Destaques Economia e Negócios Emergência Climática FINANÇAS Meio Ambiente Sustentabilidade Tecnologia e Inovação

Sabesp fecha ciclo do plástico e leva material de hidrômetros para o coração das ETEs

Escrito por Neo Mondo | 2 de março de 2026

Compartilhe:

Sabesp transforma resíduo de hidrômetros em tecnologia para tratamento mais eficiente de esgoto - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

A Sabesp decidiu tratar um resíduo do próprio sistema como matéria-prima operacional. Em parceria com o Grupo Tigre, a companhia passou a reaproveitar o plástico de hidrômetros substituídos na fabricação do Biobob, peça usada no tratamento biológico de esgoto.

Leia também: A água entrou na zona de risco — e o mercado ainda subestima

Leia também: Água: o século em que o recurso virou risco estratégico

O movimento desloca o debate da reciclagem periférica para a engenharia do saneamento.

O Biobob funciona como meio suporte para bactérias responsáveis pela depuração do esgoto. Em vez de permanecerem dispersos no líquido, os microrganismos aderem à estrutura do dispositivo, o que eleva a eficiência do processo e reduz a necessidade de área nas estações.

A matéria-prima vem de um fluxo conhecido: hidrômetros retirados da rede ao fim da vida útil. A Tigre recolhe cúpulas, turbinas e engrenagens — componentes majoritariamente de polipropileno — e os converte no insumo industrial do dispositivo.

Fechar o ciclo dentro do próprio setor é o ponto central da iniciativa.

Segundo a Sabesp, a meta para 2026 é manter a destinação de cerca de 1.000 toneladas anuais de hidrômetros para reciclagem. Desse volume, a estimativa é recuperar aproximadamente 60 toneladas por ano de polipropileno. Como cada Biobob pesa apenas 14 gramas, esse montante permitiria a produção de mais de 4,2 milhões de unidades anuais.

Hoje, o equipamento já opera na ETE Cabuçu, em Guarulhos.

O efeito prático é mensurável: o plástico recuperado em um ano seria suficiente para viabilizar o tratamento de esgoto de uma cidade com cerca de 27 mil habitantes — ordem de grandeza comparável à população de Bonito (MT), segundo dados do projeto.

Há também um ganho energético indireto. Com maior concentração de biomassa aderida ao suporte, o sistema tende a exigir menos aeração por unidade de carga tratada, embora a magnitude dessa economia dependa do desenho operacional de cada estação.

O desafio técnico esteve menos na moldagem do Biobob e mais na etapa anterior: separar e purificar o plástico heterogêneo dos medidores. Hidrômetros combinam diferentes polímeros e contaminantes de uso prolongado em campo. Torná-los matéria-prima estável exigiu engenharia de triagem e reprocessamento.

O que emerge desse arranjo não é apenas uma ação de reciclagem corporativa, mas um redesenho discreto da lógica material do saneamento.

foto do símbolo da reciclagem, remete a matéria Sabesp fecha ciclo do plástico e leva material de hidrômetros para o coração das ETEs
Foto: Ilustrativa/Freepik

Resíduo de medição vira insumo de tratamento.

Para um setor pressionado por expansão de cobertura, restrição de área urbana e custo energético crescente, a relevância está menos na narrativa ambiental e mais na eficiência física do sistema.

E é aí que a iniciativa será realmente testada: na escala, na estabilidade operacional e no custo por metro cúbico tratado.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é

Quem paga quando os Estados Unidos saem da sala

O Brasil que falou bonito em Belém e desmontou a lei em Brasília


Artigos relacionados