Cultura Destaques Saúde Tecnologia e Inovação

Já existem mais obesos que famintos

Escrito por Neo Mondo | 17 de julho de 2019

Compartilhe:

Os atuais sistemas alimentares oferecem uma abundância de alimentos ultra-processados que são muito mais baratos e fáceis de consumir do que alimentos frescos e nutritivos, segundo a FAO. Foto: WikiCommons/lyzadanger/Diliff

POR - JOSÉ GRAZIANO DA SILVA* / NEO MONDO

  A FAO e outras quatro agências da ONU (FIDA, PMA, OMS e UNICEF) lançaram os mais novos dados globais sobre a fome e outras formas de malnutrição, por meio da edição 2019 do relatório anual o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (Sofi, no acrônimo em inglês). Sofi 2019 apresenta uma inovação na forma de medir a malnutrição global. O relatório introduz um segundo indicador, chamado Fies (“Food Insecurity Experience Scale”), que contribui para monitorar não apenas a fome, mas também outras formas de malnutrição. O Fies é utilizado no Brasil, pelo IBGE, desde 2004, por meio das Pnads. Diferentemente do tradicional indicador Prevalência da Subnutrição (PoU, na sigla em inglês), que mede a porcentagem e número de pessoas que sofrem fome, o Fies fornece informações sobre o número de pessoas que enfrentam incertezas sobre sua capacidade de obter alimentos nutritivos e suficientes ao longo do ano. Isso inclui não apenas as pessoas em estado de segurança alimentar severa (fome), mas também aquelas em estado de insegurança alimentar moderada. Nesse sentido, enquanto o PoU indica que cerca de 820 milhões de pessoas sofreram de fome no mundo em 2018; o Fies aponta que cerca de 2 bilhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou severa, um valor quase 2,5 vezes maior. Isso tem impacto direto no aumento de outras formas de malnutrição, como a deficiência de micronutrientes e também a obesidade. Há fatores que explicam a relação direta entre insegurança alimentar e obesidade. Por exemplo: quando as pessoas têm menos recursos para obter alimentos, elas optam pelos mais econômicos e acessíveis. O problema é que tais alimentos ultra-processados (embutidos, preparações instantâneas, biscoitos recheados, salgadinhos “de pacote”, refrigerantes, etc..) passaram por técnicas e processamentos com alta quantidade de sal, açúcar, gorduras, realçadores de sabor e texturizantes. Não possuem qualquer benefício nutricional. Ao contrário, os alimentos ultra-processados são uma das principais causas dos altos índices de obesidade que estamos observando em todo o mundo. As últimas estimativas da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que o número de pessoas obesas no mundo (em torno de 830 milhões) já superou o número de pessoas que sofrem de fome. Hoje, portanto, há mais obesos do que famintos no mundo. 23% da população brasileira estava obesa em 2016. Não haverá vencedores nessa batalha contra obesidade sem a forte participação da indústria de alimentos. A luta contra a obesidade é – e tem de ser – um tema de saúde pública, mas também de cidadania. Essa já era a realidade na América do Norte, Europa e Oceania há tempos; e mais recentemente na América Latina e Caribe. Mas mesmo na Ásia e na África, a obesidade logo se tornará um problema maior que a fome, dado que em todos os continentes a taxa de crescimento da obesidade é muito maior do que a taxa de crescimento da fome. Há, portanto, uma pandemia crescente de obesidade no mundo com impactos socioeconômicos altíssimos. Dados mais recentes mostram que a obesidade está contribuindo para quatro milhões de mortes todos os anos, com um custo anual estimado em US$ 2 trilhões, similar ao custo do tabagismo ainda hoje no mundo. A situação no Brasil é também preocupante. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 23% da população brasileira estava obesa em 2016, um valor que chega a 57% da população se for considerado o índice de massa corporal (IMC) maior que 25, o que caracteriza sobrepeso. É fundamental que o combate à obesidade e outras formas de malnutrição seja mantido como prioridade no Brasil. Em 2014, o Guia Alimentar para a População Brasileira, de autoria do professor Carlos Monteiro, foi adotado pelo Ministério da Saúde. O Guia tem potencial de contribuir substancialmente para combater a obesidade no país. O documento ressalta a importância de uma alimentação baseada em alimentos in natura/frescos (como frutas e legumes) e minimamente processados (farinha de mandioca e carnes frescas embaladas), encorajando a diminuição do consumo dos alimentos processados (como os enlatados) e o banimento dos ultra-processados (como os refrigerantes). Ademais, a FAO e o Banco Mundial desenvolveram um conjunto de políticas voltadas à prevenção ou redução dos índices de obesidade. Elas dividem-se em três frentes: A primeira é o aumento da disponibilidade de alimentos saudáveis. Isso pode ser feito: 1- regulando os níveis de sal, gordura e açúcar em produtos alimentícios; 2 – proibindo ou restringindo o consume de bebidas com alto teor de açúcar nas escolas; e 3 – promovendo acessibilidade aos mercados de alimentos frescos. A segunda frente de ação é a implementação de políticas fiscais e de preços para desonerar o alimentos frescos e saudáveis, como a taxação de bebidas com alto teor de açúcar e de alimentos ricos em sal, açúcar e gordura; bem como a oferta de cupons para grupos vulneráveis comprarem em mercados de produtos frescos. A terceira frente é sobre informação, educação e marketing. Os consumidores devem estar conscientes do que estão comendo e também ser incentivados a consumir alimentos saudáveis. É fundamental, por exemplo, garantir uma rotulagem mais completa e compreensível para o público. É igualmente importante promover campanhas de mídia para estimular opções alimentares mais saudáveis, restringir o marketing de alimentos não saudáveis para as crianças e tornar obrigatória a educação nutricional nas escolas. Há, portanto, diversas formas de combater a pandemia global de obesidade. O mais importante, porém, é o comprometimento das autoridades governamentais, bem como da sociedade como um todo, em especial do setor privado. Não haverá vencedores nessa batalha contra obesidade sem a forte participação da indústria de alimentos. A luta contra a obesidade é – e tem de ser – um tema de saúde pública, mas também de cidadania. *José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)        

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Setembro amarelo

Heloisa Schurmann apresenta série infantil sobre preservação marinha na Bienal do Livro de São Paulo

Rio Ocean Week 2026 discute poluição marinha na margem de uma baía que despeja 216 mil toneladas de plástico por ano


Artigos relacionados