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Escrito por Neo Mondo | 21 de agosto de 2026
Caldeiras movidas por biometano e biomassa estão no centro da estratégia para descarbonizar o calor industrial na cervejaria de Jacareí - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
O Grupo Heineken e a Veolia começaram a implementar um modelo híbrido de bioenergia na cervejaria de Jacareí, no Vale do Paraíba paulista. As empresas anunciaram a parceria em 13 de agosto, e o contrato pode somar até R$ 460 milhões até 2037. A solução combina biometano e biomassa certificados pela Roundtable on Sustainable Biomaterials e vai abastecer as caldeiras da unidade. A infraestrutura deve entregar 110 mil toneladas anuais de vapor, com funcionamento pleno previsto para 2027, e a meta é cortar em mais de 97,5% as emissões térmicas da operação até 2030, o equivalente a evitar 67 mil toneladas de CO2.
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Convém ler a cifra com precisão. Os R$ 460 milhões correspondem a investimento em fornecimento de combustível ao longo de doze anos, algo próximo de R$ 38 milhões por ano em moléculas renováveis compradas no lugar de gás fóssil. A infraestrutura fica com a parceira. A Veolia responde pela engenharia, construção, operação e manutenção do sistema que servirá as caldeiras. É energia como serviço: a cervejaria contrata vapor descarbonizado sem carregar o ativo no balanço. O arranjo não é inédito no país. A Grune by Veolia fornece vapor limpo a partir de biomassa à planta da Braskem em Marechal Deodoro, em Alagoas, desde 2023.
O alvo escolhido explica o resto. A eletricidade das cervejarias do grupo já vem de fontes renováveis. O que sobrava era o calor, e o calor é a parte difícil. Segundo a Agência Internacional de Energia, o calor industrial responde por dois terços da demanda de energia da indústria e por quase um quinto do consumo global de energia, além de concentrar a maior parte do CO2 emitido diretamente pelo setor, já que quase todo esse calor vem da queima de combustíveis fósseis. As indústrias que dependem de calor de baixa temperatura e vapor, entre elas alimentos e bebidas, representam cerca de 70% do consumo energético industrial no mundo e emitiram perto de 3 gigatoneladas de CO2 direto em 2023, metade de todas as emissões diretas da indústria. Trocar a caldeira não é ajuste fino. É onde está o carbono da fábrica.
O calendário explica a pressa. O grupo se comprometeu a alcançar net zero nos escopos 1 e 2 até 2030, net zero em toda a cadeia de valor até 2040 e redução de 26% no escopo 3, FLAG e não-FLAG, até o fim da década. Restam quatro anos para a primeira meta e catorze para a segunda, e é nos escopos 1 e 2 que a empresa controla diretamente as alavancas. A companhia informa que agricultura, embalagens, distribuição e resfriamento respondem por cerca de 99% de sua pegada de carbono, parcela que depende de fornecedores e de mudança tecnológica alheia. As caldeiras, não. Elas dependem de contrato e engenharia, e por isso saem primeiro. O compromisso para escopos 1 e 2 foi validado pela Science Based Targets initiative dentro da trajetória de 1,5 °C. A empresa reportou queda de 34% nessas emissões em 2024 ante a linha de base de 2022.
Há ainda uma mudança de natureza que o comunicado não sublinha. Em 2023, a Heineken fechou com a Marquise Ambiental e a MDC Energia o primeiro contrato de compra de certificados de biometano para suas fábricas no Brasil, incluindo Pacatuba (CE) e a própria Jacareí, com estimativa de reduzir 25 mil toneladas de CO2, em um mecanismo que permite reportar consumo de gás natural fóssil como molécula renovável. O projeto anunciado agora opera em outro registro: infraestrutura dedicada, combustível físico, contrato de doze anos. A distância entre comprar atributo ambiental e queimar biometano na caldeira é a distância entre contabilidade e engenharia.
O momento favorece a decisão. A ANP registra 21 plantas de biometano autorizadas para comercialização e capacidade instalada de cerca de 1,33 milhão de Nm³ por dia; com os 48 empreendimentos em processo de autorização, o total chegaria a 69 unidades e a cerca de 3,37 milhões de Nm³ por dia até 2028. A ABiogás estima potencial técnico de 120 milhões de m³ por dia, equivalente a 62% do consumo nacional de diesel. São Paulo puxa a expansão. A capacidade produtiva diária do estado saltou de 57 mil para 558 mil metros cúbicos entre 2022 e março de 2026, com quase metade concentrada na região de Campinas. A Lei do Combustível do Futuro e o Certificado de Garantia de Origem do Biometano criaram instrumentos negociáveis que atestam origem renovável e redução de emissões frente ao gás natural.
A certificação escolhida carrega função técnica precisa. O esquema RSB é reconhecido pela Comissão Europeia como prova de conformidade com a diretiva de energias renováveis do bloco, inclusive para combustíveis de biomassa e gasosos renováveis, e verifica proteção de áreas naturais raras, segurança alimentar, direitos a terra e água e condições de trabalho ao longo da cadeia. A exigência responde ao ponto mais opaco da bioenergia industrial brasileira, que é a origem do insumo sólido. O ambiente regulatório começa a se mover na mesma direção. Em junho, o governo de Mato Grosso firmou Termo de Compromisso Ambiental que estabelece cronograma para eliminar o consumo de biomassa nativa até 2034 e prevê regulamentar mecanismos de rastreabilidade. Nem a cervejaria nem a Veolia informaram quais plantas fornecerão o biometano, nem qual biomassa alimentará o sistema.
Lígia Camargo, diretora de Sustentabilidade do Grupo Heineken, deslocou a leitura do projeto para o consumidor. "Essa iniciativa vai além de uma melhoria operacional. Ela significa que os consumidores brasileiros poderão, cada vez mais, apreciar os produtos Heineken produzidos com energia renovável e uma menor pegada de carbono, mantendo a mesma qualidade, sabor e consistência que já conhecem e esperam do nosso portfólio."
José Renato Bruzadin, diretor executivo de desenvolvimento de negócios da Veolia, tratou do arranjo industrial. "Este projeto é um exemplo concreto de duas empresas unindo forças para liderar, por meio de ações, a descarbonização industrial e um modelo de redução de emissões de CO2 que prova que é possível combinar eficiência produtiva com desempenho sustentável."
A companhia compara as 67 mil toneladas evitadas até 2030 ao consumo anual de energia de cerca de 740 mil residências brasileiras. A entrada em operação será gradual, com plena capacidade em 2027.
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