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Escrito por Daniel Medeiros | 16 de fevereiro de 2026
América em peças que se encaixam: reconhecer nossa pluralidade é o primeiro passo para reconstruir o respeito no continente - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
Vêm fazendo sucesso na internet os vídeos de um rapaz que apresenta para jovens estadunidenses o mapa da América e pergunta se eles sabem quantos países a América tem. A resposta, quase sempre, é a mesma: "um só". Daí ele pede para eles repararem no mapa e explica que todos aqueles países fazem parte da América: trinta e cinco. Três na América do Norte; vinte na América Central e doze na América do Sul. A maioria dos jovens ficou perplexa com a informação que deveriam saber, se as escolas estadunidenses ensinassem esse tipo de Geografia ou se eles prestassem a devida atenção no que ocorre à volta deles.
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O filósofo sul coreano Byung-Chul Han, particularmente no livro "No Enxame", explica que, etimologicamente, a palavra respeito vem do latim respectus, que significa "olhar para trás" ou "olhar de novo” ou ainda “olhar em volta”. E para que haja respeito é necessário a existência de uma distância entre as pessoas, mas, ao mesmo tempo, que haja um reconhecimento da sua existência. Olhar em volta. Esse é o sentido, aliás, do seu livro se chamar “No Enxame” pois quando o respeito se dissolve no "enxame" digital , onde todos falam ao mesmo tempo, sem hierarquia ou escuta real, sem que ninguém esteja verdadeiramente reconhecendo ninguém, a própria estrutura da pólis, (do demos) fica abalada, pois a conversa pública exige a consideração mútua que só o respeito permite.
No último Super Bowl, o cantor porto riquenho Benito Antonio Martinez Ocasio, conhecido como Bad Bunny , realizou uma proeza de simplicidade e significado: mostrou, didaticamente, quais são os países que compõem a América. E disse: "Juntos, somos a América”.
A apresentação gerou uma reação enfurecida do presidente dos EUA, que classificou o show como “repugnante" e “uma afronta à grandeza da América”. Possivelmente, Donald Trump também ficaria perplexo diante do mapa da América, assim como os estudantes do vídeo engraçado da internet.
Podemos dizer que a falta de respeito da atual política oficial dos EUA provém exatamente dessa incapacidade ou falta de disposição de “olhar em volta” e perceber que , nesse continente, somos todos americanos e que o território dos EUA é, possivelmente, o mais multicultural do planeta. Aliás, uma apresentadora da televisão estadunidense ficou indignada de o cantor expressar-se em espanhol: “há apenas 40 milhões de pessoas que falam espanhol nos EUA. E o resto dos americanos que não entendem nada de espanhol, o que puderam fazer? disse, indignada.” Bom, no continente americano, mais de 500 milhões de pessoas falam espanhol. E o super Bowl, assim como a transmissão do Oscar, é uma festa mundial. ‘Era só assistir de novo e ler as legendas, não?
Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio, conta, no seu livro “Nós dizemos não”, a história do elefante. Diz ele: “quando eu era criança , minha avó me contou a fábula dos cegos e o elefante.Três cegos estavam diante do elefante. Um deles apalpou a cauda do animal e disse: “é uma corda”. Outro acariciou uma pata do elefante e opinou: “é uma coluna”. O terceiro apoiou a mão no corpo do elefante e adivinhou: “é uma parede”.
E Eduardo Galeano conclui : “assim estamos, cegos de nós, cegos do mundo. Desde que nascemos, somos treinados para não ver mais que pedacinhos. A cultura dominante, cultura do desvinculo, quebra a história passada como quebra a realidade presente; e proíbe que o quebra-cabeças seja armado.”
Bad Bunny fez isso com a Geografia: mostrou para o mundo o quebra cabeças montado. “Essa é a América”. “Deus a abençoe”.
Muito bom esse Bunny. Muito bom.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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