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Força e poder

Escrito por Neo Mondo | 15 de julho de 2025

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Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

Na sua obra Sobre a Violência, Hannah Arendt estabelece uma distinção clara entre força e poder. A força é uma qualidade inerente a um indivíduo ou a um grupo, mas não é, em si, um fenômeno político no sentido pleno. Tem um caráter instrumental, ou seja, é um meio para um fim. Pode ser usada para coerção, dominação ou destruição. Arendt argumenta que a violência é a manifestação mais visível da força e que, embora possa destruir o poder, nunca, jamais pode criá-lo.

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E o mais importante: quanto maior o uso da violência, menor o poder real. Ou seja, a violência mascara a perda de poder. Ao contrário do que se pensa e, principalmente, ao contrário de como agem os “reizinhos mandões” da História — confundindo a força de seus exércitos, de suas economias, com poder — julgam-se poderosos quando são apenas, e nada mais do que isso, fortões violentos.

O poder, para Hannah Arendt, é um fenômeno distinto da força. Ele é essencialmente político. Não se trata de uma posse individual, mas de algo que emerge e existe entre as pessoas, grupos ou países, quando agem em conjunto e em comum acordo. O Mercosul é poderoso. Os BRICS. A União Europeia. A ONU.
Embora não tenham força para impor muitas de suas ideias construídas coletivamente — muitas vezes atropeladas pelos mandões do momento — continuam a ser o horizonte do que há de mais civilizado já construído pela Humanidade. E, por isso, não podem desaparecer.

O poder se baseia no consentimento e no apoio tácito ou explícito das pessoas. É a capacidade de obter obediência e reconhecimento por meio da persuasão e do diálogo, e não da coerção. Governos legítimos, para Arendt, são baseados no poder — não na violência.
A violência é a prática das tiranias, das ditaduras, dos regimes totalitários. Daqueles que exigem sem dialogar, gritando em letras grandes: IMEDIATAMENTE.
A força pode operar independentemente de um grupo. Um indivíduo forte pode agir sozinho, e sua força não necessariamente depende do apoio de outros.
Por isso, os tiranos tendem a ficar sozinhos (numa espécie de “síndrome de Robespierre”), principalmente quando suas táticas violentas deixam de surtir efeito, gerando — em vez do temor que garante a subserviência — o ódio de seus súditos e parceiros.
E quem tem ódio não tem medo. E para quem não tem medo, as ameaças não funcionam mais.

O que permite que a força seja derrotada é a capacidade de as pessoas, os grupos, os governos democraticamente eleitos não se curvarem, apesar dos custos que a força é capaz de infligir. O poder é inerentemente instável e depende da continuidade da ação e do diálogo entre as pessoas. Ele existe enquanto o grupo se mantém unido e atuante.
Se o grupo se dispersa ou o consenso se desfaz, o poder se esvai.
E, sem poder, não há país. Não há nação.

Como já cantou o poeta Belchior:
“Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz.”
Para evitar isso, é preciso resistir e cantar, deixando claro que o poder que une é o único antídoto contra a força que destrói.

Como lembrou outro poeta, o maranhense Ferreira Gullar, em A Luta Corporal:
“Era preciso que o canto não cessasse nunca.
Não pelo canto (canto que os homens ouvem),
mas porque, cantando, o galo é sem morte.”

Resistamos. E não deixemos de cantar.

*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

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Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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