Ciência e Tecnologia Destaques Economia e Negócios Educação Emergência Climática Meio Ambiente Oceano Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 15 de agosto de 2026
Semanas, e não séculos: Arya Satheesh, 18 anos, criadora do Eco Purge, plástico vegetal que se degrada em até duas semanas e libera enzimas contra microplásticos. Foto: Divulgação/The Earth Prize
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Arya Satheesh, 18 anos, moradora de Letterkenny, no condado de Donegal, na Irlanda, foi anunciada em 11 de maio como uma das sete vencedoras regionais do Earth Prize 2026, competição global para estudantes de 13 a 19 anos. O anúncio partiu de Genebra e coube à região Europa. Seu projeto se chama Eco Purge: um plástico de origem vegetal que, uma vez descartado, leva até duas semanas para se degradar e libera enzimas capazes de quebrar os microplásticos já presentes no solo e na água ao redor. O prêmio veio com US$ 12,5 mil.
Leia também: O perigo que não tem cor: contaminantes invisíveis e o novo risco da água no século XXI
Leia também: A roupa lava, mas o plástico fica: até 35% dos microplásticos do oceano vêm do que vestimos
A engenharia do material inverte a lógica usual dos bioplásticos. As enzimas ficam alojadas dentro da matriz vegetal e permanecem estáveis enquanto o produto está em uso. A liberação acontece de forma gradual, conforme o plástico se decompõe, o que permite atacar partículas já dispersas no solo ou na água. Para testar, Satheesh colocou uma quantidade determinada de microplástico junto com o Eco Purge em três ambientes distintos, solo, água salgada e água doce, e observou cada um deles por seis semanas. Ao fim do período, tanto os contaminantes quanto o próprio Eco Purge haviam se degradado.
O ponto de partida foi outro projeto. Há cerca de dois anos, no SciFest, o maior programa irlandês de feiras científicas de nível secundário, ela desenvolveu um monitor inteligente para detectar contaminantes em água potável. Foi ali que percebeu que detectar microplásticos apenas ilumina o problema. "Eu queria encontrar uma solução", diz. "Achei que não adianta ficar dizendo: ah, recicle, recicle." Ela lembra que microplásticos já foram encontrados em água potável e em leite materno.
O obstáculo não era conceitual, era logístico e financeiro. A enzima de que ela precisava tinha sido descoberta havia pouco, não circulava com facilidade e custava caro: cerca de três miligramas saíam por US$ 2,5 mil. Satheesh recorreu ao ChatGPT para montar uma lista de empresas que trabalhavam com o composto na Europa e nos Estados Unidos, com os respectivos e-mails, e escreveu para todas. Algumas ofereceram venda. Depois de várias recusas, quem respondeu foi Kevin O'Connor, diretor do BiOrbic, o centro nacional irlandês de pesquisa em bioeconomia. Ele importou dois tipos de enzima, da Dinamarca e da Alemanha, e as encaminhou à Atlantic Technological University, em Letterkenny, que se encarregou de armazená-las. O protótipo funcional saiu dessa articulação com a University College Dublin, a ATU Letterkenny e o BiOrbic. Em janeiro, ela apresentou a primeira versão do Eco Purge no Stripe Young Scientist & Technology Exhibition. Aquela era uma prova de conceito. A versão inscrita no Earth Prize já mirava um produto escalável.
O método de produção que ela pretende testar agora envolve modificar geneticamente uma bactéria para fabricar a enzima. Metade do prêmio vai para acompanhar o crescimento e a eficácia da E. coli modificada. Se a hipótese se confirmar, o restante do dinheiro banca a ampliação da produção.
A ciência que sustenta a ideia é sólida, e é também a origem das suas restrições. Charles Rolsky, diretor executivo e pesquisador sênior do Shaw Institute, no Maine, resume o mérito: a passagem da contenção passiva para uma solução ativa, que não pergunta apenas como um material se decompõe, mas como ele pode limpar o entorno enquanto isso acontece. Rolsky também aponta onde a coisa trava. Enzimas operam por encaixe específico, e uma enzima desenhada para um tipo de polímero não age sobre a mistura heterogênea que existe no ambiente. O Eco Purge tem como alvo plásticos derivados de PET. Em ambientes abertos, as enzimas liberadas tendem a se diluir no solo e na água, o que reduz o tempo de contato e a capacidade de atuar sobre partículas próximas. O uso realista, na avaliação dele, fica confinado a ambientes fechados, como usinas de compostagem, e não ao oceano. Há ainda a barreira industrial: o processamento convencional de plástico usa temperaturas altas, que destroem enzimas, e escalar a produção enzimática a nível comercial global sairia caro diante das margens estreitas do setor de embalagens.

A literatura confirma o diagnóstico. A empresa francesa Carbios, fundada em 2011, usa uma variante da cutinase de composto de folhas, a LCC-ICCG, para despolimerizar PET pré-tratado, e em 2023 operava com capacidade em torno de 250 quilos de plástico por dia. Uma variante engenheirada da LCC alcançou 90% de despolimerização de resíduo de PET pré-tratado em carga de sólidos industrialmente relevante, e a TurboPETase, redesenhada por métodos computacionais, chegou perto da despolimerização completa de garrafas pós-consumo. Esses resultados vêm a 65 °C, não à temperatura de um aterro. E a maior parte das hidrolases descritas rende bem sobre filmes amorfos ou de baixa cristalinidade, mas perde eficiência diante do PET altamente cristalino de garrafas e têxteis. A bactéria Ideonella sakaiensis, identificada em 2016, cresceu sobre filmes de PET com cerca de 1,9% de cristalinidade, muito abaixo dos 30% a 40% típicos do PET de garrafa.
No Brasil, a discussão chega por outra porta. O Decreto nº 12.688, de 21 de outubro de 2025, instituiu o sistema nacional de logística reversa de embalagens plásticas e fixou metas anuais crescentes até 2040 para dois indicadores: índice de recuperação e índice de conteúdo reciclado. A exigência de conteúdo reciclado pós-consumo entrou em vigor em janeiro de 2026 para empresas de grande porte, em 22%, e alcançou as menores em julho. As metas de recuperação partem de 32% neste ano rumo a 50% em 2040. O decreto não abre exceção para embalagens biodegradáveis ou compostáveis: como a legislação as classifica dentro do grupo dos plásticos, elas estão, em princípio, sujeitas à mesma meta de conteúdo reciclado. Um material desenhado para sumir em duas semanas não devolve resina ao sistema. E o país parte de uma base estreita: em 2024, o índice de reciclagem mecânica de embalagens plásticas pós-consumo ficou em 24,4%, e o índice geral, considerando todos os tipos de plástico, em 21%, segundo o levantamento anual da MaxiQuim encomendado pelo Movimento Plástico Transforma, do PICPlast.
A regulação internacional avança mais devagar que a bancada de laboratório. As negociações do Comitê Intergovernamental de Negociação para um instrumento juridicamente vinculante sobre poluição plástica foram suspensas em 15 de agosto de 2025, em Genebra, após dez dias de trabalho e sem consenso sobre o texto. Em fevereiro de 2026, o diplomata chileno Julio Cordano assumiu a presidência do comitê. O primeiro encontro presencial da nova etapa ocorreu em Nairóbi, entre 30 de junho e 3 de julho de 2026, sem produzir texto acordado. Uma segunda reunião informal de chefes de delegação está marcada para Bangcoc, de 27 a 30 de setembro, e a sessão formal decisiva, a INC-5.4, tem data definida entre 13 e 24 de março de 2027.
Enquanto os Estados travam, a resposta migrou para bancadas escolares. O Earth Prize, organizado pela Earth Foundation, com sede em Genebra, chega ao quinto ano tendo alcançado mais de 21 mil estudantes em 169 países e territórios e distribuído mais de US$ 500 mil. Em 2026, recebeu mais de 6 mil inscrições, selecionou 35 equipes e escolheu sete vencedoras regionais, cada uma com US$ 12,5 mil. Três dos sete projetos premiados atacam plástico. O título global, anunciado em 29 de maio e decidido por cerca de 23 mil votos do público, ficou com o Plas-Stick, de Vivaan Chhawchharia, Ariana Agarwal e Avyana Mehta, três indianos de 16 anos que desenvolveram um pó magnético biodegradável de semente de tamarindo capaz de aglomerar e retirar microplásticos da água. É a primeira vitória global da Índia na competição. A vaga da América Central e do Sul foi para o HADA, dos brasileiros Bernardo Renner e Ísis Valentin, curativos biodegradáveis feitos com babosa e camomila em substituição ao plástico.
Satheesh quer ver o Eco Purge em embalagens, sacos de compostagem e sacos de lixo dentro de cinco anos, e depois abrir a própria empresa de bioplásticos. Ela pretende cursar um doutorado em engenharia enzimática ou biotecnologia na próxima década e, nas semanas seguintes ao anúncio, tinha o Leaving Cert para prestar.
Nenhum ponto intocado: 2.315 amostras revelam 248 compostos humanos dissolvidos no oceano