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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 17 de agosto de 2026
Água na pele, água na fórmula, água na fábrica. A rotina de beleza consome muito mais do que a que sai do chuveiro - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
Da formulação de um shampoo à limpeza dos tanques industriais, a água atravessa a indústria cosmética muito antes de chegar à torneira do seu banheiro
A maior parte da água envolvida na sua rotina de beleza nunca passa pelo seu chuveiro. Ela está na formulação do shampoo, na limpeza dos tanques onde esse produto foi fabricado, na higienização das linhas industriais entre um lote e outro. Quando o frasco chega ao banheiro, boa parte da conta já foi paga.
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O inverno torna essa conta mais visível. Em grande parte do Brasil, sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste, a estação concentra o período de menor volume de chuvas e de umidade relativa mais baixa. Em São Paulo, acompanhar o nível dos reservatórios durante a seca virou rotina de gestão pública. E é justamente aí que vale olhar para um lugar improvável quando se fala em consumo de água: o banheiro.
Quando pegamos um shampoo, um condicionador, uma máscara capilar ou um hidratante, enxergamos apenas o produto pronto. Não enxergamos a cadeia que o tornou possível. Dependendo da formulação e do processo produtivo, a água participa de várias etapas da fabricação, da composição do produto à limpeza de equipamentos e instalações. Por isso, falar em sustentabilidade na indústria da beleza exige ampliar o olhar. Uma embalagem reciclável conta. Um refil também, assim como uma matéria-prima de menor pegada ambiental ou uma fórmula desenhada para gerar menos resíduo. Mas esses atributos são partes de uma história maior. Para entender o que um cosmético custa ao ambiente, é preciso considerar o ciclo de vida inteiro: origem das matérias-primas, produção, consumo de energia e água, embalagem, transporte, uso e descarte. A pergunta deixa de ser apenas "essa embalagem é sustentável?" e passa a ser também: quanta água foi necessária para esse produto chegar até o meu banheiro?
Talvez nenhum outro ritual torne essa relação tão perceptível quanto o cuidado com os cabelos. Pense em uma lavagem convencional: molhar os fios, aplicar shampoo, enxaguar, passar condicionador, enxaguar de novo. Com uma máscara de tratamento, o processo ganha mais uma aplicação e mais um enxágue. Repetido várias vezes por semana, o consumo de água associado ao cuidado capilar deixa de ser uma abstração e vira hábito.
Isso não significa reduzir indiscriminadamente a frequência de lavagem. Como dermatologista, preciso ser clara neste ponto: a higiene adequada faz parte da saúde do couro cabeludo e dos fios, e a frequência ideal varia conforme oleosidade, tipo de cabelo, prática de atividade física, presença de doenças do couro cabeludo e rotina de cada pessoa. Não existe número universal. A questão é outra. Podemos cuidar bem da nossa saúde e, ao mesmo tempo, prestar atenção em como consumimos água durante esse cuidado. Fechar a torneira enquanto ensaboamos os cabelos, encurtar banhos longos e evitar desperdício são atitudes simples que, multiplicadas por milhões de pessoas, mudam de escala.
Existe ainda uma coincidência útil entre sustentabilidade e dermatologia. No inverno, a baixa umidade relativa do ar favorece o ressecamento da pele, e banhos muito quentes e prolongados removem lipídios da superfície cutânea, comprometendo a função de barreira. Reduzir o tempo do banho e baixar a temperatura da água, portanto, não é só uma escolha ambiental. É também uma medida de cuidado com a própria pele. A recomendação não é "usar menos água" e sim usar a água com mais critério, preservando ao mesmo tempo a higiene e a integridade da barreira cutânea.
A transformação, porém, não depende só de escolhas individuais. A indústria cosmética vem testando caminhos para reduzir o consumo, e é daí que vêm conceitos como waterless beauty, produtos concentrados, fórmulas anidras, cosméticos sólidos e itens que exigem menos água durante o uso. A lógica é direta. Uma fórmula concentrada reduz o volume transportado. Um produto sem água na composição diminui a quantidade de água incorporada à formulação. Um cosmético que não precisa ser enxaguado corta consumo no momento do uso. Sistemas de refil reduzem embalagens descartadas.
Há uma ressalva importante nessa conversa, e ela costuma ser esquecida: um produto sem água não é automaticamente sustentável. De onde vêm seus ingredientes? Como são produzidos? Quanta energia a fabricação exigiu? O que acontece com a embalagem? Como o produto chega até a loja? E depois do descarte? Sustentabilidade não é um atributo isolado estampado no rótulo. É o resultado de uma série de decisões tomadas ao longo de toda a cadeia.
Há também uma dimensão pouco discutida: o que acontece depois que o produto deixa a pele ou os cabelos. Shampoos, condicionadores, sabonetes e máscaras enxaguáveis seguem para o sistema de águas residuais. A discussão sobre sustentabilidade envolve, portanto, quais ingredientes esses produtos carregam, como essas substâncias se comportam no ambiente e para onde vão depois do enxágue. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente chama atenção para a presença de plásticos e outros materiais em produtos de cuidados pessoais que alcançam sistemas aquáticos após o uso. O ralo não é o fim da história. O que some dos nossos olhos continua circulando em um sistema muito maior.
Durante décadas, a indústria da beleza associou cuidado à quantidade: mais produtos, mais etapas, mais ativos, mais lançamentos. A próxima transformação do setor talvez esteja em questionar essa lógica. Não se trata de abandonar o skincare, abrir mão dos cuidados com os cabelos ou converter sustentabilidade em uma lista de proibições. Trata-se de escolher melhor, entendendo que eficácia e responsabilidade ambiental convivem sem conflito. Um produto concentrado, uma fórmula multifuncional, um sistema de refil, uma opção que pede menos água no uso. Antes de acrescentar mais um frasco à prateleira, cabe uma pergunta simples: ele substitui algum outro que já está lá?
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

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