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Escrito por Daniel Medeiros | 19 de outubro de 2026
Jogo de forças entre a repressão e a liberdade: sob a ditadura, estudantes fizeram da resistência um caminho para a democracia - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Memorial da Democracia: na noite de 22 de setembro de 1977, cerca de 2 mil estudantes de São Paulo e delegações de todo o país participam de ato público pela recriação da União Nacional dos Estudantes (UNE) em frente ao Tuca, teatro da Pontifícia Universidade Católica (PUC), e são surpreendidos pela ação violenta de 3 mil policiais. Sob comando do secretário da Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, a tropa, apoiada por blindados, investiu com truculência contra os estudantes, que tentavam se abrigar dentro da universidade. O prédio foi invadido pelos policiais, que prenderam alunos e espancaram professores. Bombas explodiram e seis estudantes sofreram queimaduras. Dezenas foram levados para o Dops. A invasão da PUC foi uma das últimas ações violentas da ditadura contra o movimento estudantil. Três meses antes, em junho, já havia ocorrido a invasão da Universidade de Brasília (UnB) e da Faculdade de Direito da USP. O movimento, que começara a se reorganizar em 1976, ganharia cada vez mais impulso e fortaleceria a luta da sociedade pela redemocratização.
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Memorial da minha adolescência: 1979. Pego o ônibus e vou para a Universidade Federal do Ceará pela primeira vez na vida. Tenho 16 anos. Vou participar do meu primeiro ato coletivo contra a ditadura, na reunião da SBPC. É julho, estou de férias da escola e, apesar de ser inverno, faz muito calor em Fortaleza. Não sei bem o que esperar, mas sinto que devo estar neste lugar. Filho de militar, aluno do colégio militar, vivo uma vida definida pelo treinamento e pela régua da ordem. Testemunho, no entanto, que essa ordem imposta, tida como necessária, não tem conteúdo. Não há eudaimonia, só a voz de um daimon cansado e confuso dizendo: “fique em fila, obedeça, não discuta”. Apesar de muito jovem, eu já percebia que o mundo em que estava inserido não fazia sentido. E estava prestes a descobrir o sentido da vida: o coletivo, o país, a sociedade, a Justiça, a Democracia, a Liberdade, a Equidade. Todas essas palavras apareciam nas aulas de Educação Moral e Cívica, mas esvaziadas, como molduras de quadros inexistentes. A pobreza que eu via na esquina de casa e no centro da cidade não aparecia nos jornais, nas aulas da escola, nas conversas em família. Vivíamos numa realidade distorcida: falava-se dos feitos do governo, mas ninguém conseguia apontar seus beneficiários. Isso me incomodava a ponto de eu não me reconhecer. Eu precisava ser diferente daquilo. Só não sabia como.
Um senhor da primeira fila abriu um sorriso e disse: posso falar primeiro?
Pronto. O resto foi tranquilo.
E é exatamente isso que está em jogo agora. A vida que meu pai não escolheu e contra a qual nunca se rebelou, tentando conformar o mundo a ela. Ou a vida como invenção, que só é possível quando nos abrimos para ela e ela aceita nos ouvir e ter paciência com as nossas fraquezas.
Eu escolhi a segunda.
E você?
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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