Escrito por Neo Mondo | 20 de janeiro de 2022
Foto – Pixabay[/caption]
Diferença entre lucro e prejuízo
Breno Magalhães Freitas é agrônomo e há 20 anos professor e pesquisador do departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua paixão foi herdada do pai, agrônomo da Emater, que criava abelhas europeias e só aumentou ao estudar a polinização agrícola, unindo o interesse pela agricultura e a produção animal. Ele lembra que a população humana atualmente é de mais de 7 bilhões de pessoas e, até o momento, a matriz de produção de alimentos global tem se baseado, principalmente, na expansão da fronteira agrícola. “A polinização agrícola desempenha papel fundamental para que cada planta consiga alcançar o seu potencial produtivo máximo. Em diversas culturas, a inserção de colmeias, graças ao seu baixo custo, é a diferença entre o lucro e o prejuízo”, ressalta. “Por exemplo, na cultura do feijão, pouco dependente de polinização, as abelhas podem contribuir para um aumento de até 10% na produção”.
O professor conduz hoje diversas linhas de pesquisa com abelhas, com uma equipe de cerca de 30 pessoas na UFC, muitas em parceria com estudiosos da Inglaterra, Alemanha, Argentina, Austrália, entre outros países. Uma das pesquisas analisa os odores que mais atraem as abelhas, importante indicativo para os mel horistas de plantas. Outra estuda as causas das baixas taxas de reprodução de espécies sem ferrão, de forma a endereçar esta questão.
Como elas ajudam na polinização?
Quando a abelha pousa numa flor para coletar néctar ou pólen, grãos de pólen ficam presos nos seus pelos. Em razão do seu movimento entre as flores, os grãos podem ser levados ao estigma da mesma flor ou de outra. O mais curioso é que a ação da abelha é involuntária e, a polinização, um resultado acidental. Uma abelha visita em média entre 50 e 1.000 flores por dia. Uma revisão publicada pelo Journal of Economic Entomology listou algumas espécies vegetais que apresentam dependência essencial por polinizadores: abóbora, acerola, cajazeira, cambuci, castanha do pará, cupuaçu, fruta do conde, gliricídia, jurubeba, maracujá, maracujá doce, melancia, melão e urucum. Já as que foram citadas como apresentando grande dependência foram: gabiroba, goiaba, jambo vermelho, murici, pepino, girassol, guaraná, tomate, abacate, pinhão manso, damasco, cereja, pêssego, ameixa, adesmia e araticum. Ou seja, de forma indireta, podemos afirmar que as abelhas desempenham papel essencial para estes cultivos.
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Foto – Pixabay[/caption]
Simbiose perfeita
Cristiano Menezes é biólogo e pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. Seu principal foco de estudo, há 16 anos, é a biologia e manejo das abelhas sem ferrão para a polinização agrícola. Sua paixão pelo tema nasceu ao fazer sua iniciação científica com o geneticista, engenheiro agrônomo e reconhecido professor Warwick Estevam Kerr. “São mais de 240 espécies de abelhas sem ferrão catalogadas no Brasil, um tesouro da biodiversidade, com cores e formatos diferentes, um material biológico incrível e cheio de mistérios”, conta.
Ele cita duas pesquisas para exemplificar a grande quantidade de mistérios a serem desvendados nesse grupo de abelhas. A primeira foi a descoberta de soldados especializados na abelha Jataí. “Assim como ocorre em formigas e cupins, descobrimos que a abelha jataí possui uma subcasta específica para proteger suas colônias de invasores”, explica.
De acordo com Cristiano, elas são bem maiores e morfologicamente diferentes das demais companheiras do ninho. Outro estudo que ganhou destaque internacional foi o primeiro caso de agricultura de fungos em abelhas, na espécie Mandaguari. Essas abelhas cultivam fungos para alimentar as suas larvas. É uma simbiose obrigatória, ou seja, as larvas precisam comê-lo para sobreviver. “É preciso conhecer muito bem a biologia dessas abelhas para ajudar na sua conservação e, principalmente, para utilizá-las na polinização agrícola de forma sustentável”, conta.
Benefícios mútuos
Desde criança, a bióloga, diretora do Instituto de Meio Ambiente e professora da Pontífice Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Betina Blochtein, gostava de observar a natureza, especialmente flores caídas e insetos. Ao ser aluna de um curso de apicultura na faculdade, se apaixonou pelo tema. Hoje, conta com alunos vinculados ao seu grupo de pesquisa. Ela destaca o estudo que conduz com a cultura da canola, que mostra que a produtividade pode aumentar em até 30% com a introdução das abelhas no cultivo. “Este ganho acontece naturalmente, sem colocar qualquer insumo agrícola na produção. Além disso, mostramos que a canola antecipa o ciclo das colmeias, numa relação de ganha-ganha entre agricultores e apicultores”, ressalta.
Outra descoberta da professora e de sua equipe é o quanto a paisagem é importante, ou seja, lavouras entremeadas de áreas nativas e de preservação permanente são essenciais para a sobrevivência das abelhas.
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Plantação de canola – Foto: Pixabay[/caption]
Dentre outros estudos, Betina conduz a criação in vitro de espécies sem ferrão para, entre outros objetivos, realizar a análise de risco dos defensivos agrícolas sobre as abelhas, especialmente os inseticidas. Seus estudos ajudam hoje a disseminar as boas práticas agrícolas. “Orientamos os agricultores sobre a importância de escolher o melhor horário para as aplicações dos defensivos, nos finais de tarde, principalmente, e dias com menor incidência de vento para minimizar o impacto dos produtos”, conta.
CURIOSIDADES
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Quem ensina a pensar quando a máquina responde a quase tudo?