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Escrito por Neo Mondo | 2 de outubro de 2018
Zain arruma as malas com os pais para ir para a Noruega. Foto: ACNUR/Sam Tarling[/caption]
Zain tinha apenas sete anos quando, em 2012, fugiu de Daraa, no sul da Síria, com sua família. Os parentes partiram em busca de um porto seguro no Líbano. O menino havia acabado de completar o primeiro ano quando a violência aumentou em sua cidade natal.
“Nossas vidas estavam em perigo. A mãe dele e eu tivemos que sacrificar o que achamos que seria apenas um ano de escolaridade pelo bem de sua segurança”, diz seu pai, Ali Mohammed Al Rafeaa.
O personagem principal do filme, que também se chama Zain, é um menino sem documentos que mora em um dos bairros mais pobres de Beirute. Em vez de ir à escola, precisa trabalhar para sustentar sua família. Sem treinamento formal em atuação, o ator mirim usou sua própria experiência de vida para interpretar o papel.
“Tem sido difícil”, afirma o jovem sobre sua infância no exílio. Nos últimos seis anos, Zain dividiu colchões surrados com seus pais e três irmãos, no chão de seu apartamento apertado e cheio de correntes de ar. “Eu adoraria ir à escola. Lembro-me do primeiro dia em que viemos para cá e desci para brincar. Eu briguei com uma criança.”
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Zain descansa em seu apartamento em Beirute. Foto: ACNUR/Sam Tarling[/caption]
“Quando vi Zain, ficou muito óbvio para mim que ele seria nosso herói”, explica a diretora Labaki. “Há algo em seus olhos que é muito triste. Ele também sabe do que estamos falando [no filme], e isso aparece em seus olhos.”
A libanesa sabia que estava se arriscando ao selecionar um elenco composto apenas por não-atores, mas conta que foi isso deu força ao filme. “Não há atores no meu filme. Todos eles estão desempenhando seu próprio papel, suas próprias vidas. Todos eles descrevem suas vidas de uma forma ou de outra, suas lutas, sua situação.”
“Zain mal consegue escrever seu próprio nome, mas conseguiu carregar o pesado fardo de uma longa filmagem de seis meses em seus pequenos ombros. Ele até adicionou suas próprias expressões, palavras e ações – tudo isso foi tão natural para ele, tornando as cenas ainda mais fortes”, acrescenta Labaki.
Capharnaum, que estreou este mês em Beirute, aborda problemas sociais compartilhados por libaneses e refugiados — trabalho infantil, casamento precoce, apatridia e pobreza. Atualmente, o Líbano é o lar de cerca de 976 mil refugiados sírios registrados. Mais da metade deles são crianças. O país é a nação com o maior número de refugiados em relação à sua população.
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Zain e a irmã Riman ainda em Beirute, antes de partir para a Noruega. Foto: ACNUR/Sam Tarling[/caption]
A obra de Labaki foi selecionada pelo governo libanês para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Zain tem no futuro a perspectiva de uma turnê mundial para divulgar o filme ao final deste ano. Vai ser difícil esquecer a vida de estrela.
Zain (ao centro) e o irmão Hussein, de 15 anos, (à esquerda) brincam num telhado em Beirute. Foto: ACNUR/Sam Tarling[/caption]
Zain e sua família estão se acostumando com a nova vida em terras europeias. O menino tem uma cama para dormir e começou a frequentar um colégio, como outras crianças da sua idade. “Podemos ver o mar da nossa janela. Eu gosto de sentar à beira mar, mas não consigo nadar, a água está congelando!”, conta Zain.
O sírio diz que existe a possibilidade de um dia se dedicar integralmente à carreira de ator. Mas por enquanto, ele está feliz por finalmente estar cumprindo seu sonho de ir à escola.
Zain e os parentes estão entre os menos de 1% de famílias refugiadas em todo o mundo que têm a chance de começar uma nova vida em um terceiro país. Para colaborar com o ACNUR e ajudar refugiados a reconstruir seus sonhos, clique aqui.
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