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A abelha que o cafezal esqueceu

Escrito por Neo Mondo | 12 de maio de 2026

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Abelha mandaguari (Scaptotrigona depilis) com corbículas carregadas de pólen sobre flor do café arábica — serviço ecossistêmico que pode elevar em até 67% a produção de frutos por ramo - Foto: Divulgação/Embrapa

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO

Estudo publicado na Frontiers in Bee Science mostra que a mandaguari, abelha nativa sem ferrão, pode elevar em até 67% a produção de frutos do café arábica — resultado que reposiciona os meliponíneos como variável produtiva e ecológica de primeira ordem numa cadeia pressionada pelo clima e pela demanda global

Em fazendas convencionais do interior de São Paulo e Minas Gerais, pesquisadores instalaram colônias de Scaptotrigona depilis — a abelha mandaguari — antes do início da florada do café arábica, na densidade aproximada de dez colônias por hectare. O que registraram nos ramos mais próximos às colônias foi um aumento de até 67% na produção de frutos. O dado, publicado na revista científica Frontiers in Bee Science por equipe coordenada pela Embrapa Meio Ambiente, não é apenas mais um incremento de produtividade: é uma evidência que obriga a rever premissas consolidadas sobre a biologia do arábica e sobre o papel dos polinizadores nativos em sistemas agrícolas de larga escala.

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O café arábica tem reputação de autossuficiência reprodutiva. Variedade hermafrodita e autocompatível, capaz de se fecundar pelo próprio pólen antes mesmo de abrir a flor, foi por décadas tratada como uma cultura que dispensava polinizadores. O argumento circulava nos cursos de agronomia, moldava decisões de manejo e justificava a negligência com a fauna apícola nos cafezais. Por muito tempo, negligenciou-se o papel dos polinizadores na cadeia do arábica. O estudo da Embrapa, desenvolvido entre 2021 e 2023 em condições reais de campo, contradiz essa lógica com precisão metodológica: mesmo em cultivares plenamente autocompatíveis, a presença ativa da mandaguari produziu ganhos expressivos de frutificação. A planta se autopoliniza — e ainda assim responde ao trabalho das abelhas.

A explicação está na polinização cruzada suplementar. O café reserva entre 10% e 20% de suas flores para fecundação por agentes externos, dependendo da variedade e das condições ambientais. É nessa fração que os polinizadores atuam com maior efeito. Um estudo anterior da mesma rede de pesquisa havia quantificado o potencial da polinização assistida com abelhas africanizadas: incremento de 16,5% na produtividade por hectare e ganho potencial de R$ 22 bilhões por ano na receita do arábica brasileiro, caso a tecnologia fosse adotada em escala nacional. O novo estudo com a mandaguari — espécie nativa, sem ferrão, e menos exigente em manejo do que as africanizadas — amplia esse horizonte ao demonstrar que insetos do grupo dos meliponíneos podem operar com eficiência comparável ou superior no contexto de uma florada concentrada.

A pesquisa investigou também uma questão determinante para qualquer produtor que adote inseticidas: o tiametoxam, neonicotinoide amplamente utilizado no controle de pragas do café em safras anteriores, deixou resíduos detectáveis em folhas, néctar e pólen coletados nas áreas convencionais. Apesar disso, os parâmetros monitorados nas colônias de mandaguari — produção de cria, mortalidade de larvas, atividade de coleta de alimento — não apresentaram diferenças estatisticamente significativas entre áreas convencionais e orgânicas ao longo do período de acompanhamento, que se estendeu por até 105 dias após a retirada das colônias do talhão de café. A ressalva dos autores é técnica: os resultados valem para o nível de exposição encontrado nas condições avaliadas e dentro das recomendações de uso do produto. Não é um atestado de inocuidade irrestrita dos neonicotinoides sobre meliponíneos — é uma indicação de que, operando dentro dos protocolos, a coexistência é possível.

imagem do desempenho do café com a abelha sem ferrão

Essa nuance importa porque o contexto regulatório e científico em torno dos agrotóxicos e polinizadores está em disputa. Pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica, da Embrapa, da Universidade de Brasília e do Ministério do Meio Ambiente publicaram evidências de que abelhas nativas sem ferrão podem ser mais sensíveis a agrotóxicos do que espécies utilizadas como referência nos testes oficiais de toxicidade, e que mesmo doses baixas já comprometem sua sobrevivência. O Brasil segue sem legislação específica para proteção de polinizadores — contradição evidente num país com a maior diversidade de meliponíneos do mundo e o maior consumidor global de agrotóxicos.

O serviço de polinização prestado por abelhas e outros insetos à agricultura brasileira é estimado em R$ 43 bilhões anuais. Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas na produção de alimentos no país com processo de polinização conhecido, 114 — 60% do total — dependem da visita de polinizadores para se reproduzir. O café está nessa lista. Também estão o feijão, a soja e a laranja. O declínio acelerado das populações de polinizadores, impulsionado pela perda de habitat, pelo uso intensivo de agrotóxicos e pelas mudanças climáticas, já compromete a regeneração de florestas e o equilíbrio dos agroecossistemas.

O momento em que o estudo emerge não poderia ser mais eloquente. A Organização Internacional do Café estimou a produção mundial no ciclo 2023/24 em 178 milhões de sacas de 60 kg, com consumo de 177 milhões. Para 2024/25, a produção foi revisada para 176,2 milhões de sacas, mantendo o mercado sob pressão. Os preços do arábica atingiram na bolsa de Nova York os maiores patamares em quase cinco décadas. Relatório da FAO aponta alta média de 38,8% nos preços globais de café em 2024, com fatores climáticos como determinantes centrais: seca e calor no Brasil, estiagem prolongada no Vietnã, excesso de chuvas na Indonésia. Pesquisadores do clima indicam que 75% da região produtora de café no Brasil pode se tornar economicamente inviável ao longo do século XXI, de forma gradativa, pelo efeito combinado de estresse hídrico e temperaturas crescentes.

Nesse quadro, estratégias que elevem a produtividade sem ampliar a fronteira agrícola adquirem dimensão econômica e ambiental de outra magnitude. O uso de polinizadores manejados é uma delas — e tem a vantagem de ser, simultaneamente, uma solução de produtividade, uma ferramenta de conservação da biodiversidade e um argumento de sustentabilidade verificável para mercados que exigem rastreabilidade socioambiental. A bióloga Jenifer Ramos, primeira autora do estudo, descreve os resultados como uma solução baseada na natureza com potencial de aplicação em escala. O pesquisador Cristiano Menezes, coordenador do trabalho, enquadra a contribuição no plano das estratégias integradas: não se trata de substituir o manejo fitossanitário, mas de operar com ele, dentro de protocolos que preservem a saúde das colônias.

O café é um dos cultivos mais bem estudados no mundo em polinização, com trabalhos acadêmicos no Brasil, na Costa Rica, no México e no continente africano. A rede que produziu este estudo — Embrapa Meio Ambiente, Esalq/USP, UFRGS, Natural England e Eurofins Agroscience Services — é, em si mesma, um indicador do patamar em que essa linha de pesquisa opera. O apoio da Syngenta acrescenta uma camada de complexidade a uma pesquisa que, entre seus achados, aponta compatibilidade entre o uso do tiametoxam e a saúde das colônias nas condições avaliadas. Não é uma contradição fatal: é a tensão produtiva entre agronegócio e ciência funcionando dentro dos limites que a transparência metodológica permite rastrear.

A mandaguari não é uma descoberta. Scaptotrigona depilis ocorre em diferentes regiões do Brasil e é conhecida dos meliponicultores há décadas. O que o estudo faz é reposicioná-la dentro de um sistema produtivo que, por muito tempo, acreditou não precisar dela. Essa é a torção mais precisa do resultado: não é sobre uma espécie nova, mas sobre um serviço ecossistêmico que sempre esteve ali, ignorado pela geometria de uma cafeicultura que aprendeu a contar grãos sem contar abelhas.

*Com informações de Marcos Vicente, Embrapa Meio Ambiente.

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