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Economia da Caatinga: o desafio das renováveis e o potencial de um bioma essencial para o clima

Escrito por Kamila Camilo | 15 de outubro de 2025

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A Caatinga é resistência, mas também promessa - Foto: Arthur de Souza

POR – KAMILA CAMILO

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e ocupa cerca de 10% do território nacional. Costuma ser lembrada pela aridez, mas sua força vai muito além da paisagem seca. O bioma abriga uma biodiversidade única, comunidades resilientes e um enorme potencial econômico — se o desenvolvimento for pensado a partir das realidades locais.

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Nos últimos anos, a Caatinga ganhou destaque no debate climático global. Em meio às discussões sobre transição energética e mitigação do aquecimento global, cresce a percepção de que o semiárido nordestino é, ao mesmo tempo, fronteira de desafios e de oportunidades.

O avanço das energias renováveis no Nordeste é a principal razão dessa conversa: a região concentra mais de 80% da capacidade eólica e solar instalada no país. No entanto, o crescimento acelerado desses empreendimentos traz impactos que não podem ser ignorados.

A expansão das usinas eólicas e solares tem provocado desmatamento de áreas nativas, deslocamento de comunidades e mudanças nas dinâmicas ecológicas e sociais. Muitas dessas instalações ocorrem em territórios de agricultores familiares, povos indígenas e quilombolas, frequentemente sem processos adequados de consulta ou compensação.

Os benefícios econômicos e energéticos são inegáveis, mas os custos sociais e ambientais recaem sobre quem vive na região. É o que os especialistas chamam de “trade-off das renováveis”: a busca por energia limpa pode, paradoxalmente, gerar injustiças climáticas se não houver diálogo e regulação adequados.

Em paralelo aos desafios, o bioma tem se mostrado um grande aliado contra as mudanças climáticas. Estudos recentes da UNESP indicam que a Caatinga é responsável por quase 50% do sequestro de carbono do Brasil, mesmo ocupando apenas uma fração do território. A vegetação nativa e o solo árido, ricos em matéria orgânica estável, funcionam como potentes sumidouros de carbono.

Esse potencial abre caminho para novas economias verdes: projetos de restauração ecológica, manejo sustentável do solo e geração de créditos de carbono podem transformar a Caatinga em uma vitrine global de soluções baseadas na natureza.

Caatinga Climate Week: articulação de quem vive o território

Um exemplo dessa nova abordagem é a Caatinga Climate Week, realizada recentemente em Pernambuco. O evento reuniu representantes de comunidades tradicionais, pesquisadores, gestores públicos e organizações socioambientais em um espaço de diálogo sobre adaptação, justiça climática e convivência com o semiárido.

Mais do que um encontro técnico, a Caatinga Climate Week mostrou, na prática, que o futuro do bioma depende da articulação entre os que vivem, pesquisam e investem no território.
Durante a programação, foram apresentadas soluções locais, como sistemas agroflorestais, quintais produtivos, cisternas e tecnologias sociais, que conciliam geração de renda, segurança alimentar e preservação ambiental.

foto de um homem 60+, morador da caatinga
Enquanto o avanço das energias renováveis transforma a paisagem do Nordeste, é fundamental discutir como e para quem esse desenvolvimento acontece - Foto: Arthur de Souza
Caminhos para um desenvolvimento sustentável da Caatinga

Para que o desenvolvimento da Caatinga seja verdadeiramente sustentável, é preciso construir um modelo econômico que combine justiça social, inovação e conservação. Entre os caminhos possíveis:

  • Planejamento e licenciamento participativo:
    Comunidades tradicionais, agricultores e povos originários precisam ser ouvidos desde o início dos projetos de energia e infraestrutura. A participação social garante legitimidade e reduz conflitos.
  • Compensações socioambientais robustas:
    Empreendimentos devem prever contrapartidas justas — financeiras, ambientais e estruturais — para mitigar impactos sobre o território e seus habitantes.
  • Regulação diferenciada por bioma:
    A Caatinga exige políticas próprias, que levem em conta suas particularidades ecológicas e sociais. Modelos importados de outras regiões não funcionam no semiárido.
  • Financiamento climático e créditos de carbono:
    A valorização dos serviços ambientais prestados pela Caatinga pode gerar novas fontes de renda. Projetos de captura de carbono e restauração podem integrar comunidades à economia verde.
  • Valorização dos saberes locais:
    A convivência com o semiárido é fruto de séculos de conhecimento tradicional. A agroecologia, o uso de sementes crioulas e o manejo comunitário do solo são ferramentas estratégicas para o futuro do bioma.
  • Monitoramento e transparência:
    Dados sobre desmatamento, emissões e impactos das renováveis devem ser públicos, atualizados e usados para aprimorar políticas e fiscalizações.

A Caatinga é, ao mesmo tempo, resistência e promessa.
Resistência, porque abriga comunidades que aprenderam a viver com o semiárido sem destruí-lo.
Promessa, porque pode se tornar um laboratório vivo de soluções climáticas e econômicas sustentáveis — desde que o desenvolvimento venha acompanhado de justiça e participação.

A economia da Caatinga já existe. O que falta é reconhecer seu valor e investir em modelos que fortaleçam quem cuida da terra, da água e da vida em meio à seca.

Kamila Camilo é uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática.

foto de kamila camilo, autora do artigo Economia da Caatinga: o desafio das renováveis e o potencial de um bioma essencial para o clima
Kamila Camilo - Foto: Divulgação

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