Escrito por Neo Mondo | 17 de junho de 2021
Quando criança, Laércio Ramalho deleitava-se com as histórias contadas com proeminência por sua avó, dona Violeta. Jesuíno Brilhante, Lampião, Corisco e Dadá eram, de fato, os únicos heróis na infância do menino nascido em Cansanção, uma pequena cidade do sertão baiano. Não é possível mensurar o quanto esses personagens influenciaram a sua trajetória, mas o fato é que Laércio empunhou armas e, assim como eles, também enfrentou as forças do governo.
Com uma trama que se desenrola nas décadas de 1960, 70 e 80, a ficção tem como pano de fundo alguns fatos recentes da história do país, a exemplo do AI-5 e da Guerrilha do Araguaia, estendendo a trama para outras regiões do país. Violência doméstica, solidão urbana, abandono materno e desobediência civil são temas presentes. As abordagens, densas, cedem lugar a contornos suaves em um romance tão comovente quanto o seu desfecho.
Enquanto os seus pais dormiam a habitual sesta, ela se encontrava comigo em nosso oásis particular, sob o belíssimo céu anil do Planalto Central brasileiro. Naquele refúgio ecológico, onde o profano e o sagrado se misturavam em harmonia, tórridos momentos de amor foram testemunhados pela natureza edênica do Cerrado. (Trono de Cangalha, p. 107)
Aroldo Veiga é apreciador de obras referenciais contemporâneas como “Travessuras da menina má”, “Memória de minhas putas tristes” e “Os Desvalidos”. As preferências denotam a originalidade trazida pelo autor em seu romance de estreia, e evidenciam ainda um fino trato com a linguagem. Na escrita fluida e envolvente, o leitor vai encontrar palavras inusitadas para o vocabulário contemporâneo, um requinte a conta gotas, diluído em 240 páginas.
Trono de Cangalha agrega os principais ingredientes de uma boa história. Por meio de um mergulho profundo nas entranhas de um Brasil pouco conhecido, até mesmo dos brasileiros, mistura amor, coragem, rebeldia, suspense, numa alquimia literária que, por sua vez, também não abre mão do seu papel crítico-social. Uma saga que mescla a nobreza de valores humanos com os mais viscerais instintos de sobrevivência.
Aroldo Veiga - Foto: DivulgaçãoBelo Monte: permanência, diálogo e desenvolvimento
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