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Escrito por Neo Mondo | 3 de março de 2026
Conflito no Estreito de Hormuz transforma uma das rotas mais estratégicas do mundo em termômetro da segurança energética global - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Dependência de gás natural importado para abastecer térmicas expõe o país a choques de preços globais em momento de instabilidade no Oriente Médio
A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e aliados recoloca um tema estrutural na agenda brasileira: a vulnerabilidade do sistema elétrico a combustíveis precificados no mercado internacional.
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O Brasil não importa gás iraniano. Tampouco depende diretamente do Golfo Pérsico para abastecimento energético. Ainda assim, o país está inserido em um mercado global integrado, onde o risco geopolítico se traduz rapidamente em prêmio de preço.
O ponto de inflexão é o Estreito de Hormuz. Por ali transita cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo e parcela relevante do gás natural liquefeito (GNL). Qualquer ameaça à navegação eleva seguros, fretes e contratos futuros. Não é necessário que o fluxo pare. Basta que o risco aumente.
O efeito já aparece nas curvas de preços internacionais do gás. A Europa e a Ásia disputam cargas spot. Operadores reavaliam rotas. Traders incorporam risco político às cotações. O mercado de GNL é sensível a expectativa.
É nesse ambiente que o Brasil opera suas térmicas a gás.
O país expandiu a infraestrutura de regaseificação nos últimos anos e passou a importar volumes relevantes de GNL para complementar a oferta doméstica e substituir parcialmente o gás boliviano. Esses contratos, em grande parte, seguem referências internacionais. Quando o benchmark sobe, o custo marginal da geração térmica sobe junto.
O sistema elétrico brasileiro continua majoritariamente hidrelétrico. Mas a hidrologia deixou de ser previsível. Em períodos de estiagem, as térmicas deixam de ser complementares e passam a ser estruturais. Funcionam como seguro. E seguro custa caro quando o risco global aumenta.
Não se trata de risco de desabastecimento imediato. Trata-se de custo.
Se o conflito no Oriente Médio pressionar o mercado internacional por semanas ou meses, o despacho térmico brasileiro pode ocorrer com gás mais caro. Isso afeta o preço marginal de operação do sistema. E, em última instância, a conta de energia.
A Petrobras declarou acompanhar a volatilidade internacional antes de qualquer decisão sobre preços domésticos de combustíveis. A política comercial pode amortecer movimentos de curto prazo. Mas não altera a estrutura de formação de preços do gás importado.
O episódio expõe uma questão estratégica: o Brasil ampliou sua capacidade de importação de GNL sem criar mecanismos robustos de hedge estrutural contra choques geopolíticos. A dependência não é física, mas financeira.
O debate sobre segurança energética no país costuma girar em torno de reservas de petróleo e expansão renovável. O conflito no Irã revela outra dimensão: a integração aos mercados globais de gás.

Em um mundo onde tensões regionais redesenham cadeias energéticas, a autonomia não é apenas produzir mais. É reduzir a exposição a preços formados fora de casa.
O teste agora não é de oferta. É de resiliência econômica.
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