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O empresariado brasileiro ainda não aprendeu a nadar

Escrito por Alexander Turra | 15 de maio de 2026

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Empresariado à deriva: ignorar o oceano já não é apenas um erro ambiental — é um risco estratégico para o futuro da economia - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - ALEXANDER TURRA

O oceano é um ativo ambiental que gera valor econômico contínuo e precisa de atenção e investimento para se manter limpo, saudável e produtivo

A Década do Oceano (2021–2030), promovida pelas Nações Unidas e capitaneada pela UNESCO, já é o programa global mais bem-sucedido na promoção da agenda oceânica da história. Sabemos que é o momento de agir. Temos de adotar ações para que tenhamos um oceano limpo, saudável e produtivo. Há duas frentes basilares para que essa transformação aconteça: a promoção da Cultura Oceânica e da Economia Azul.

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A Cultura Oceânica é fundamental para que as pessoas conheçam o oceano e compreendam como ele influencia nossas vidas — assim como nossas ações o influenciam. O oceano produz mais de 50% do oxigênio do planeta. Cerca de 3 bilhões de pessoas dependem diretamente dele para sua subsistência, o que equivale a aproximadamente 14 vezes a população do Brasil.

A Economia Azul é a ressignificação das atividades socioeconômicas diante dos desafios e das oportunidades que se apresentam em torno do oceano. Ela movimenta cerca de US$ 2,5 trilhões por ano no mundo. Fosse um país, seria a sétima maior economia do planeta. O Brasil possui 10 mil quilômetros de linha de costa e cerca de 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul — praticamente do tamanho da Amazônia terrestre —, o que representa cerca de 20% do Produto Interno Bruto do país.

O oceano não é apenas um ativo ambiental. Ele é um ativo econômico sofisticado, multifuncional e altamente rentável. A biodiversidade marinha, por exemplo, tem sido base para inovações farmacêuticas relevantes. Estudos sobre aves marinhas contribuem para o desenvolvimento de vacinas. Algas marinhas são utilizadas como suplemento alimentar para o gado. Manguezais e recifes de coral funcionam como infraestrutura natural: reduzem riscos costeiros e evitam prejuízos bilionários decorrentes de desastres. É um sistema que gera valor econômico contínuo — e segue sendo pouco compreendido.

O movimento de Cultura Oceânica está alcançando todo o Brasil. As Ocean Weeks, realizadas pela Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano da Universidade de São Paulo — em São Paulo desde 2019 e no Rio de Janeiro desde 2025 —, vêm desempenhando um papel estratégico nesse sentido. ONGs, universidades e escolas de todo o país desdobram-se para dialogar com a sociedade de forma obstinada e criativa. A Economia Azul segue um caminho semelhante, embora ainda esteja em fase mais embrionária.

Infelizmente, o empresariado brasileiro e suas corporações não têm feito investimentos relevantes em ações de OSG (Ocean, Social and Governance) nem em projetos ambientais e culturais incentivados. Imaginem se, em vez de CEOs, tivéssemos "SeaOs" — e as empresas se comprometessem com o oceano de forma proporcional à sua relação com ele. Imaginem se elas identificassem claramente seu grau de dependência dos serviços ecossistêmicos marinhos e os riscos associados à degradação desses serviços. Imaginem se compreendessem que ignorar o oceano não é apenas um problema ambiental, mas um erro estratégico e financeiro.

O oceano gera valor, reduz riscos, sustenta cadeias produtivas e abre novas fronteiras de inovação — e continua sendo percebido por muitos como um custo ou, pior, como irrelevante. O engajamento de agências e associações setoriais é estratégico para acelerar essa transformação, mobilizando empresas líderes e suas cadeias produtivas, criando um efeito em rede capaz de escalar a Cultura Oceânica por toda a economia.

Felizmente, há exceções. As parcerias que a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano vem construindo nos últimos anos exemplificam isso. A Repsol Sinopec Brasil, o Instituto Aegea, a Wilson Sons, o BNDES e o SEBRAE são exemplos de organizações que valorizam e apoiam a Cultura Oceânica.

A sexta edição da São Paulo Ocean Week ocorrerá de 20 a 24 de maio no Memorial da América Latina — superando todas as dificuldades de realizar um evento totalmente gratuito para quem expõe, ONGs e universidades, e para quem visita: em especial, milhares de estudantes de ensino fundamental e médio, ávidos para entrar no mar, ainda que figurativamente, muitos pela primeira vez. É um mergulho no oceano para transformar as pessoas e o planeta.

O Brasil precisa de uma revolução oceânica — não apenas para o desenvolvimento da Economia Azul, mas para integrar capital natural, capital financeiro e capital humano em uma nova lógica de desenvolvimento que depende da Cultura Oceânica. A nossa Amazônia Azul pede mais. Precisamos de lideranças capazes de reconhecer que o oceano é um ativo econômico estratégico, um sistema de suporte à vida e uma das maiores oportunidades de desenvolvimento sustentável do século 21.

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Alexander Turra - Foto: Divulgação

Biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade.

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