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Escrito por Neo Mondo | 18 de novembro de 2025
Manguezais: ciência, comunidade e futuro em rede - Foto: Ilustrativa/Freepik
ARTIGO
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Por - Sarah Charlier Sarubo*, especial para Neo Mondo
Projetos colaborativos ampliam o monitoramento, conectam universidades, comunidades e organizações ambientais e mostram por que esse ecossistema é estratégico para o clima
Desde 2019, uma rede de atores capitaneada pela Associação MarBrasil vem desenvolvendo o monitoramento das florestas de mangue no Complexo Estuarino de Paranaguá (CEP), no litoral do Paraná. Esse primeiro esforço integrou o projeto “Saúde dos manguezais e do caranguejo-uçá em sítio Ramsar e seu entorno”, financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, e se destacou por uma forte liderança feminina: a professora Cassiana Baptista Metri (UNESPAR), a professora Marília Cunha Lignon (UNESP) e Sarah Charlier Sarubo (MarBrasil), com apoio da analista ambiental Shanna Bittencourt (ICMBio, NGI Antonina-Guaraqueçaba).
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Para além dos resultados diretos, os dados de monitoramento da vegetação de mangue e do caranguejo-uçá passaram a integrar o Programa MONITORA, inserindo a Estação Ecológica (ESEC) Guaraqueçaba em uma iniciativa nacional do ICMBio. O programa busca padronizar protocolos, ampliar a participação comunitária e viabilizar análises integradas em diferentes regiões do país.
Nesse contexto, a MarBrasil incorporou o componente manguezal à quarta fase do REBIMAR (Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha), patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental. A área de atuação foi expandida para todo o litoral da Grande Reserva Mata Atlântica — território que conecta os estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina e abriga o maior contínuo bem preservado de Mata Atlântica. Novas transversais de monitoramento foram instaladas na Baía de Guaratuba (PR), enquanto as áreas de Cananéia e Iguape (SP) passaram a compor oficialmente o projeto, sob supervisão da professora Marília, que as monitora desde 2001.
Com o apoio do LAGEAMB (UFPR), foi realizado ainda um mapeamento detalhado dos manguezais da Grande Reserva, incluindo análises de índices espectrais da vegetação, revelando que o território abriga cerca de 49 mil hectares de florestas de mangue.
Na quinta fase do REBIMAR, atualmente em execução, novas transversais foram instaladas na Baía da Babitonga (SC), ampliando o monitoramento em campo para o sul da Grande Reserva. Paralelamente, a MarBrasil fortaleceu uma parceria histórica com a SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental), com o estabelecimento de novos pontos de monitoramento nas Reservas Naturais Guaricica (Antonina) e Papagaio-de-Cara-Roxa (Guaraqueçaba) no âmbito do projeto "_Entre mangues e caranguejos_". Entre os pontos altos da parceria, além do incremento à base de dados, destaca-se a equipe de campo majoritariamente feminina na última campanha de campo, com a presença de moradoras de Guaraqueçaba e da Ilha Rasa.
O projeto “Entre mangues e caranguejos”, conduzido pela SPVS, conta com apoio financeiro da iniciativa Floresta Viva por meio do Edital Manguezais do Brasil, é gerido pelo FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e recebe recursos da Petrobras e do BNDES. A iniciativa busca restaurar mais de 300 hectares de florestas adjacentes aos manguezais. O monitoramento dos efeitos dessa restauração será determinante para avaliar impactos positivos nas florestas de mangue e compreender o papel das bacias contribuintes em um ecossistema tão dinâmico e aberto.
A etapa de monitoramento — muitas vezes subestimada após a fase inicial dos projetos — é crucial. É ela que valida resultados, orienta ajustes e sustenta o gerenciamento adaptativo das áreas restauradas. A colaboração em rede entre instituições como MarBrasil, SPVS e ICMBio NGI Antonina-Guaraqueçaba garante continuidade às pesquisas e robustez às ações previstas até 2027.
Os manguezais, ecossistemas altamente produtivos e fundamentais para as zonas costeiras e para a sociedade, figuram entre os mais ameaçados do mundo. Além de protegerem comunidades e infraestruturas contra eventos climáticos extremos, funcionam como berçários para espécies de relevância comercial e cultural. Sua capacidade de sequestro de carbono supera a de qualquer ecossistema terrestre, contribuindo significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.
Diante dos desafios colocados pelo presente e pelo futuro, é evidente a urgência de fortalecer a resiliência dos manguezais e de outros ecossistemas costeiros. Nenhuma iniciativa isolada dará conta dessa missão. O que faz diferença é a soma intencional de competências: a convergência entre instituições, comunidades tradicionais e cientistas comprometidos com a proteção desses ecossistemas essenciais. É nessa rede de parcerias — construída com rigor técnico, dedicação contínua e respeito mútuo — que reside a possibilidade concreta de garantir um futuro mais resiliente para os manguezais e para as comunidades que deles dependem para viver, trabalhar, alimentar-se e preservar sua identidade cultural.
*Sarah Charlier Sarubo, oceanógrafa pelo Instituto Oceanográfico da USP, especialista em projetos de conservação e monitoramento de manguezais na região da Grande Reserva Mata Atlântica (PR, SP e SC) e consultora da SPVS e da Associação MarBrasil.

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