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Escrito por Neo Mondo | 28 de novembro de 2025
O Brasil saiu da COP30 com visão, prestígio e instrumentos promissores — agora precisa garantir que o impacto seja sentido na vida real de produtores rurais, comunidades tradicionais e povos da floresta - Foto: Allegra Zaia e Maria Eduarda Matias
Por - Pedro Plastino, articulista de Neo Mondo, direto da COP30
A COP30, realizada em Belém, consolidou o Brasil como protagonista da agenda climática internacional. A atuação da diplomacia brasileira foi reconhecida e o país se posicionou como líder nas negociações multilaterais. No entanto, ao lado desse avanço, o evento expôs fragilidades importantes na agenda de implementação e na construção de instrumentos capazes de transformar a ambição climática em impacto real para produtores rurais, comunidades tradicionais e empresas que atuam na linha de frente da conservação.
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Um dos pontos mais sensíveis da conferência foi a ausência de acordos bilaterais que permitissem ao Brasil participar dos mercados regulados globais de carbono. Apesar das tratativas com Suíça, Japão e Singapura, o país não assinou nenhum memorando de entendimento para viabilizar o uso de créditos brasileiros em mercados regulados. Também não houve avanço nas chamadas cartas de ajuste correspondente, exigidas para transações internacionais fora do mercado voluntário.
Essa lacuna frustrou as expectativas do setor privado, que esperava ver o Brasil dando um passo decisivo para integrar seus créditos aos principais mercados globais. A falta de avanços limita a previsibilidade, reduz a liquidez potencial e mantém o país em uma posição de subaproveitamento de seu enorme potencial climático.
O lançamento e a captação inicial do Tropical Forests Forever Facility (TFFF) foram amplamente celebrados. O mecanismo é inovador, foi bem articulado pelo governo brasileiro e representa um modelo promissor para financiar a conservação de florestas tropicais. O país merece reconhecimento por sua liderança diplomática e pela mobilização de recursos.
O ponto crítico está na implementação. Ainda não está claro se o dinheiro será canalizado diretamente para proprietários de terra e comunidades que preservam a floresta ou se ficará concentrado na estrutura federal. A forma de distribuição determinará o sucesso do programa. Se os recursos chegarem à ponta, especialmente por meio da remuneração por hectare conservado, o impacto poderá ser transformador. Se a verba ficar restrita ao nível governamental, o risco é perder eficiência e diluir o efeito esperado.
Entre os resultados positivos, um dos mais relevantes foi o lançamento do ARPA Comunidades. A iniciativa, liderada pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com o secretário-executivo João Paulo Capobianco, cria um mecanismo de financiamento direto para associações extrativistas, ribeirinhas e moradores de Reservas Extrativistas. Pela primeira vez, surge uma política estruturada para levar recursos de forma direta às comunidades que desempenham papel essencial na conservação da floresta.
O programa recebeu doações de diversos países e instituições, incluindo o Bezos Earth Fund. É um avanço significativo que valoriza populações tradicionais, fortalece a proteção territorial e amplia o acesso a recursos de financiamento climático. Apesar de pouco publicizado, o ARPA Comunidades tem potencial para se tornar uma das políticas mais transformadoras da conferência, desde que os recursos realmente cheguem às associações beneficiárias.
Mesmo diante de dificuldades de infraestrutura e organização local, a atuação brasileira no núcleo das negociações reforçou a imagem do país como liderança global na agenda ambiental. A postura firme e propositiva da delegação colocou o Brasil no centro das discussões e deu peso às propostas apresentadas.
O desafio agora é cumprir o que foi projetado. A COP30 deixou ideias sólidas e mecanismos promissores — mas tudo dependerá da capacidade de implementação. O impacto real será medido pela chegada dos recursos ao território, pelo benefício direto a quem preserva e pela capacidade de transformar compromissos em ações concretas.
A conferência mostrou que o Brasil tem visão, potencial e protagonismo. O próximo passo é garantir que as iniciativas anunciadas deixem de ser intenções e passem a produzir resultados na floresta, nas comunidades e no campo.
Pedro Plastino - Especialista em negócios climáticos e crédito de carbono, cofundador da Future Carbon e um dos nomes de referência no setor. Graduado em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, construiu carreira nos mercados de carbono e financeiro, tendo liderado a área de créditos de carbono e negociações estratégicas na Future Climate Group, além de atuar em frentes como Equity, DCM e Asset Management. Foi Head de M&A na Potenza Capital, boutique afiliada ao BTG Pactual, e recentemente participou do Leadership Development Program da Harvard Business School, onde foi o único executivo de clima convidado mundialmente.

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