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Bioética Ampla: um novo olhar para os dilemas éticos do nosso tempo

Escrito por Neo Mondo | 8 de setembro de 2025

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A bioética não se restringe aos hospitais e laboratórios — ela atravessa a tecnologia, a educação, o meio ambiente, as políticas públicas e, sobretudo, nossas escolhas cotidianas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Professores Daniel Medeiros* e Murilo Karasinski* apresentam a coluna que amplia o debate sobre ciência, tecnologia, educação, meio ambiente e políticas públicas, mostrando que a ética da vida atravessa todas as dimensões da existência humana

A bioética nasceu do espanto humano diante dos avanços que a ciência trouxe para nossas mãos. Questões antes inimagináveis — prolongar a vida, manipular genes, decidir sobre o início ou o fim da existência — passaram a exigir não apenas respostas técnicas, mas sobretudo reflexões éticas profundas. Tradicionalmente vinculada à medicina e às ciências biológicas, essa área se consolidou como um espaço de diálogo entre ciência e valores humanos, dignidade e escolhas coletivas.

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Hoje, no entanto, não basta olhar apenas para hospitais e laboratórios. A vida nos desafia em múltiplas frentes: da tecnologia que redefine o que significa ser humano, à crise ambiental que ameaça nossa própria sobrevivência, passando pela educação e pelas políticas públicas que moldam nossa convivência. É nesse espírito que nasce a coluna “Bioética Ampla”, com estreia prevista para 14 de setembro, um convite a pensar a ética da vida em sua totalidade. Nesta entrevista, os professores Daniel Medeiros e Murilo Karasinski compartilham os fundamentos, os desafios e as inspirações que conduzem esse novo espaço de reflexão.

Confira:

Quais os maiores desafios éticos que a sociedade enfrenta hoje e como a Bioética, em diálogo com outras áreas, pode ajudar a superá-los?

Professor Daniel: Os desafios éticos de nossa época são complexos e interligados, abrangendo crises ambientais, desigualdade social, o impacto da inteligência artificial e a mercantilização da vida. Historicamente, campos como a ecologia e a filosofia já abordavam essas questões de forma isolada. No entanto, a Bioética, ao se posicionar na interseção da Biologia, das Ciências da Saúde e da Ética, oferece uma perspectiva única para confrontar esses problemas em sua totalidade.

Um dos maiores desafios é a crise ambiental. A Bioética expande a discussão de uma simples preocupação com a saúde humana para incluir a saúde do planeta, de forma integrada. Ela não reflete apenas sobre as consequências da poluição para a saúde humana, mas também sobre o dever moral que temos para com a natureza em si, questionando o lugar do ser humano como centro exclusivo do universo moral.

Outro desafio é a desigualdade. A Bioética, em diálogo com a Sociologia e a Economia, revela como o acesso a tecnologias de ponta, como tratamentos genéticos ou terapias avançadas, pode criar uma nova forma de apartheid. Ela expõe a injustiça de um sistema em que a saúde e a longevidade se tornam privilégios de poucos, enquanto a maioria enfrenta o desamparo.

A Bioética também aborda os desafios impostos pela tecnologia. A automação e a inteligência artificial, embora prometam eficiência, podem desumanizar o trabalho e comprometer a autonomia individual. Em conversa com a Filosofia Moral e o Direito, a Bioética ajuda a estabelecer limites e diretrizes para garantir que essas inovações sirvam ao ser humano — e não o contrário.

A superação desses e de tantos outros desafios não está na busca por uma única solução, mas na construção de uma consciência ética mais ampla. Ao unir saberes e perspectivas, a Bioética fortalece o diálogo sobre as implicações de nossas escolhas.

O que a literatura e a filosofia têm a ensinar à Bioética que a medicina sozinha não alcança?

Professor Murilo: A medicina oferece diagnósticos, tratamentos e técnicas, mas nem sempre alcança o universo simbólico e ético que envolve o ser humano. É nesse espaço que a literatura e a filosofia se tornam fundamentais para a Bioética.

Desde a Grécia clássica, Sófocles, com Antígona, já mostrava o drama de escolhas que colocam em tensão a lei, a consciência e o cuidado, enquanto Aristóteles lembrava que a deliberação moral depende de prudência e virtude, não apenas de regras. Na Idade Média, Boccaccio, ao narrar no Decameron os efeitos da peste, expôs medos e desigualdades que ainda hoje ecoam em tempos de epidemias, e Tomás de Aquino refletia sobre a vida em sua relação com a dignidade da pessoa e o bem comum.

Com a modernidade, Tolstói retratou, em A morte de Ivan Ilitch, a solidão do doente diante da finitude, e Machado de Assis ironizou, em O alienista, os abusos do saber médico quando este se transforma em poder.

Por isso, quando a Bioética se abre ao diálogo com a literatura e a filosofia, ela deixa de ser apenas um campo regulador de práticas médicas e passa a se tornar um espaço de interpretação da condição humana. A literatura dá voz às narrativas do sofrimento, faz ver o que se esconde atrás dos números e estatísticas, e nos ensina a cultivar empatia. Já a filosofia fornece critérios de julgamento, categorias para ordenar valores e limites para que a técnica não se confunda com o sentido da vida.

Juntas, elas ampliam o horizonte da Bioética e mostram que cuidar envolve curar, mas também reconhecer a fragilidade, respeitar a dignidade e construir respostas que unam ciência, sabedoria e humanidade.

A dignidade humana é um conceito absoluto ou depende de contextos culturais e históricos?

Professor Daniel: A dignidade humana é um conceito fundamental na Bioética, servindo como base para a proteção de direitos e a valorização do ser humano. No entanto, sua natureza tem sido objeto de intenso debate.

Para muitos, a dignidade humana é um valor absoluto e intrínseco, que existe independentemente de qualquer característica ou contexto. Essa visão, influenciada por filósofos como Immanuel Kant, defende que todo ser humano possui um valor inalienável e não pode ser instrumentalizado, ou seja, tratado como mero meio para um fim. Nessa perspectiva, a dignidade é uma qualidade que se tem, e não algo que se adquire, o que garante a igualdade fundamental entre todas as pessoas, independentemente de origem, condição social ou capacidade.

foto de daniel medeiros, remete a matéria Bioética Ampla: um novo olhar para os dilemas éticos do nosso tempo
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

Contudo, ao longo da história e em diferentes culturas, o conceito de dignidade foi interpretado de maneiras variadas, o que sugere que ele também possui um aspecto histórico e contextual. Em algumas sociedades, a dignidade esteve ligada ao status social, à honra ou a certas virtudes. A escravidão, por exemplo, foi justificada por séculos com base na negação da dignidade de determinadas populações. A própria medicina, em sua história, também falhou em reconhecer a dignidade de pacientes, como nos casos de experimentação sem consentimento.

Isso mostra que, embora a ideia de dignidade possa ser universal, sua aplicação e reconhecimento na prática dependem de uma luta constante contra preconceitos e injustiças.

A Bioética tende a adotar uma visão que une essas duas perspectivas. A dignidade é vista como um princípio-guia universal, um valor que deve ser a base de toda decisão e política. No entanto, reconhece-se a necessidade de adaptar e contextualizar esse princípio em situações concretas.

Por exemplo: o que significa "viver com dignidade" para um paciente em estado terminal? A resposta pode variar dependendo de suas crenças, valores e cultura. Ou seja, a dignidade não é apenas um conceito abstrato a ser defendido, mas uma realidade a ser construída, dia após dia, por meio do diálogo, do respeito e da garantia de direitos.

Nosso papel nesse projeto é o da pesquisa e divulgação para o público amplo, porque sabemos que muitas vezes é a falta de conhecimento que permite as grandes omissões ou os grandes abusos que ferem a dignidade humana.

Como a Bioética pode nos ajudar a refletir sobre os dilemas do trabalho no século XXI?

Professor Daniel: O trabalho, historicamente, foi um dos principais pilares da vida em sociedade. O século XXI, entretanto, trouxe uma nova ordem, marcada pela aceleração tecnológica e por relações cada vez mais flexíveis, principalmente no que se refere a direitos e garantias dos trabalhadores.

Nesse cenário, o trabalho não é mais apenas uma questão de subsistência econômica. Ele se torna um espaço onde a dignidade, a saúde e a autonomia humana são constantemente postas à prova. A Bioética, ao expandir seu foco para além da saúde, se torna uma ferramenta essencial para analisar e intervir nesses dilemas.

Um dos principais dilemas atuais é a saúde mental e física do trabalhador. A Bioética tem aqui um papel central: questionar o ritmo e a pressão impostos pelo modelo de produtividade vigente, que muitas vezes levam ao esgotamento profissional (burnout) e a doenças relacionadas ao estresse. Para a Bioética, o trabalho deve ser um meio para a realização humana, e não um espaço de sacrifício da saúde em nome do lucro. Conceitos como beneficência e não maleficência aplicam-se diretamente, obrigando empresas e sistemas a se preocuparem com o bem-estar de seus colaboradores.

Além disso, em uma economia cada vez mais dominada por plataformas digitais e pelo trabalho precarizado, é imprescindível questionar quem se beneficia da automação e quem é relegado a condições semelhantes às do século XIX. A Bioética expõe a injustiça de um sistema que concentra a riqueza nas mãos de poucos, enquanto a maioria enfrenta salários baixos e falta de segurança.

A Bioética também aborda as novas tensões impostas pela tecnologia: a vigilância no ambiente de trabalho, o uso de algoritmos para monitorar o desempenho e a inteligência artificial que pode substituir o trabalho humano geram dilemas éticos que afetam a autonomia e a privacidade do indivíduo.

É evidente que a Bioética não oferece respostas prontas, mas funciona como uma lente para enxergar o trabalho como um campo de dilemas éticos que exigem soluções humanas. Porque, ao falar de relações de trabalho, devemos ir além de debates sobre salários ou produtividade e questionar: que tipo de sociedade queremos construir e qual o papel do trabalho para que ela seja mais justa, saudável e digna?

Esse é um dos papéis da Bioética.

Como a escola pode formar cidadãos capazes de enfrentar dilemas bioéticos complexos, e não apenas transmitir conteúdos?

Professor Murilo: No Brasil, a escola enfrenta condições desafiadoras que vão muito além da transmissão de conteúdos. Muitas vezes, o ensino é reduzido a um modelo positivista e conteudista, voltado a decorar fórmulas ou responder a testes de vestibular, enquanto faltam infraestrutura mínima, tempo de planejamento e valorização docente. Nesse cenário, falar em preparar cidadãos para enfrentar dilemas bioéticos complexos pode soar distante da prática diária.

No entanto, mesmo nesses limites, a escola continua sendo um espaço decisivo para a formação moral. Émile Durkheim, em sua obra Educação Moral, já havia mostrado que a função da escola não se esgota em transmitir conhecimentos. Para a Bioética, essa perspectiva é relevante porque ajuda a compreender que dilemas envolvendo saúde, tecnologia e ambiente não são apenas escolhas técnicas, mas decisões sociais que exigem responsabilidade e solidariedade.

foto de murilo Karasinski, remete a matéria Bioética Ampla: um novo olhar para os dilemas éticos do nosso tempo.
Murilo Karasinski - Foto: Divulgação

A educação moral, nesse sentido, prepara o estudante a perceber-se como parte de uma comunidade que será impactada por suas escolhas.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a visão de Durkheim tem limites, pois tende a valorizar mais a coesão e a ordem do que o conflito e a pluralidade. No Brasil, onde a desigualdade e a precariedade educacional são marcantes, cabe resgatar contribuições como as de Paulo Freire, que enfatiza a conscientização crítica e a emancipação dos sujeitos.

A junção dessas abordagens mostra que, ainda que a escola não consiga, na prática, resolver todas as tensões bioéticas, pode ao menos criar pequenos espaços de reflexão (por exemplo, discussão de notícias de saúde pública, análise de dilemas do cotidiano ou debate de narrativas literárias que problematizem valores).

Assim, formar cidadãos para enfrentar dilemas bioéticos não é acrescentar mais um conteúdo ao currículo. Trata-se, ao contrário, de transformar a experiência escolar em oportunidade de exercitar o julgamento moral, o diálogo e a responsabilidade.

Mesmo em condições adversas, cada gesto que estimula a reflexão crítica e o senso de comunidade já representa um passo além da mera transmissão mecânica de conteúdos.

Se a bioética começou como resposta aos dilemas médicos, hoje ela se revela como uma lente para enxergar a vida em toda a sua complexidade. Mais do que oferecer soluções prontas, trata-se de provocar perguntas, abrir horizontes e cultivar uma consciência ética capaz de orientar nossas escolhas em tempos de incerteza.

Com a coluna “Bioética Ampla”, o leitor é convidado a atravessar as fronteiras tradicionais do debate e reconhecer que cada decisão — seja no uso da tecnologia, na preservação ambiental, na formação de cidadãos ou na criação de políticas públicas — carrega consigo uma dimensão ética que nos compromete com o futuro. Que essa jornada, conduzida por vozes críticas e inspiradoras, ajude a iluminar caminhos possíveis para uma vida mais justa, consciente e digna para todos.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.

@profdanielmedeiros

*Murilo Karasinski - Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR. Pós-Doutor em Bióetica, Doutor em Filosofia e Bacharel em Direito pela PUCPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética. Membro do Observatório de Inteligência Artificial no Ensino Superior da PUCPR. Pesquisador de temas relacionados à Inteligência Artificial, Neuroética, Bioética e Transumanismo.

mkarasinski@gmail.com

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