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Escrito por Neo Mondo | 13 de abril de 2026
Colaboridade como estrutura de poder compartilhado: na GINGA, o quadro societário traduz, em pessoas e trajetórias, a tese de que diversidade não é discurso — é método de decisão, criação e crescimento - Foto: Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Diversidade de repertório, colaboração estruturada e inteligência cultural como arquitetura de negócio — não como declaração de valores
Há uma pergunta que percorre silenciosamente o setor de comunicação brasileiro há pelo menos uma década: é possível construir uma agência relevante, financeiramente sólida e culturalmente comprometida sem abrir mão da independência? A GINGA, fundada em São Paulo por Pedro Del Priore e Paulo Martinez, é uma das respostas mais articuladas a essa indagação — e os números são parte do argumento. Ao completar 24 anos, a agência encerrou 2025 com R$ 45 milhões de receita, crescimento médio de 30% ao ano na última meia década, sem sócio estrangeiro, sem fundo de investimento e sem abrir mão da tese que a fundou. Não apresenta um reposicionamento. Apresenta uma formalização — o que chama de colaboridade — para algo que já praticava por convicção muito antes de o mercado perceber que era necessário.
A tese é simples na formulação e exigente na execução: diversidade não é atributo decorativo, mas infraestrutura produtiva. Num Brasil que celebra sua mestiçagem como cartão postal, mas raramente a incorpora como método de trabalho, a agência construiu uma rede de mais de 700 profissionais espalhados pelo país e pelo exterior, recrutados não pela proximidade geográfica ou pela uniformidade de formação, mas pela capacidade de gerar fricção criativa qualificada. Quanto mais distantes os repertórios de quem trabalha junto, mais rica a síntese entregue ao cliente. Essa é a gramática da GINGA.
O modelo tem nome: inteligência cultural aplicada. Significa ler os múltiplos Brasis com a mesma precisão com que se lê um dado de mercado — e traduzir essa leitura em estratégia e entrega. Um briefing de marca de consumo popular pode ser processado por uma rede que inclui um estrategista de Belém, uma diretora de arte de Salvador, um planejador carioca e um produtor paulistano. A diversidade, nesse caso, não é política interna: é método. E o método tem consequências financeiras mensuráveis. O estudo Diversity Wins, da McKinsey & Company (2020), demonstrou que empresas no quartil superior de diversidade étnica têm 36% mais probabilidade de obter retornos financeiros acima da média de seus setores. A GINGA não cita o dado — o histórico da agência funciona como evidência.
A lista de clientes acumulada em 24 anos confirma a coerência da aposta. Mercado Livre, Kopenhagen, Burger King, Friboi, Polenghi, FGV, Sagatiba — setores distintos, públicos e posicionamentos muito diferentes entre si. O que os aproxima é a disposição em aceitar que comunicação cultural exige ceder algum controle sobre a narrativa. A GINGA não produz campanhas no sentido convencional. Produz agentes culturais: marcas que não apenas comunicam, mas participam do tempo em que vivem. Nos ciclos culturais acelerados de hoje — em que movimentos nascem e se esgotam em dias —, integrar estratégia, criação e produção de forma contínua deixou de ser diferencial e tornou-se condição de sobrevivência.
Essa integração opera em três camadas simultâneas. A primeira é criativa: equipes com maior diversidade têm até 70% mais chances de capturar novos mercados, e 76% das empresas com diversidade cultural elevada tomam decisões mais eficazes em menos tempo, segundo dados da McKinsey. A segunda é executiva: velocidade não é pressa — é a capacidade de transformar conceito em entrega sem perder profundidade. Equipes que entendem o negócio do cliente com profundidade suficiente para antecipar demandas e identificar códigos culturais só funcionam quando há cultura de criatividade real, não de produção serial. A terceira é relacional: a diferença entre audiência e comunidade.
Essa distinção tem sustentação empírica consistente. Um aumento de apenas 5% na retenção de clientes pode elevar a lucratividade em até 95%. O Sprout Social Index aponta que 91% dos consumidores veem redes sociais como espaços de conexão — e 76% esperam que as marcas promovam esse espaço de forma genuína. O Edelman Trust Barometer confirma: 57% das pessoas passam a evitar marcas com as quais se identificam negativamente. Audiência é número; comunidade é vínculo. Construir comunidade é mais parecido com cultivar do que com plantar — menos sobre brilhar de vez em quando, mais sobre estar presente todos os dias.
A dimensão experimental da trajetória da GINGA é igualmente reveladora. Em 2022, a agência foi pioneira na criação de uma DAO (Decentralized Autonomous Organization) aplicada ao marketing — a Gira.DAO —, com 150 profissionais em diferentes níveis de participação nas decisões via blockchain. A iniciativa sinalizava uma direção antes de o mercado nomeá-la: estruturas mais fluidas, mais plurais, mais distribuídas. Os sócios lançaram também a SIGNA, consultoria de branding e design estratégico, e passaram a integrar a Purpy, consultoria global de regeneração que trabalha na transição de modelos extrativistas para ecossistemas regenerativos de negócio. O arco é legível: de agência criativa a ecossistema de transformação cultural e econômica.
A ampliação do quadro societário, em 2024, segue a mesma lógica. Ao incorporar à sociedade Fernanda Fontes (CCO), Karen Mendes (CFO), Francine Azevedo (produção audiovisual), Laís Araújo (pessoas e cultura), David Galasse (design) e Thomas Rebergue (novos negócios), a agência não apenas distribuiu equity — distribuiu governança. Num setor em que a concentração de poder nas mãos de poucos sócios fundadores ainda é regra, a horizontalização foi escolhida como estratégia de perenidade. Dados do Instituto de Produtividade Corporativa indicam que 83% das empresas com modelos distribuídos de trabalho relatam alta produtividade — não por acaso: redes descentralizadas são, antes de tudo, adaptativas, reorganizando-se conforme a necessidade de cada projeto, sem depender de hierarquia para responder.
O valor de tudo isso, no longo prazo, não se mede apenas em receita. O Edelman Trust Barometer aponta que 64% das pessoas escolhem marcas com base em crenças e valores. O Kantar BrandZ confirma que marcas com alto significado cultural superam as demais em valor de mercado em 19%. E o Reuters Digital News Report registra que 40% das pessoas já evitam notícias ativamente — num ecossistema saturado de estímulos, a comunicação que não gera vínculo não gera nada. Gerar valor na essência é um exercício de coerência: alinhar discurso e prática, intenção e entrega, eficiência e humanidade. A capacidade de um negócio gerar resultado passa a ser função direta de sua capacidade de fortalecer relações e nutrir os ecossistemas dos quais faz parte.

Colaboridade, portanto, não é conceito de aniversário. É o nome que a GINGA deu ao que sempre foi: uma operação que entendeu, antes da maioria, que o Brasil é diverso demais para ser comunicado por agências homogêneas. Que criatividade sem diversidade de repertório é criatividade de circuito fechado. Que colaboração sem estrutura é caos, e estrutura sem colaboração é burocracia. Que comunicar bem, num mundo em que marcas são cobradas pelo que fazem e por como constroem o que fazem, exige que a própria casa seja feita de vozes diversas. Vinte e quatro anos de prática sugerem que a aposta foi acertada. A resposta, ao que parece, sempre esteve embutida no nome.