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Escrito por Neo Mondo | 2 de junho de 2026
Amapá: uma criança navega de canoa entre camadas de resíduos plásticos que tomam o igarapé às margens de uma comunidade ribeirinha. A cena sintetiza o que o programa "O Rio Amazonas Não Está Para Plástico" busca reverter — a normalização de um colapso ambiental que começa na porta de casa e termina no manguezal - Foto: Michell Mello/Fiocruz Amazônia
Produzido pelo NM Studio em parceria com a Redemar Brasil

No estado brasileiro que mais concentra manguezal por quilômetro de costa, a primeira semana de junho de 2026 reúne ciência, pesca artesanal e território numa agenda que não cabe numa única pauta
Nenhum estado brasileiro concentra tanta costa amazônica preservada num único território. O Amapá tem manguezais que se estendem por centenas de quilômetros sem interrupção urbana, estuários onde a água doce do rio e a salgada do oceano trocam nutrientes há milênios, e populações pesqueiras que ainda hoje organizam seu calendário pelo comportamento dos caranguejos. É precisamente nesse território — e a partir dele — que o Projeto Costamar, iniciativa do Instituto Redemar Brasil em parceria com o Programa Petrobras Socioambiental, articula entre os dias 3 e 7 de junho de 2026 uma sequência de três ações: a Pré-Conferência Oceânica "Amapá – Estado do Mar", uma ação de limpeza de praia pelo programa "O Rio Amazonas Não Está Para Plástico" e a 1ª Corrida Uçá, no município do Amapá.
A Pré-Conferência, que acontece no dia 3 de junho no Instituto Federal do Amapá (IFAP), em Santana, responde a uma lacuna que vai além do calendário acadêmico. O Amapá, apesar de guardar uma das maiores extensões contínuas de manguezal do planeta, ainda carece de políticas públicas específicas para a gestão integrada de seus ecossistemas costeiros. O encontro reunirá pesquisadores, representantes de colônias de pescadores artesanais, órgãos como o ICMBio, organizações da sociedade civil e gestores públicos para discutir conservação marinha, mudanças climáticas, segurança alimentar e educação oceânica. A programação se insere nas mobilizações globais da Década do Oceano, iniciativa da ONU para o período 2021–2030, e reserva um espaço específico para jovens lideranças e estudantes — o reconhecimento de que a próxima fronteira da governança costeira se forma agora, nas universidades e escolas técnicas da região.
O Projeto Costamar partiu de uma constatação científica precisa: até 2025, não havia estudos sobre as andadas reprodutivas do caranguejo-uçá (Ucides cordatus) no estado do Amapá. Como parte dos manguezais amapaenses está localizada acima da linha do Equador, os períodos de andada ocorrem em datas diferentes das registradas no restante do Brasil — o que tornava o calendário nacional de defeso uma política construída sobre uma lacuna. Esse descompasso alimentava há décadas um conflito real entre pescadores artesanais e poder público: proibições aplicadas em períodos biologicamente equivocados, coleta ilegal como consequência e insegurança econômica para famílias cuja renda depende diretamente da espécie. Em junho de 2025, pela primeira vez desde o início do monitoramento, foi registrado um evento de andada reprodutiva na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca — um dado pontual, mas que confirmou a hipótese do projeto e abriu caminho para uma revisão embasada do período de proteção.

A ferramenta central desse esforço é o aplicativo REMAR Cidadão, que permite registrar ocorrências de andadas do caranguejo-uçá em qualquer ponto do litoral brasileiro, mesmo sem acesso à internet. Pescadores, catadores de caranguejo e trabalhadores de unidades de conservação são capacitados para alimentar o sistema com dados georreferenciados que, agregados, constroem uma base científica que nenhum laboratório conseguiria produzir sozinho. O caranguejeiro deixa de ser objeto de estudo e passa a ser coautor do conhecimento que orienta a gestão da espécie da qual depende. Há algo de profundamente distinto nessa inversão: a ciência cidadã não como concessão pedagógica, mas como método.
O caranguejo-uçá organiza o ecossistema de dentro para fora. Suas tocas arejam o sedimento anóxico dos manguezais, sua atividade de alimentação processa a matéria orgânica que fertiliza o estuário, e sua biomassa sustenta cadeias que chegam ao peixe nas redes e à proteína na mesa das comunidades costeiras. A maior parte da população brasileira da espécie se concentra nas grandes extensões de manguezal do Amapá ao Maranhão — onde está mais de 75% do manguezal nacional. Entre 1994 e 2007, a produção nacional de caranguejo-uçá caiu 57%, o que representa uma redução populacional estimada em 28% para todo o Brasil, segundo avaliação da Sociedade Brasileira de Carcinologia. Protegê-lo é, simultaneamente, uma questão ecológica, econômica e de soberania alimentar das comunidades que vivem da costa amazônica.
No dia 6 de junho, a ação de limpeza de praia pelo programa "O Rio Amazonas Não Está Para Plástico" desloca o foco para a cadeia de contaminação que atravessa esses mesmos ecossistemas. O plástico que chega ao manguezal não vem apenas do oceano — vem do continente, carreado pelos rios, fragmentado em micropartículas que entram na teia alimentar antes que qualquer pescador rastreie sua origem. A ação mobilizará voluntários, instituições e comunidades locais não apenas para a coleta de resíduos, mas para tornar visível o fluxo que conecta o descarte urbano à saúde do estuário.
A programação se encerra no dia 7 de junho com a 1ª Corrida Uçá, na Praça Veiga Cabral, município do Amapá, com concentração a partir das 5h e largada às 6h — o mesmo horário em que os caranguejeiros entram no mangue. Há algo de deliberado nessa coincidência de tempo: correr quando os pescadores trabalham é uma forma de habitar, ainda que brevemente, o ritmo de quem sustenta o ecossistema. O evento inclui arrecadação de alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade social, unindo numa única manhã esporte, solidariedade e identidade territorial.
Ao articular uma conferência científica, uma ação de descontaminação e uma corrida solidária em sete dias, o Projeto Costamar demonstra algo que a gestão ambiental costuma descobrir tarde: a conservação dos ecossistemas amazônicos não se produz apenas nos laboratórios nem apenas nos decretos. Ela acontece onde a ciência e o mangue se encontram — e onde uma corrida ao amanhecer, no município que leva o nome do estado, é também uma declaração de que o mar amazônico tem donos, e eles querem estar à altura do que receberam.
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