Escrito por Neo Mondo | 7 de junho de 2022
Elas sofrem mais os efeitos das mudanças climáticas, embora os homens são quem mais emitem gases causadores do aquecimento global, mostram dados referentes à cidade de São Paulo
Um terço dos gases causadores das mudanças climáticas são provenientes do transporte particular em São Paulo. E dois terços dos que dirigem esses veículos são homens.
Esses números mostram que os homens usam disparadamente mais o transporte particular. Enquanto as mulheres – e as mais pobres – são as mais dependentes do transporte público. E o que isso tem a ver com emissões de gases de efeito estufa e de poluentes do ar? Tudo. De acordo com dados do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), do Inventário de Emissões Atmosféricas do Transporte Rodoviário de Passageiros no Município de São Paulo, a poluição gerada por carros é muito maior do que em relação aos ônibus: são responsáveis por 70% de GEE emitidos na cidade, considerando apenas o transporte de passageiros. Ou seja, tendo em conta apenas o transporte de passageiros, um terço dos gases causadores das mudanças climáticas são provenientes do transporte particular em São Paulo. E dois terços dos que dirigem esses veículos são homens. Ao mesmo tempo em que eles enchem as vias com metros quadrados de carros, as mulheres se submetem a um transporte público nem sempre de boa qualidade, muitas vezes lotado e ainda por cima são as que mais morrem devido aos eventos climáticos extremos decorrentes das mudanças climáticas. Estas agravadas pelas emissões de GEE das atividades humanas – como do trânsito citado. Por exemplo, 60,6% das vítimas eram mulheres no temporal que atingiu Petrópolis (RJ) em fevereiro deste ano, uma tragédia recorrente nos meses chuvosos do verão no Sudeste e, agora, acontecendo em Recife (Pernambuco). Que procuraram se e proteger seus entes e amigos queridos. É revoltante. Isso sem entrar na questão de renda e de cor de pele. Segundo dados do IBGE (2014), 76% dos mais pobres no Brasil são negros – vale lembrar que mais da metade dos brasileiros se declaram pretos. As mulheres negras são as que menos emitem GEE por meio do transporte, mas elas estão entre as marginalizadas que mais sofrem suas consequências. Para piorar essa situação, além de serem atingidas de maneira “indireta” pelos fenômenos naturais devido aos efeitos das mudanças climáticas, as mulheres e as pessoas com menor renda sofrem mais os efeitos da poluição do ar em sua saúde devido à exposição a ela. Conforme os dados do Metrô, quanto menor a renda, mais tempo a pessoa passa dentro do transporte público. A média é de mais de uma hora por deslocamento, isto é, uma hora de ida ao trabalho mais uma de volta. Os números mostram também que, quanto mais pobre, mais tempo a pessoa permanece no trânsito. As viagens feitas por carros e motos, por exemplo, levam a menor parte desse tempo.O planejamento do transporte urbano e público deve incluir essas características. É justo quem emite menos gases de efeito estufa sofrer mais com suas consequências? Não é para ninguém.
A recente análise do IEMA “Qualidade do ar no município de São Paulo” mostrou claramente que as vias de maior tráfego da cidade, como a Marginal Tietê, têm a predominância no ar de alguns poluentes (como o material particulado emitido pelos veículos) até quatro vezes o recomendado como seguro para saúde pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Quanto mais tempo se respira esse ar, quanto mais tempo no trânsito, mais chances de sofrer com as consequências de doenças respiratórias e cardiológicas. As eleições estão chegando. A maior parte da população brasileira vive em áreas urbanas – e com ar poluído. As políticas devem considerar especificamente que os problemas atingem mulheres pobres, pretas e indígenas de maneira mais intensa. O planejamento do transporte urbano e público deve incluir essas características. É justo quem emite menos gases de efeito estufa sofrer mais com suas consequências? Não é para ninguém. A ideia sequer seria demonizar o transporte público tão essencial para a vida das pessoas. Para o acesso à cidade. Ao contrário, o objetivo seria investir em sua qualidade para a melhora da qualidade de vida da população mais pobre – e das mulheres – das cidades. Certa vez, conversando com um médico, ele me disse: “Adoro andar de transporte público na Europa, caminhar nas ruas”. “E, aqui, em São Paulo?”, indaguei. Ele sorriu. “Aqui é mais confortável o carro.” Deveria ser o contrário. [caption id="attachment_36832" align="aligncenter" width="768"]
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