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Escrito por Neo Mondo | 31 de julho de 2026
Curadora de ondas e de biodiversidade, a Praia do Moçambique estende seus sete quilômetros de areia preservada no norte da Ilha de Santa Catarina, onde dunas, restinga e Mata Atlântica encontram o mar. Reserva de Surf do Moçambique, Florianópolis (SC). Foto: Marcio Mortari
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em novembro de 2025, em Belém, Marinez Scherer conseguiu o que a diplomacia climática levou três décadas para admitir no papel: o oceano entrou no documento final de uma Conferência do Clima. Oceanógrafa da Universidade Federal de Santa Catarina e Enviada Especial para os Oceanos da presidência da COP30, ela foi a responsável por lançar em Belém o Pacote Azul, um plano de aceleração que reúne dezenas de soluções baseadas no mar e projeta cortar até 35% das emissões globais de gases de efeito estufa até 2050. Oito meses depois, Scherer assina a curadoria do evento que abre a São Paulo Climate Week e leva a mesma agenda para o coração financeiro do país.
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O Futuro é Azul – O Oceano no Centro da Ação Climática acontece em 3 de agosto, das 8h30 às 16h30, na FGV EAESP, em São Paulo. Promovido pelo Instituto APRENDER Ecologia e pelo Instituto Ambientes em Rede, com parceria acadêmica do FGVces e apoio da Conservação Internacional e do Instituto Clima e Sociedade, o encontro abre a programação da semana, que vai até 7 de agosto e mobiliza mais de duzentas organizações no primeiro ano após a COP brasileira. O Neo Mondo assina a cobertura como mídia oficial do evento. A escolha da data diz algo sobre método. Colocar o oceano na largada de uma Climate Week é retirá-lo da margem para onde a agenda climática costuma empurrá-lo.
O portal também estará na condução do debate. O publisher do Neo Mondo, Oscar Lopes, modera o Painel 2, dedicado às soluções baseadas no oceano, das 10h45 ao meio-dia. Sentam à mesa Camila Yamahaki, da FGV, Mauro Figueiredo, do GPDA-UFSC e do Instituto APRENDER Ecologia, Natali Piccolo, da Conservação Internacional e Rusiene Almeida, da UFAL. É a frente que trata de transformar conservação em política pública sem tirar do centro as comunidades costeiras.
O motivo de tanta insistência cabe em um número que quase nunca sai do rodapé. Desde a década de 1970, o oceano absorveu mais de 90% do excesso de calor produzido pela queima de combustíveis fósseis. O dado é do IPCC, endossado pela NOAA e pela Woods Hole Oceanographic Institution. Sem essa esponja de água salgada, o ar já teria esquentado muito além do 1,2°C que hoje se atribui ao aquecimento. O mesmo oceano retém cerca de um quarto do dióxido de carbono lançado na atmosfera a cada ano e produz metade do oxigênio do planeta. É o corpo que mais trabalha para conter a crise, e o que menos aparece onde ela é decidida.
Cada uma dessas funções cobra um preço que já vence. A água que sequestra carbono fica mais ácida: o pH médio da superfície caiu para perto de 8,1, uma alta de 25% na acidez em relação aos níveis pré-industriais, o bastante para atrapalhar corais, moluscos e o plâncton que sustenta toda a cadeia alimentar do mar. E o calor estocado não desaparece. Ele volta na forma de ondas de calor marinhas mais longas e frequentes. Regina Rodrigues, professora de oceanografia física também da UFSC, explicou o mecanismo à ONU em termos secos: sistemas atmosféricos maiores e mais persistentes prolongam essas ondas de calor no mar e em terra, e a mudança do clima é um dos fatores que as alongam.
A jornada de 3 de agosto começa cedo e por quem costuma ficar de fora. A roda de abertura, Mulheres do Mar, reúne Ana Toni, CEO da COP30, a própria Marinez Scherer, a navegadora Heloísa Schürmann, do Voice of the Oceans, e Leana Bernardi, do Programa Bandeira Azul, sob mediação de Maíra Pabst. Na sequência vêm quatro painéis que percorrem a produção de conhecimento para orientar decisões, as soluções baseadas no oceano, a economia azul e o financiamento. A curadoria dividida entre Scherer e Diego De Franceschi Alvarez, advogado ambiental e diretor-executivo do Instituto APRENDER Ecologia, aponta para a mesma direção do Pacote Azul: sair do discurso e chegar à implementação.
O dinheiro é o nó que fecha o dia. O último painel, com Nabil Kadri, do BNDES Azul, e Maria Netto, do Instituto Clima e Sociedade, encara justamente a distância entre o discurso e o investimento. Quando lançou o plano em Belém, Scherer foi direta sobre a conta. As soluções oceânicas mapeadas exigem entre US$ 116 bilhões e US$ 170 bilhões por ano, e destravar esse capital, disse ela, depende de regras claras, instrumentos de redução de risco e finanças mistas que combinem recursos públicos e privados. Foi por isso que o Pacote Azul veio acompanhado de uma ferramenta de monitoramento: dar aos ministros das finanças, segundo Scherer, a real dimensão do que está em jogo.
O Brasil ilustra o descompasso entre patrimônio e valor. O país guarda cerca de 1,3 milhão de hectares de manguezais ao longo de mais de sete mil quilômetros de costa, um dos maiores estoques de carbono azul do planeta, e ainda engatinha na estruturação de projetos capazes de traduzir esse ativo em recurso mensurável e verificável. Liderar em potencial natural e atrasar na captura de valor é um padrão que a economia brasileira conhece bem. Trazer esse debate para uma sala da FGV, a setenta quilômetros do mar, é a aposta de que nenhuma cidade resolve o clima de costas para a água.
As inscrições são gratuitas e limitadas, feitas pela plataforma Luma. A abertura da São Paulo Climate Week acontece na segunda-feira, 3 de agosto, e o oceano abre a conta.
Programação — O Futuro é Azul: O Oceano no Centro da Ação Climática
3 de agosto de 2026, FGV EAESP, São Paulo, das 8h30 às 16h30
8h45 — Recepção
9h00 às 9h45 — Roda de conversa Mulheres do Mar: Oceano e Clima. Moderação de Maíra Pabst (Instituto APRENDER Ecologia). Com Ana Paula Prates (em vídeo), Ana Toni (COP30), Marinez Scherer (UFSC e Enviada Especial para os Oceanos da COP30), Heloísa Schürmann (Voice of the Oceans) e Leana Bernardi (Programa Bandeira Azul do Brasil).
9h45 às 10h45 — Painel 1: Conhecimento e informação para a agenda oceano-clima. Moderação de Alexander Turra (USP). Com Deborah Prado (UNIFESP), Segen Estefen (INPO), Tarin Montalverne (UFC) e Tatiana Mendonça Cardoso (comunidade da Ilha do Cardoso, SP).
10h45 às 12h00 — Painel 2: Soluções baseadas no oceano. Moderação de Oscar Lopes (Neo Mondo). Com Camila Yamahaki (FGV), Mauro Figueiredo (GPDA-UFSC e Instituto APRENDER Ecologia), Natali Piccolo (Conservação Internacional)e Rusiene Almeida (UFAL).
12h00 às 13h30 — Almoço
13h30 às 14h45 — Painel 3: Economia azul, transformação econômica sustentável, equitativa e justa. Moderação de Maurício Bianco (Conservação Internacional). Com Ademilson Zamboni (Oceana), Diego Alvarez (Instituto APRENDER Ecologia), Julia Paletta (OEP) e Will McClintock (Universidade da Califórnia, Santa Barbara).
14h45 às 16h15 — Painel 4: Do discurso ao investimento, financiando soluções baseadas no oceano. Moderação de Fábio de Almeida Pinto (FGV). Com Nabil Kadri (BNDES Azul), Karen Silva (Better Drinks), Maria Netto (Instituto Clima e Sociedade), Henrique Kefalas (Instituto Linha d'Água) e Omar Rodrigues (Fundação Boticário).
16h15 — Encerramento
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