, se encaixam e alicerçam a paisagem harmônica, equilibrada e inspiradora que testemunhei. A vegetação e a arquitetura do Union Garden ilustram os rumos da humanidade — algo sensivelmente percebido pelas pessoas que o visitam, como eu.
Mas, retornando ao tema que me trouxe aqui, obviamente, nem tudo são flores — e nem tudo é lilás. O processo civilizatório precisa ser construído dia após dia, incansavelmente. E isso leva tempo. Assim como no Brasil, na África do Sul há sinais de um passado não louvável, mas também de um futuro muito possível. A pobreza, a desigualdade social, o racismo estrutural e um universo de incertezas para os menos aventurados são mazelas que ainda precisam ser superadas. Para isso, basta fazermos as escolhas certas.
Foi o que vi no Parque da Liberdade — um patrimônio da humanidade que exalta aquilo que é mais caro a qualquer um: o direito de ser. Mais simbolismos aparecem, assim como outras semelhanças com o Brasil. O solo seco e superficial, entremeado por afloramentos de rocha sedimentar dos quais emergem arbustos retorcidos e floridos, lembra a paisagem dos campos rupestres da Serra de Ibitipoca, em Minas Gerais, que também está longe do mar. O contraste entre a aridez e a paleta de cores das flores remete novamente a um local pautado pela superação, convidando à reflexão.
Os espaços, cuidadosamente planejados, cumprem o papel de promover um percurso atemporal — dentro e fora de nós mesmos. Um lugar sincrético de respeito e diálogo. Na Lekgotla, um semicírculo centrado em um simbólico arbusto chamado, localmente, Umlahlankosi, representa o local da Indaba, ocasião em que os líderes das diferentes tribos dialogavam longamente até alcançarem o consenso. O caminho espiral do Mveledzo parte de um oásis — uma conjunção de água, pedras e vegetação — e envolve, integrando serenamente, os elementos da natureza em um só. Ele representa o caminho que temos para avançar no processo civilizatório, com foco na natureza, no futuro e em todos ao mesmo tempo.
O santuário presente no topo da montanha integra, de forma contrastante, um espelho d’água com dezenas de chafarizes e uma pira acesa ao centro, cuja chama, inacreditavelmente, permanece viva ao redor de toda aquela água. Isso representa a chama que deve permanecer acesa dentro de nós para que possamos continuar perseverando na busca de uma realidade diferente — com paz, respeito e consideração —, ainda que as adversidades nos imponham imensos desafios. Como uma chama no meio da água, o santuário acaba representando outro oásis.
Junto a uma oliveira africana, que simboliza a paz, a prosperidade e a sabedoria, o memorial S’khumbuto expressa a mensagem de liberdade: “um lugar para rememorar aqueles que sacrificaram suas vidas pela liberdade e pela humanidade; como um tributo à dignidade humana, ele é um lugar para a renovação do espírito humano”. Entretanto, ao observar em detalhe os muros com os nomes dos milhares que morreram — cada nome escrito em uma pequena placa —, fica a mensagem de que a tarefa não está terminada, pois muitas das placas ainda estão em branco, esperando os nomes daqueles que ainda cumprirão esse papel.
Pretória e seus monumentos são oásis que nos fazem pensar e agir. Esse é o papel dos oásis — aqueles que encontramos dentro de nós, mas também os que construímos na sociedade, como a Organização das Nações Unidas e os movimentos que contribuem com sua missão, como o G-STIC. Oásis que exaltam a importância dos diferentes sistemas de conhecimento na construção de um futuro sustentável.
E, por fim, retorno ao lilás. Jacarandá — madeira cheirosa e dura, em tupi-guarani —, dentre outros significados, também indica algo que veio do coração. Algo com propósito, feito pelas pessoas, para elas e para a natureza. E, considerando a intrincada relação da natureza com as pessoas e o que vi e senti em Pretória, a sustentabilidade não poderia ter se manifestado em outra cor que não o lilás.

Biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade.

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