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Escrito por Neo Mondo | 29 de julho de 2026
Rios atmosféricos. O Criosfera 1 é a primeira estação científica brasileira remota e autônoma instalada no interior da Antártica, onde pesquisadores monitoram continuamente as mudanças no clima polar Foto: Centro Polar e Climático/UFRGS.
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO
No inverno antártico, quando a lógica climática sugeriria estabilidade absoluta sobre o continente mais frio da Terra, corredores estreitos de vapor d'água atravessam milhares de quilômetros desde as regiões tropicais e descarregam calor sobre uma paisagem construída para permanecer congelada. São estruturas atmosféricas invisíveis a olho nu, mas capazes de reorganizar o balanço energético da Antártica em questão de dias. O que antes era tratado como episódios meteorológicos relativamente raros passa agora a ocupar uma posição central na compreensão do degelo antártico. A fronteira entre os trópicos e os polos tornou-se mais permeável do que os modelos climáticos imaginavam.
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Essa é a leitura apresentada pelo pesquisador Heitor Evangelista da Silva, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada na Universidade Federal Fluminense. À frente do laboratório Criosfera 1 — a estação científica remota brasileira instalada no interior da Antártica desde 2012 —, Silva mostrou evidências de que aproximadamente 90% da umidade transportada dos trópicos para as regiões polares chega por meio dos chamados rios atmosféricos. Mais do que isso, os registros do laboratório indicam que essas correntes respondem hoje por quase 80% das ondas de calor observadas no centro do continente, uma transformação expressiva em relação às primeiras séries de monitoramento, quando essa participação girava em torno de 25%.
O dado altera a forma de interpretar a dinâmica antártica. Durante décadas, a atenção concentrou-se principalmente no aquecimento do oceano e na circulação das águas profundas como motores do enfraquecimento das plataformas de gelo. Esses processos permanecem centrais. Mas cresce a compreensão de que a atmosfera também exerce um papel determinante, funcionando como uma esteira de transporte de energia capaz de modificar rapidamente condições que permaneceram relativamente estáveis durante milhares de anos.
Os rios atmosféricos não são fenômenos novos. Eles fazem parte do ciclo hidrológico terrestre e transportam enormes volumes de vapor d'água em faixas estreitas da atmosfera. Em latitudes médias, costumam estar associados a episódios de chuva intensa, como aqueles observados regularmente na costa oeste da América do Norte ou no sul da América do Sul. O que a literatura científica vem demonstrando é que esses sistemas alcançam também a Antártica, carregando calor suficiente para produzir eventos extremos de temperatura, alterar padrões de precipitação, favorecer episódios de derretimento superficial e modificar o balanço de massa do continente. Revisão publicada em Nature Reviews Earth & Environment mostra que esses corredores representam um dos principais mecanismos de transporte de calor para a Antártica e já estiveram associados tanto a grandes episódios de neve quanto ao colapso de plataformas de gelo como Larsen A e Larsen B.
O episódio ocorrido em março de 2022 permanece como um dos exemplos mais eloquentes dessa transformação. Na estação franco-italiana Concórdia, localizada no interior da Antártica Oriental, a temperatura ficou cerca de 43 °C acima do esperado para aquele período do ano. Não significou calor em termos absolutos, mas representou uma anomalia sem precedentes na história observacional do continente. Estudos publicados em Communications Earth & Environment demonstram que esse evento foi intensificado por mecanismos de retroalimentação envolvendo nuvens e vapor d'água, ampliando ainda mais o aquecimento provocado pelo rio atmosférico que atingiu a região.
No caso brasileiro, a relevância dessa discussão vai muito além da Antártica. O continente funciona como um dos grandes reguladores do sistema climático global. Alterações persistentes em sua cobertura de gelo repercutem sobre a circulação oceânica, sobre o armazenamento de água doce e, sobretudo, sobre o nível médio dos oceanos.
Silva chama atenção para um dos pontos mais sensíveis dessa engrenagem: a Antártica Ocidental. Ali estão geleiras como Thwaites e Pine Island, frequentemente descritas pelos glaciologistas como elementos de sustentação do gelo continental. O desgaste dessas plataformas ocorre tanto pela ação do oceano, que corrói sua base, quanto pela chegada de massas de ar quente e úmido associadas aos rios atmosféricos. O receio da comunidade científica não está apenas na perda localizada dessas geleiras, mas na possibilidade de desencadear um processo de instabilidade capaz de mobilizar enormes volumes de gelo do interior do continente. Segundo estimativas amplamente utilizadas na literatura, apenas o colapso da geleira Thwaites teria potencial para elevar o nível médio global do mar em aproximadamente 65 centímetros, valor que aumenta quando sistemas vizinhos passam a responder conjuntamente.
Há outro mecanismo silencioso em funcionamento. À medida que o gelo marinho diminui, reduz-se também o albedo da superfície antártica — a capacidade de refletir a radiação solar de volta ao espaço. O oceano escuro absorve mais energia do que o gelo branco. Essa energia adicional alimenta novo aquecimento, que favorece mais degelo, expondo ainda mais água aberta. Forma-se um ciclo de retroalimentação que diversos pesquisadores já descrevem como o início de uma possível Amplificação Antártica, fenômeno análogo ao que há décadas transforma o Ártico no ambiente que mais aquece no planeta.
Nos últimos dois anos, a literatura científica também passou a refinar a forma de detectar esses rios atmosféricos. Pesquisadores europeus desenvolveram novos métodos capazes de acompanhar corredores de umidade mesmo quando eles se curvam, atravessam o Polo Sul ou se fragmentam em estruturas menores. Os resultados mostram que esses sistemas explicam cerca de 60% das maiores anomalias de temperatura máxima diária e aproximadamente 80% dos eventos simultâneos de aquecimento e precipitação extrema registrados na Antártica, sugerindo que sua influência era sistematicamente subestimada pelos algoritmos anteriores.
Outra frente de pesquisa reforça a conexão entre os trópicos e o continente gelado. Trabalhos recentes identificam que episódios intensos de convecção sobre o Pacífico tropical podem reorganizar ondas atmosféricas planetárias que, dias depois, estabelecem corredores de transporte de vapor em direção à Antártica. Essa teleconexão ajuda a explicar por que alterações ocorridas em baixas latitudes acabam repercutindo milhares de quilômetros ao sul, revelando um sistema climático muito mais integrado do que sugerem as fronteiras geográficas.

O Brasil ocupa uma posição singular nessa história. O país mantém uma das poucas estruturas permanentes de observação no interior profundo da Antártica. O Criosfera 1, instalado a 84° de latitude sul, fornece medições em uma região onde praticamente não existem estações automáticas de outros países. Esses registros alimentam bancos internacionais de dados e ajudam a corrigir reanálises climáticas globais, como o ERA5, que ainda apresentam limitações para reproduzir extremos térmicos sobre o continente. O próximo passo da missão brasileira inclui transmissão em tempo real via satélite, ampliação do monitoramento de aerossóis, gases de efeito estufa e neve acumulada, além da instalação do primeiro telescópio brasileiro em solo antártico.
Para quem observa o litoral brasileiro, a Antártica costuma parecer uma geografia distante. A física do sistema terrestre conta outra história. O vapor que hoje cruza oceanos para aquecer o continente gelado não permanece restrito ao extremo sul do planeta. Ele participa de um rearranjo climático cuja escala é global. Se as geleiras que sustentam a estabilidade da Antártica Ocidental perderem sua capacidade de conter o gelo continental, a elevação do nível do mar deixará de ser uma projeção abstrata para se tornar um fator permanente de reorganização das cidades costeiras. Em um país cuja população, infraestrutura portuária e atividade econômica se concentram ao longo do Atlântico, compreender os rios atmosféricos deixou de ser apenas um exercício de climatologia polar. Tornou-se uma forma de interpretar o futuro da própria costa brasileira.
*Com informações da Agência Fapesp.
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