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Escrito por Neo Mondo | 30 de junho de 2026
Aclara transforma pureza em vantagem estratégica. Se a tecnologia se confirmar em escala industrial, Brasil e Chile poderão capturar uma parcela muito maior do valor das terras raras antes que ela deixe a América do Sul - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Quarenta por cento. Esse é, em média, o teor de terras raras presente no Carbonato Misto convencional, o MREC, produto intermediário que sustenta hoje a cadeia de extração de elementos críticos para ímãs permanentes em todo o mundo. O restante é impureza: material que precisa ser isolado, tratado e descartado antes que neodímio, praseodímio, disprósio e térbio cheguem a uma liga metálica. A Aclara Resources, companhia canadense com operações em Goiás e na região chilena do Biobío, anunciou nesta semana ter superado essa barreira. Batizado de SPREC — Super Carbonato de Terras Raras de Alta Pureza —, o novo produto chega a aproximadamente 99% de concentração, desenvolvido na planta-piloto da empresa em Santiago.
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A diferença entre 40% e 99% não é apenas um salto técnico. É uma mudança na lógica econômica de toda a cadeia. Quanto mais impuro o carbonato, mais complexa — e mais cara — se torna a etapa seguinte, a separação dos óxidos individuais. É ali que se concentra o maior risco operacional de qualquer projeto de terras raras fora da Ásia, e é ali que a China, hoje responsável pela quase totalidade do processamento mundial, mantém sua vantagem competitiva mais difícil de replicar.
O SPREC nasce do cruzamento entre duas frentes que a Aclara vinha conduzindo paralelamente. De um lado, o conhecimento acumulado em extração por solventes, tecnologia desenvolvida pela subsidiária americana Aclara Technologies. De outro, o processo patenteado Circular Mineral Harvesting (CMH), já em aplicação nos depósitos de argila iônica do Projeto Carina e do Módulo Penco. Ao incorporar a extração por solventes às etapas iniciais do CMH, a empresa diz ter chegado a um carbonato com maior concentração de terras raras pesadas — justamente os elementos mais escassos e mais disputados pela indústria de veículos elétricos, turbinas eólicas e robótica — e menor variabilidade na etapa de separação.
Há um detalhe que interessa particularmente a quem acompanha a viabilidade econômica desses projetos: segundo a companhia, a inclusão dessa nova etapa não deve provocar aumento relevante nos investimentos de capital nem nos custos operacionais do processo CMH. Se confirmado em escala industrial, o ganho de pureza viria sem o correspondente aumento de custo que normalmente acompanha processos de refino mais sofisticados — uma equação rara nesse setor.
O SPREC também resolve, ao menos no papel, um problema logístico que a Aclara enfrentava ao tentar conciliar dois projetos em dois países. Carina, em Goiás, e Penco, no Chile, produzem hoje carbonatos com características próprias. Com maior pureza e padronização, os dois fluxos poderão ser processados conjuntamente no mesmo circuito de extração por solventes — o que simplifica a operação e, segundo a empresa, reduz custos logísticos pela exportação de um produto de maior valor agregado e menor volume.
"O SPREC é um produto de maior valor agregado, resultado da aplicação da nossa tecnologia de extração por solventes às operações no Brasil e no Chile", afirmou o CEO da Aclara, Ramón Barúa, em comunicado à imprensa. *"Nosso objetivo é reduzir o risco operacional da planta de separação, e essa nova etapa permite eliminar grande parte das impurezas, justamente a principal fonte de complexidade nesse processo."* Barúa acrescentou que, ao processar conjuntamente as terras raras do Brasil e do Chile, um carbonato de máxima pureza reduz a variabilidade da etapa de separação — e que a inovação permite às duas economias capturar mais valor de seus recursos minerais antes de exportá-los.
A declaração ecoa um movimento mais amplo da companhia, que vem tentando se posicionar como uma das poucas operações verticalizadas de terras raras fora da Ásia. Nos Estados Unidos, a Aclara avança na construção de uma planta de separação que transformará seus carbonatos em óxidos individuais de alta pureza, em parceria com instituições como a Virginia Tech e o Argonne National Laboratory, com apoio de órgãos como o Departamento de Energia americano. Em paralelo, a parceria com a siderúrgica CAP mira a etapa final da cadeia: a produção de ligas metálicas para ímãs permanentes. O SPREC, segundo a empresa, deve se tornar o produto intermediário padrão de Carina e Penco quando os dois projetos iniciarem operação comercial.
Falta, ainda, a confirmação em escala industrial. A Aclara segue em fase de validação piloto e otimização do processo em Santiago, como parte da engenharia dos dois projetos. É nessa transição — do laboratório para a planta comercial — que a maioria das promessas tecnológicas do setor mineral costuma encontrar seus primeiros obstáculos reais, sejam eles de custo, de escala ou de tempo de maturação. Por ora, o que a Aclara apresenta é uma equação de pureza que, se sustentada, devolve ao Brasil e ao Chile uma fatia do valor que hoje escoa quase inteiramente para fora da América do Sul.
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