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“Haja o que houver”

Escrito por Daniel Medeiros | 2 de março de 2026

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Haja o que houver, há presenças que nos encontram no instante mais essencial da vida — quando já não precisamos de palavras, apenas de reconhecimento - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS

Um amigo contou-me sobre o seu último encontro com o avô, internado há uma semana com um câncer metastático e irreversível, e , sem querer prolongar a dor ( insuportável) que vinha sentindo, estava sob cuidados paliativos, sedado e com a retirada dos antibióticos e outros suportes para mante-lo vivo. Os amigos, parentes, conhecidos do trabalho passaram pelo hospital para dar um último adeus. O velho de 81 anos, o corpo já translúcido , mexia os olhos e arqueava levemente a mão ao ouvir as palavras dos visitantes. A rotina durou uns quarenta minutos, dois visitantes de cada vez, embora um descuido da enfermeira em regular o entra e sai acabou gerando um começo de balbúrdia no pequeno quarto onde o idoso expirava. Nesse momento entra a sobrinha do senhor, uma jovem temporã da irmã mais nova e que tratava o tio como avô, enchendo-o de mimos e cuidados, coisa que meu amigo, neto legítimo, confessou-me não fazer, atribulado pelos afazeres do dia a dia, sem tempo nem para os próprios filhos e esposa. Mas ele estava lá no momento em que a sobrinha entrou e falou com o moribundo e meu amigo testemunhou uma transformação incrível no seu rosto. As cores de sua face retornaram e seus olhos se abriram , súbitos, ávidos, em busca da imagem da jovenzita. Ela fez um trejeito com a mão, à guisa de “oi”, e o velho, desajeitado, repetiu o gesto como quem garatuja um folha em branco. Ela encostou o rosto em seu ouvido e disse-lhe algo brevemente, depois beijou-lhe a testa , repetiu o gesto com a mão e saiu do quarto, visivelmente emocionada, evitando que ele presenciasse sua tristeza. O velho permaneceu com os olhos abertos mais um momento e depois, lentamente , seus lábios se comprimiram e esboçaram um beijo, que ficou ali, congelado, por alguns segundos. Então seu rosto se desencarnou mais uma vez e retomou a forma cadavérica. Na manhã seguinte ele faleceu.

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Meu amigo contou-me essa história sem drama ou inveja, mas curioso. O que ela disse a ele? Em meio a tantas pessoas, por que ele reagiu a ela e só a ela desta maneira?

Ensaiei uma explicação, mais para tirar o assunto da cabeça de meu amigo do que para, de fato, desvendar o mistério que , evidentemente, ninguém decifrará. Disse-lhe, primeiro, que a nossa natureza é opaca e que a cultura ocidental é que tem a mania de definir papeis para cada um de nós. O espaço público ( hoje quase a transparência total das redes sociais) exige que tenhamos uma persona reconhecível, identificável, e somos nomeados por ela. Ignoramos a complexidade e o caráter inacabado de nossa existência e a soldão inevitável que isso acarreta. Por isso, quando encontramos alguém que consegue enxergar-nos nessa nossa incompletude e opacidade, é como se esse olhar nos re-atualizasse, numa espécie de reconhecimento facial ou biométrico de nós mesmos. Pois só somos capazes de aferir nossa existência pelo olhar do outro. É esse olhar que nos faz existir, isto é, aparecer/tornar-se visível, marcar nossa presença no mundo. O drama contemporâneo reside aí: a maioria das pessoas não busca o Outro no outro, contentando-se com a imagem de sua persona pública. Como em um baile de máscaras, falamos, flertamos, dançamos, mas saímos da festa sem saber com quem de fato nos relacionamos. A menina, seja por ingenuidade ou por perspicácia, dedicou um tempo para conhecer o tio e permitir que ele se expusesse para ela, sem medo e sem vaidade. Como na música da cantora portuguesa Teresa Salgueiro, que diz: “Eu sei quem és pra mim. Haja o que houver, estou aqui”.

Ela estava. Por ele. Ele reconheceu-se na presença dela. E sua vida, nessa graça alcançada, atingiu a plenitude necessária.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo haja o que houver
Daniel Medeiros, autor do artigo "Haja o que houver" - Foto: Divulgação

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