Escrito por Neo Mondo | 2 de agosto de 2019
“Muitos tinham mágoa, pois ele demonstrava grande apreço pelas imagens mais comuns, do álbum de família, principalmente do seu”, disse Motta.
Em seu último livro, A Câmara Clara (1980), Barthes definiu o conceito de “punctum”, palavra latina que, contextualizada por sua teoria, significa “ponto”, “picada” ou “ferida”. É esse elemento que, na fotografia, surge como o que autor diz ser uma espécie de “gume apunhalador da imagem”.
“No elegante sistema semiológico de Barthes, a palavra tem lugar de destaque. Tudo converge para ela. Todos os códigos de comunicação estão em articulação solidária com a palavra. Ela é a fiadora última do sentido. O que Barthes intitula como ‘mito’, aliás, nada mais é do que uma exorbitância das palavras. Nesse sistema, imagens refluem constantemente aos signos verbais, com seus valores conceituais. Assim, fotografias estão repletas de signos. É dessa verificação que parte a teoria barthesiana para as imagens fotográficas”, disse Motta.
Fotógrafos e artistas
A relação entre Barthes e a fotografia pode ser observada pelo apontamento diferencial que o autor faz em relação a três fotógrafos franceses que lhe pareciam levar a fotografia à condição de arte.
Lucien Clergue (1934-2014), Daniel Boudinet (1945-1990) e Bernard Faucon (1950) eram até então pouco conhecidos do grande público. Tinham em comum uma certa linguagem perturbadora, dificilmente interpretável, movida a silêncio.
“Para Barthes, eles eram verdadeiros estilistas da imagem. Representavam uma nova categoria do sublime fotográfico”, disse Motta.
Clergue foi colaborador e amigo de Picasso em meados do século 20. Quando Barthes se interessa por ele, no final dos anos 1970, estava esquecido. Boudinet frequentou as aulas de Barthes na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais. Depois de prestigiado por Barthes, o fotógrafo foi tema de uma grande retrospectiva no ano de 2018 no Jeu de Paume, museu dedicado à conservação e difusão de imagens do século 20 e 21, na cidade de Tours.
Já Faucon, o único ainda vivo entre os três, dedicou-se à pintura antes de iniciar as primeiras experimentações na fotografia. Chamou a atenção de Barthes justamente pela capacidade de ilustrar as notas barthesianas sobre a imobilidade terrível das fotos e o atestado de morte nela envolvido. É de autoria de Faucon a imagem que ilustra a capa do livro de Motta.
“A escolha da foto deveu-se à particular maneira como o menino de cera estampa o desastre silencioso que, para Barthes, é inseparável da fixidez da fotografia”, disse Motta.
Selecionada no álbum As Grandes Férias ( Les Grandes Vacances, 1970), cujas imagens foram captadas na região de Provença, a escolha da imagem também se deu pelo fato de Faucon ser o único a incluir modelos vivos em suas produções.
“Sendo contra o Naturalismo, como diria Barthes, livre de qualquer espírito de reportagem, o fotógrafo mistura crianças e manequins de vitrine, em uma inquietante teatralidade, que alude diretamente à rigidez mortal dos clichês fotográficos”, disse Motta.
Proposta como uma leitura em grande angular da obra de Barthes, o livro de Motta considera a recorrência de temas barthesianos e que a autora revela ser uma forma de “círculo virtuoso”.
“O que muda com esse trabalho é mostrar aos leitores que, inesperadamente, depois de revalorizar a fotografia mais comum, que é aquela do álbum de A Câmara Clara, Barthes chega até a fotografia de arte ou, melhor dizendo, a certa arte da fotografia”, disse Motta.
Roland Barthes - Ferdinando Scianna (Magnum Photos). http://www.roland-barthes.org/Belo Monte: permanência, diálogo e desenvolvimento
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