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Escrito por Roberta Cipoloni Tiso | 18 de julho de 2025
Acúmulos de algas em decomposição recobrem a praia do Parque Los Fundadores, na região mexicana de Playa del Carmen: o paraíso que virou sargaço - Foto: Eyepix, NurPhoto, Ap
POR - ROBERTA CIPOLONI TISO
Eu estava na Riviera Maya.
Sol, céu azul, mar quente. Um paraíso.
Mas bastou uma caminhada na praia para entender que algo havia mudado. A areia branca estava coberta por uma camada espessa de sargaço em decomposição. O cheiro era ácido, metálico. A água, turva e densa, deixava no ar a sensação de que aquele mar não era mais o mesmo.
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A viagem era uma celebração em família — e deixo por aqui os detalhes pessoais. O que ficou foi o incômodo. A imagem de um paraíso que agoniza em silêncio. E uma pergunta insistente: como chegamos até aqui?
O paraíso em alerta permanente
A Riviera Maya, que abriga parte do segundo maior sistema de recifes do planeta, enfrenta uma sequência de eventos extremos que deixaram de ser exceção.
Neste ano, o Caribe bateu o recorde de sargaço no mar: mais de 40 milhões de toneladas métricas flutuando entre a África e as Américas — o dobro do nível registrado em 2022. Para se ter uma ideia do volume, isso equivale a cerca de 40 estádios do Maracanã preenchidos até o topo com algas em decomposição.
As praias de Playa del Carmen, Mahahual e Tulum passaram a exibir tapetes marrons no lugar da paisagem idílica. A decomposição dessas algas gera água anóxica, contaminação por sulfeto de hidrogênio, amônia e, em alguns casos, metais pesados como chumbo e arsênio.
Turistas são aconselhados a evitar o banho. Moradores relatam dores de cabeça, náuseas e problemas respiratórios. Em 2023, o Caribe mexicano viveu o maior branqueamento de corais já registrado, antecipando em 25 anos os piores cenários projetados por cientistas. Em certas áreas, a mortalidade dos corais chegou a 70% em poucas semanas.
Esse não é mais um futuro possível. É o presente acontecendo em câmera acelerada.
A linha reta que nos trouxe até aqui
O que acontece na Riviera Maya é um símbolo brutal do esgotamento de um modelo que ainda se apoia na lógica linear: extrair, consumir, descartar.
Em nome do progresso, 65% dos manguezais costeiros mexicanos foram destruídos nas últimas décadas. A urbanização desordenada impediu a reposição natural de areia nas praias, intensificando a erosão. A cada 1 °C de aumento na temperatura do oceano, os impactos se multiplicam: do branqueamento coralino à migração forçada de espécies e pessoas.
Enquanto isso, a economia da região depende em mais de 50% do turismo, e os impactos ambientais já comprometem a sustentabilidade desse modelo. O paraíso que encantava pelas suas cores e biodiversidade está sendo reconfigurado por uma nova realidade climática — cada vez mais quente, instável e imprevisível.
A tentativa de conter o inevitável
Diante da crise, esforços têm sido mobilizados para conter o avanço do sargaço. A Marinha mexicana lidera operações ao longo de cerca de mil quilômetros de litoral, utilizando barreiras de contenção flutuantes, limpezas diárias e uma frota que inclui navios especializados capazes de coletar até 90 toneladas de alga por dia. Neste ano, até o momento, mais de 44 mil toneladas de sargaço já foram recolhidas — um número expressivo, mas ainda pequeno diante dos mais de 40 milhões de toneladas que flutuam entre a África e o Caribe.
Governos locais, setor hoteleiro e organizações científicas trabalham em conjunto para evitar o colapso completo da balneabilidade. Mesmo assim, o ritmo da natureza — acelerado pelas mudanças climáticas — tem superado a capacidade de resposta.
Limpar a costa se tornou rotina, mas não resolve a origem.

Do caos à circularidade
Mas nem tudo é colapso. Em meio ao caos, surgem movimentos que desafiam a inevitabilidade do fim.
Blocos de construção feitos de sargaço, como o Sargablock, já foram usados para erguer casas inteiras na região.
Um seguro paramétrico inédito foi criado para financiar a restauração de recifes após furacões, reconhecendo o valor ecológico e econômico desses ecossistemas. Startups locais transformam o sargaço em fertilizantes, biocombustíveis e até moda, enquanto brigadas de mergulhadores treinados atuam como “paramédicos de corais”, replantando fragmentos após tempestades.
Essas soluções mostram que a circularidade não é apenas uma resposta ao colapso — é uma estratégia que deveria estar integrada desde o início.
O aquecimento global é uma realidade que avança mais rápido do que prevíamos. Esperar pelo colapso para reagir nos torna mais vulneráveis.
Mas também ensina.
Porque há força em reconhecer a dor como ponto de partida. E há sabedoria em compreender que inovar não é só sobre tecnologia — é sobre visão. Circularidade é sobre repensar ciclos antes que se esgotem, redesenhar sistemas antes que quebrem, e agir com propósito antes que seja tarde.
Não há mais tempo para esperar que o mercado ou o clima se ajustem sozinhos.
É preciso transformar o modo como vivemos, produzimos e nos relacionamos com a natureza.
Se há algo que a Riviera Maya nos ensina — entre sargaços, recifes desbotados e praias impróprias para o banho — é que o colapso não é o fim. Pode ser o convite.
O convite para agir diferente, agir circular.

É diretora de Sustentabilidade e Comunicação da green4T, uma empresa de tecnologia e serviços para gestão de infraestrutura de dados presente em toda a América Latina. Está na companhia há cinco anos, tendo iniciado como diretora de Marketing e Sustentabilidade. Além disso, coordena o grupo de Sustentabilidade da Associação Internacional de Transporte Público (UITP) na América Latina. Foi diretora de Comunicação da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação de São Paulo (Assespro SP), onde atuou por quase dois anos.
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