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Escrito por Neo Mondo | 26 de março de 2026
Abelhas do gênero Habralictus obscuratus em prancha morfológica: os quatro ângulos que transformaram um inseto sem nome em espécie científica. Imagem: European Journal of Taxonomy, 2025 - Foto:Eur. J. Taxon./Reprodução
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Uma graduanda da UFPR descreveu quatro espécies novas de abelhas silvestres da Mata Atlântica — e expôs a fissura estrutural entre a biodiversidade que o Brasil possui e o que a ciência brasileira consegue nomear
Nas gavetas da coleção entomológica da Universidade Federal do Paraná dormem cerca de sete milhões de insetos. Parte deles está lá há sessenta anos. Foram coletados, alfinetados, etiquetados — e então esquecidos numa categoria que os pesquisadores do laboratório chamam, sem eufemismo, de "miscelânea". Não são espécies desconhecidas. São espécies sem nome. A diferença é sutil, mas a consequência é brutal: sem nome, uma espécie não existe para a lei, não entra nas listas de monitoramento, não acessa políticas de conservação e não pode ser avaliada quanto ao risco de extinção. Pode desaparecer antes de ter existido para a ciência.
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Foi dentro desse arquivo silencioso que Júlia Alberti de Liz, estudante de Ciências Biológicas ainda na graduação, passou horas curvada sobre uma lupa, aprendendo a perceber o que a maioria das pessoas não vê: os limites entre espécies. O gênero que ela estudava era o Habralictus, abelhas silvestres da família Halictidae, pequenas o suficiente para caber entre dois dedos, distribuídas por toda a América do Sul até o México. Quando terminou o trabalho — publicado em 2025 no European Journal of Taxonomy ao lado do professor Rodrigo Barbosa Gonçalves, do Laboratório de Abelhas da UFPR —, havia quatro espécies novas no registro científico e sete espécies já conhecidas redescritas com maior precisão. Um gênero inteiro reorganizado. Do total de 1.537 espécimes brasileiros examinados, onze espécies foram identificadas no país.

As quatro novas têm cores que contradizem qualquer ideia de que abelha é sinônimo de amarelo e preto. A Habralictus acuminatus e a H. nitidus são de um verde brilhante. A H. cyaneus é azul-esverdeada, com reflexos metálicos no abdômen — e foi encontrada em cultivos de açaí no Amapá, o que não é detalhe menor. A H. obscuratus, a preferida de Júlia, tem o corpo de aproximadamente seis milímetros quase inteiramente negro, com asas transparentes percorridas por finas veias escuras visíveis apenas ao microscópio. O nome científico que ela escolheu — obscuratus, do latim, a que está na sombra — carregava uma dupla precisão: descrevia o inseto e descrevia a condição de tudo que ainda habita as coleções sem designação formal.
O gênero Habralictus foi descrito originalmente por José de Campos Nogueira Moure em 1941. Oitenta e quatro anos depois, ainda há espécies que aguardam nome. Essa lentidão não é negligência — é estrutura. O Brasil tem 542 taxonomistas em atividade, segundo levantamento publicado nos Papéis Avulsos de Zoologia. É um número pequeno para um país que abriga aproximadamente 20% das espécies do planeta. Na taxa de descrição atual, estimativas acadêmicas já apontaram que o catálogo completo da biodiversidade brasileira levaria séculos para ser concluído — tempo que a perda de habitat e as pressões climáticas sobre os biomas não vão conceder.
A taxonomia vive o que os especialistas chamam de "impedimento taxonômico": escassez crônica de profissionais, subfinanciamento sistemático e quebra da transmissão de conhecimento especializado entre gerações. Com o desestímulo institucional que se prolongou por décadas, há grupos taxonômicos para os quais restam apenas as descrições publicadas por especialistas já falecidos — sem ninguém capaz de revisá-las ou atualizá-las à luz de dados moleculares modernos. O trabalho de Júlia de Liz e Gonçalves redescreve sete espécies já nomeadas exatamente porque descrições anteriores eram insuficientes, uma demonstração prática da extensão desse passivo.
O que une abelhas silvestres e política pública é a polinização. Estimativas indicam que a polinização animal contribui com R$ 43 bilhões anuais para a agricultura brasileira — e o Habralictus, em particular, tem relação documentada com palmeiras e cultivos como o açaí. Sem o nome científico, não há como rastrear a distribuição dessas espécies, não há como monitorar se estão recuando diante do desmatamento da Mata Atlântica ou das transformações climáticas sobre os biomas do Norte. A coleção zoológica é o arquivo histórico de um país sobre si mesmo, e a capacidade de lê-la depende de pessoas com anos de treinamento na distinção de estruturas que diferem por frações de milímetro.
Júlia de Liz não é doutoranda. É graduanda. Fez iniciação científica. E descreveu espécies que polinizam cultivos de açaí no Amapá e que vivem na Mata Atlântica do Sudeste desde, no mínimo, os anos 1960 — quando foram coletadas pela primeira vez, sem que houvesse, então, linguagem científica para nomeá-las. Há um paradoxo específico nessa história: o Brasil é o país com maior responsabilidade global sobre sua biodiversidade e um dos que menos têm especialistas para descrevê-la. Quando um trabalho de iniciação científica preenche essa lacuna, o feito merece reconhecimento. Mas também deveria incomodar. Não como exceção admirável — como sintoma de uma política científica que terceirizou para a dedicação individual o que deveria ser sustentado por investimento institucional contínuo.

A Habralictus obscuratus voava pela Mata Atlântica antes de ter nome. Continuará voando agora que tem. A diferença é que, a partir de março de 2025, quando o artigo foi publicado, ela passou a existir para a ciência, para o direito ambiental e para qualquer estudo que venha a avaliar o que o Brasil perde quando perde floresta. Nomear não é ato poético. É o primeiro ato técnico da conservação.
Fontes: Liz, J. A. de, & Gonçalves, R. B. (2025). A taxonomic revision of Habralictus Moure, 1941 from Brazil, with description of four new species (Hymenoptera: Apidae). European Journal of Taxonomy, 991(1), 1–53. / Melo, G. A., & Liz, J. A. de. (2025). The type material of the Neotropical bee genus Habralictus Moure (Apidae, Halictinae) in the Museum für Naturkunde, Berlin, Germany. Papéis Avulsos de Zoologia, 65. / Lewinsohn, T. M. & Prado, P. I. (2005). Biodiversidade Brasileira: Síntese do Estado Atual do Conhecimento. MMA/SBF.
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