COLUNISTAS Destaques Saúde Segurança Sustentabilidade

A insuficiência das palavras

Escrito por Daniel Medeiros | 23 de fevereiro de 2026

Compartilhe:

Palavras que tentam nos traduzir — mas que, muitas vezes, deixam escapar o que o silêncio ainda insiste em sentir - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS

Nossos sentimentos são os registros mentais das mensagens emocionais que nosso corpo envia diante dos afetos do mundo. Ou seja: como estamos no mundo mas não somos o mundo, é apenas quando nosso corpo é afetado pelo mundo que , literalmente, fazemos contato com ele. Seja pela audição, visão, pelo tato, enfim, os corpos só podem sentir a si mesmos sentindo o mundo, como lembra a psicanalista Vera Iaconelli. Esse contato pode ser confortável ou assustador e nosso corpo reage a ele mandando esses relatos dos afetos para o cérebro, que os recebe na forma de imagens e então registra-os. Essa é a base da nossa consciência sobre nós mesmos e sobre o mundo a nossa volta. E também de tudo o que escapa a ela, ou seja, nosso inconsciente.

Leia também: América

Leia também: O eclipse do real

O psicanalista Jacques Lacan afirma que o inconsciente se estrutura como linguagem. E também se manifesta assim , por meio de representações ( o simbólico). Nossos desejos, por exemplo, não são a resposta de uma necessidade e nem uma demanda, mas exatamente o que escapa em meio a essas duas coisas. É uma falta que é um efeito da linguagem e da cultura. Somos impulsionados por essas faltas, resultado do encaixe inadequado entre o que sentimos, registramos e manifestamos.

Por isso, nosso lugar no mundo é sempre o do desencontro. Para que nos acostumemos a algo, precisamos aprender a desistir, abandonar. O desejo e a satisfação que dele decorre não é resultado de algo que se consegue, mas justamente do que escapa. O que alimenta nossa vontade é esse “quero mais”, esse vazio que sempre resta de uma conquista. Uma aquisição material, uma realização profissional, uma conquista amorosa, tudo é entusiasmo no primeiro momento, mas não perdura, porque o desejo não se satisfaz com o que se torna pleno. O êxtase é o que nos deixa sem palavras. Quando encontramos essas palavras e normalizamos a experiência, bom, ela deixa de ser experiência e já não é mais tão espetacular estar entre ela, ou seja, termos inter-esse.

Por isso Freud disse que não nos foi dado a condição de sermos felizes, mas de termos momentos de felicidade. A continuidade só é possível com a abdicação desses momentos de êxtase. Daí os compartilhamentos de longa data sobreviverem quando se troca paixão por companheirismo, camaradagem. E uma ou outra centelha de paixão, alimentada por uma viagem ou por uma ocasião especialmente programada. Porque ninguém é de ferro.

As palavras são o veículo dessa tentativa de traduzir o mundo. Elas descrevem coisas fáticas com muita qualidade. Mas perdem parte da eficácia quando envolvem esse não-sei-o- quê que se sente pelo outro que me afeta, seja pela dor ou pelo prazer. A arte é a tentativa de preencher essa lacuna das narrativas. Daí a poesia. Ou a música, a pintura, o cinema. “A arte existe porque a vida não basta, é muito curta”, disse o poeta , ensaísta e pintor Ferreira Gullar. Não bastam as noites estreladas que existem e que existirão. Por isso o artista, como Van Gogh, por exemplo, retratou a noite estrelada que só existiu para ele. E que nos esforçamos para enxergar quando admiramos a obra, seja quem teve a sorte de vê-la no museu de arte moderna de Nova Iorque ou nas milhares e milhares de reproduções que existem por aí. Van Gogh pinta a noite que vê da janela do sanatório no qual estava internado. O que pensava ele? No que pensava? O que realmente retratou? Que luzes brilhantes são aquelas: as que as estrelas emanavam ou que sua mente enxergava, em meio aos seus delírios e fantasias de fim de vida?

O mesmo acontece quando falamos para alguém ou escrevemos. O que de fato queremos dizer com o que dizemos? Será possível que nos compreendam na totalidade de nossas intenções? O que é preciso para que possamos conviver com um mínimo de compreensão mútua?

Reside nesta breve reflexão sobre os limites de nossa interação com o mundo e com os outros no mundo um desafio ético fundamental para os nossos tempos. Sem esforço, sem atenção, sem uma preocupação permanente, seremos muitos em um mesmo lugar, mas dificilmente seremos um grupo. Porque já é difícil a comunicação. Se não fizermos questão de tentar ultrapassar essas barreiras, desvalorizando as melhores ferramentas que temos a nossa disposição (como a arte), e se acharmos que podemos, mesmo assim, ter amigos, companheiros, filhos, representantes políticos, mas vivendo dentro da bolha cada vez mais diminuta de nosso narcisismo cego e mudo do dia a dia, estamos realmente muito enganados. Seremos como formigas desprovidas de antenas. Ou, como diz o dito popular, referindo-se a um inseto menos simpático: baratas tontas. Uma legião delas.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo A insuficiência das palavras.
Daniel Medeiros, autor do artigo A insuficiência das palavras - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável

A beleza que cabe numa mão

Bioativos da floresta: ciência, pele e soberania brasileira


Artigos relacionados