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Mercúrio: o veneno invisível no prato de bilhões

Escrito por Neo Mondo | 12 de maio de 2026

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Mercúrio no topo da cadeia: quanto maior e mais longevo o predador, maior a concentração do metal em seus tecidos — uma equação que o mercado global de pescado ainda reluta em precificar - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

A contaminação por mercúrio atravessou a fronteira do ambiente e instalou-se na cadeia alimentar global. Pesquisadores de Harvard, Nanjing e do Scripps Institution of Oceanography convergem para uma conclusão que os mercados globais de pescado ainda não precificaram: o que está no prato já não é o mesmo de uma geração atrás

Em setembro de 2024, pesquisadores da Universidade de Delaware, de Harvard e da Universidade da Colúmbia Britânica publicaram no Proceedings of the National Academy of Sciences um mapeamento inédito do metilmercúrio extraído dos oceanos pelas frotas pesqueiras globais. A conclusão não deixou espaço para leituras tranquilizadoras: a expansão das pescarias industriais multinacionais, especialmente em ecossistemas tropicais de baixa latitude, intensificou a exposição ao metilmercúrio para consumidores de frutos do mar em todo o mundo. A maior parte das populações que dependem da pesca de subsistência, constataram os autores, já ultrapassa os limiares de exposição considerados seguros pelas agências regulatórias internacionais.

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O mercúrio existe na natureza desde antes de qualquer atividade humana. O problema não é sua presença, mas sua concentração e transformação. Quando lançado na atmosfera — sobretudo pela queima de carvão e pela mineração de ouro em pequena escala — ele se deposita nos oceanos, onde bactérias anaeróbicas o convertem em metilmercúrio, a forma orgânica do metal e a mais tóxica para o sistema nervoso de mamíferos. Essa conversão é o elo que transforma uma questão de emissões industriais em um problema de segurança alimentar. O metilmercúrio não permanece dissolvido na água: ele é absorvido pelo fitoplâncton, passa ao zooplâncton, acumula-se nos peixes menores e se concentra exponencialmente nos predadores de topo — o processo que a ciência chama de biomagnificação.

Uma revisão sistemática publicada em outubro de 2025 na revista Foods, reunindo 74 estudos sobre espécies europeias e de mares adjacentes, documentou que o metilmercúrio constitui a fração dominante do mercúrio total nos tecidos musculares dos peixes, com concentrações que frequentemente excedem os limites regulatórios da União Europeia — especialmente no mar Adriático e nas águas ibéricas. As espécies mais afetadas são as que qualquer carta de frutos do mar de alto padrão celebra: atum, peixe-espada, tubarão e tamboril. Quanto maior e mais antigo o predador, mais mercúrio ele carrega. A longevidade do peixe tornou-se um marcador de risco.

A dimensão econômica dessa contaminação foi calculada com precisão incômoda. Um estudo compilado pela revista Scientific Data da Nature, publicado em fevereiro de 2025 por pesquisadores da Universidade Normal de Pequim e da Universidade Tecnológica de Guangdong, estimou que as perdas econômicas globais associadas aos danos à saúde causados pelo metilmercúrio chegam a 117 bilhões de dólares por ano. O número não inclui os custos médicos diretos, mas reflete a perda de produtividade ao longo da vida de indivíduos expostos durante o desenvolvimento fetal e nos primeiros anos de vida — quando o neurotóxico age com maior eficiência sobre o sistema nervoso central ainda em desenvolvimento.

A exposição não é democrática. Um artigo publicado em março de 2025 na Nature Food, assinado por Chen, Wu, Cui e colaboradores, mapeou como os padrões globais de produção e comércio de frutos do mar redistribuem o risco: países de renda alta exportam peixes de alto nível trófico — e portanto com maior concentração de metilmercúrio — para mercados de renda baixa e média. O resultado é uma transferência silenciosa de ônus sanitário do Norte Global para o Sul. As perdas econômicas e as mortes prematuras associadas ao consumo de frutos do mar contaminados se concentram justamente nos países com menor capacidade de monitoramento, fiscalização e cobertura de saúde.

O Brasil oferece um caso de estudo que condensa, em escala regional, as contradições globais do problema. A Amazônia abriga uma das maiores concentrações de garimpo de ouro do planeta — atividade que, na ausência de controle, utiliza mercúrio para separar o ouro dos sedimentos e o descarta nos rios sem qualquer tratamento. Um artigo publicado em 2024 no Journal of Trace Elements and Minerals, com amostras de peixes da Amazônia brasileira, constatou que a ingestão diária estimada para todas as amostras excedeu amplamente a dose de referência segura para o metilmercúrio. Uma pesquisa do Greenpeace Brasil analisou 1.010 peixes de 80 espécies vendidos em feiras e mercados públicos de seis estados da região Norte — Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima — e encontrou contaminação acima dos limites da Organização Mundial de Saúde em todos os espécimes. Em 2024, a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Socioambiental documentaram que 94% dos indígenas yanomami em nove comunidades monitoradas apresentavam níveis elevados de contaminação pelo metal.

A conexão entre o garimpo amazônico e os oceanos não é metafórica. Um estudo conduzido por pesquisadores do INPA demonstrou que o mercúrio depositado no solo pelas atividades garimpeiras — a maior parte retida nas árvores próximas e depois liberada pelo desmatamento — é transportado por processos erosivos até os rios e, por eles, alcança o oceano Atlântico. O desmatamento da Amazônia, portanto, não é apenas um problema de carbono: é também um vetor de contaminação mercurial oceânica. A WWF-Brasil, em relatório de outubro de 2024, classificou mais da metade das sub-bacias analisadas nas bacias do Tapajós, Xingu, Mucajaí e Uraricoera como de risco extremamente alto de contaminação por mercúrio acima dos níveis seguros.

A mudança climática insere uma variável que os modelos regulatórios ainda não sabem processar. Um estudo publicado em março de 2025 no Proceedings of the National Academy of Sciences, conduzido por pesquisadores da Universidade de Nanjing, revelou que os efeitos combinados das variáveis climáticas — temperatura da água, precipitação e vazão dos rios — elevarão as concentrações de metilmercúrio em peixes de água doce selvagens em aproximadamente 60% entre 2031 e 2060, nos cenários intermediários do IPCC. O trabalho, focado nos consumidores asiáticos de peixe, projetou perdas econômicas adicionais de até 18 milhões de dólares anuais apenas com a redução do quociente intelectual em recém-nascidos na China. Uma pesquisa distinta, publicada na Nature Water em outubro de 2025 pela Universidade de Umeå, mostrou que a desoxigenação de corpos d'água provocada pelo aquecimento — fenômeno em expansão em partes do Mar Báltico e zonas costeiras ao redor do mundo — cria condições ideais para que microorganismos convertam mercúrio inorgânico em metilmercúrio, ampliando os pontos de produção do neurotóxico mesmo na ausência de novas emissões industriais.

A resposta institucional a essa crise existe em forma de tratado. A Convenção de Minamata sobre Mercúrio, em vigor desde 2017 e ratificada por mais de 150 nações, estabelece metas de redução das emissões antropogênicas do metal. Mas a eficácia do acordo é disputada pelos próprios pesquisadores que o acompanham. O estudo da Universidade de Nanjing e do Conselho Nacional de Pesquisa Espanhol, publicado no PNAS em 2025, alertou que os ganhos previstos pela Convenção de Minamata podem ser parcialmente anulados pela mudança climática — a qual não apenas altera os ciclos biogeoquímicos do mercúrio, mas redistribui geograficamente o risco de exposição, penalizando de forma desproporcional as regiões menos desenvolvidas. A governança global do mercúrio foi arquitetada para responder a fontes de emissão. Ela não foi concebida para lidar com um sistema em que a cadeia alimentar marinha amplifica e redistribui uma herança tóxica acumulada por décadas de industrialização.

Em outubro de 2024, o Centro Helmholtz de Pesquisa Oceânica GEOMAR publicou uma análise sobre a toxicidade crescente dos metais pesados nos oceanos costeiros. A conclusão do grupo do professor Sander foi direta: as atividades humanas elevaram o fluxo global de mercúrio de três a sete vezes em relação aos níveis pré-industriais. O aquecimento dos mares, o derretimento de geleiras, o degelo do permafrost e a erosão costeira estão liberando depósitos naturais de mercúrio, antes imobilizados, que passam agora a integrar os ciclos biogeoquímicos dos oceanos. A sinergia entre o legado industrial e as consequências físicas do aquecimento global cria um sistema de retroalimentação que nenhum regulador nacional tem poder unilateral de interromper.

foto do rio amazonas sendo inundado por mercúrio, proveniente de mineração clandestina.
Garimpo na Amazônia: a pluma de sedimentos visível na confluência com o rio traduz, em imagem, o caminho do mercúrio — do solo desmatado aos rios, dos rios ao oceano, do oceano ao prato - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

Há algo revelador na geometria desse problema. O mercúrio não escolhe fronteiras, não distingue pescador artesanal de consumidor urbano com renda suficiente para comprar atum fresco no supermercado. Ele percorre a cadeia trófica com uma lógica que obedece apenas à bioquímica: quanto mais alto o predador, maior a concentração. O que os estudos publicados nos últimos dois anos demonstram, com evidência crescente, é que a contaminação deixou de ser um evento localizado — como o desastre de Minamata nos anos 1950 no Japão, que resultou em 1.784 mortes registradas e deu nome ao tratado internacional — e se tornou um traço sistêmico da cadeia alimentar global. Não há prato de peixe, em qualquer latitude, que exista fora dessa equação. A pergunta que os governos ainda evitam responder com clareza é se o mercado global de frutos do mar, tal como estruturado, tem alguma obrigação de informar esse fato a quem está sentado à mesa.

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