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Escrito por Daniel Medeiros | 23 de outubro de 2026
Razões que começam no portão da escola, onde a geração que ficou do lado de fora hoje leva a neta para dentro - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Porque eu cresci acreditando que somos um país plural e que todos podem sonhar em ser diferentes sem ter medo dessa diferença. Não somos um país de brancos ou de pretos, mas de brancos e pretos, mulatos, sararás, cafusos, amarelos, morenos, polacos e quem mais quiser participar. Defender esse sonho de país requer um governo tolerante e aberto ao diálogo, e não um governo que emula gestos e frases de experiências eugenistas do passado.
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Porque minha mãe não pôde continuar estudando: minha avó não tinha dinheiro para comprar o uniforme da escola. Nos poucos anos em que frequentou a escola pública, ela passava o recreio no portão, olhando a rua para não ver as outras meninas e os outros meninos comendo seus lanches saborosos. Defender escola para todos, com uniforme, material escolar, transporte e merenda de qualidade, para que ninguém mais passe pela tristeza de minha mãe, requer um governo que tenha a educação como prioridade absoluta, e não um governo que trata os professores como “doutrinadores” e a universidade pública como um “antro de comunistas e maconheiros”.
Porque já fui assaltado, já sofri sequestro-relâmpago, mas, mesmo assim, não alimento nenhuma sanha de extermínio ou de vingança sistemática contra pobres e periféricos. Quero, sem dúvida, uma segurança pública mais eficaz e rápida. Para isso, é preciso aperfeiçoar a lei e aprovar a PEC que amplia os poderes do governo federal sobre uma atribuição que a Constituição reserva aos governos estaduais. Quero polícia bem remunerada, bem treinada e, principalmente, orientada a defender os cidadãos independentemente de cor, gênero e endereço. Quero uma Justiça que puna e ressocialize, que siga a lei e reprima o crime, mas que não estigmatize o pobre e o preto como criminosos antes mesmo que qualquer delito ocorra.
Porque amo a cultura, o cinema, a literatura, a boa música, e a cultura precisa de incentivo e de proteção, precisa de cultivo e de cuidado. Precisa de sensibilidade e de respeito. Como lembrou Jair Bolsonaro, com o deboche de sempre, a última medida da presidente Dilma foi incluir a dança no currículo da educação básica. Essa é a diferença que eu procuro: um governo capaz de entender que é preciso expor crianças e jovens à cultura, de forma intensa e permanente. Só assim teremos um mundo mais gentil e bonito.
Porque vejo riqueza não no acúmulo de bens nem na ostentação de carros e bolsas de grife, imóveis e viagens extravagantes. Vejo riqueza quando há saúde, boas escolas, meio ambiente preservado e saneamento básico. Isso requer um governo capaz de cobrar de quem pode e oferecer a quem precisa. Porque a democracia é o regime mais apto a promover a equidade. E a equidade é a grande pendência deste país marcado pelo fantasma da escravidão.
Porque o Brasil vem envelhecendo, e é preciso haver políticas públicas que cuidem dos idosos e dos doentes e, entre estes, garantam cuidados de fim de vida. Isso requer um governo atento ao bem-estar das pessoas que já não podem produzir, mas que ainda ostentam a chancela de gente. Em 2024, o governo Lula instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos. Em 2026, sancionou o Estatuto dos Direitos do Paciente. Quero a continuidade dessas políticas.
Porque os jovens precisam de alternativas ao terrível chamado do crime e da droga. E a saída é a escola e o esporte. A saída é o respeito da sociedade e a oportunidade, desde cedo, de uma vida profissional digna e satisfatória. Isso requer um governo que não veja os jovens como marginais, e sim como esperança, e que ofereça escola técnica, primeiro emprego, o programa Pé-de-Meia. Essas não são somente políticas, mas um discurso de fé: o crime não é natureza, e sim uma triste contingência, e a resposta a ele não é apenas a repressão, mas a oferta de oportunidades. O futuro não é fado. É uma construção de todos.
Porque a religião é um direito básico de qualquer cidadão, mas não pode ser régua de políticas públicas. O Estado laico precisa assumir sem adiamento a discussão de temas delicados, como a educação sexual nas escolas, o respeito à diversidade de gênero e o debate franco e amplo sobre a descriminalização do aborto, a eutanásia e a morte assistida. Isso requer um governo republicano e aberto, independentemente das posições pessoais de quem governa, capaz de pautar esses temas e de ouvir especialistas, pessoas diretamente envolvidas e a população como um todo. Só assim as políticas de direitos deixam de ser resultado da vontade da maioria e passam a ser garantia para todos e para cada um.
Porque o Brasil é um país historicamente desigual e injusto, e combater essa chaga profunda requer um governo capaz de priorizar a distribuição de renda no Orçamento, de maneira clara e robusta. O país precisa de investimentos e de um ambiente atraente para os negócios, ninguém discute isso. Mas a riqueza que se acomoda a conviver com a pobreza e a injustiça não é saudável. O caminho para reduzir a desigualdade passa por uma política tributária voltada para a equidade, e não para a leniência com quem já tem tanto e ainda recebe isenção de impostos para o seu jet ski.
Porque, enfim, eu não precisaria me preocupar com o que não me afeta diretamente, mas a memória do Brasil pobre da minha infância, e da infância ainda mais pobre de minha mãe, é um alerta permanente, um grilo falante insistente a me lembrar que o país só avançou quando teve coragem de escolher governos progressistas, que se importaram com as pessoas que construíram este país, mas nunca foram reconhecidas em seu valor, sua cor, sua origem, sua dignidade. Se hoje tenho uma vida confortável, pago impostos, tenho bens e viajo, é porque tive oportunidades decisivas, como universidade pública, biblioteca pública, saúde pública, cultura patrocinada por programas federais e direitos trabalhistas, além da grande sorte e da alegria de estar cercado de pessoas que nunca me julgaram por origem, religião, sotaque ou opções, mas viram em mim um ser humano capaz de ser feliz. É isso que eu quero para meus filhos, meus amigos e para as pessoas que vejo nas ruas, na televisão, pessoas como eu, com seus perrengues, suas aflições, seus anseios, seus projetos, suas promessas, seus desejos, sonhos e vontades de ser a versão mais bonita e querida que forem capazes de produzir.
E tudo isso requer um governo capaz de entender que gente é feita pra brilhar.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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