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Caatinga lidera expansão solar no Brasil

Escrito por Neo Mondo | 18 de setembro de 2025

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A Caatinga está brilhando – e com força solar! Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

O bioma exclusivamente brasileiro se transforma no epicentro da transição energética, mas levanta debates sobre conservação e uso do território

Um bioma resiliente que agora brilha ainda mais

A Caatinga, nosso único bioma 100% brasileiro, sempre foi símbolo de resistência. Terra de mandacarus, xiquexiques e de um povo acostumado a tirar leite de pedra, ela agora se tornou palco da revolução solar do país. De acordo com o levantamento mais recente do MapBiomas, nada menos que 62% das áreas de usinas fotovoltaicas do Brasil estão na Caatinga. É impressionante pensar que esse bioma, por tanto tempo associado à escassez de água e à seca, está agora iluminando o futuro energético do país.

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E aqui entra uma reflexão importante: estamos diante de um novo capítulo da história da Caatinga. Por um lado, é um avanço emocionante para a agenda de transição energética, uma prova de que o Nordeste é capaz de liderar a corrida por fontes renováveis. Por outro, o estudo também revela que 52,6% da área convertida para usinas solares era formada por vegetação savânica e florestal — o que abre um debate crucial sobre planejamento e conservação. O futuro da energia limpa precisa andar de mãos dadas com o futuro da biodiversidade.

Números que impressionam e fazem pensar

Vamos aos dados: o relatório da Coleção 10 do MapBiomas cobre o período entre 1985 e 2024 e mostra que a Caatinga perdeu 9,25 milhões de hectares de áreas naturais nos últimos 40 anos, algo como 14% de sua cobertura original. Isso é muita coisa — e o principal vetor dessa transformação foi a agropecuária, que segue crescendo no bioma.

Transições de cobertura e uso da terra no bioma Caatinga para usinas fotovoltaicas entre 2016 e 2024 por estado

Mesmo assim, o levantamento traz luz para outro dado que merece destaque: a Caatinga ainda guarda áreas naturais significativas. Piauí lidera com 82% de cobertura, seguido por Ceará (68%), Pernambuco (60%), Bahia (58%) e Paraíba (56%). No lado oposto, Sergipe (24%) e Alagoas (27%) são os estados mais pressionados. Esse mosaico de números ajuda a entender o desafio: como conciliar o avanço das renováveis com a proteção de um bioma que já perdeu quase um sexto de sua vegetação?

Energia solar: uma revolução em curso

Não dá para negar: o Brasil vive uma verdadeira febre solar — e a Caatinga é o coração dessa transformação. Quem viaja pelo interior do Piauí, da Bahia ou do Rio Grande do Norte já se acostumou a ver campos de painéis refletindo o céu. Essa imagem é um símbolo de esperança, um recado para o mundo de que a transição energética está acontecendo aqui, agora.

A energia solar é hoje uma das fontes mais competitivas do país. Segundo dados da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), já ultrapassamos a marca de 40 GW de potência instalada, e boa parte disso está concentrada no Nordeste. Isso significa empregos, investimentos, renda para pequenos proprietários que arrendam suas terras e, claro, menos emissões de gases de efeito estufa. É a Caatinga se tornando não apenas um bioma resiliente, mas também estratégico para a descarbonização.

infográfico do mapbiomas, remete a matéria Caatinga lidera expansão solar no Brasil
Infográfico gerado por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
Desafios: energia limpa, mas uso do solo em xeque

Por mais que seja inspirador ver a Caatinga liderando a transição energética, há um ponto que não pode ser ignorado: a ocupação dessas áreas precisa ser bem planejada. Ao transformar vegetação nativa em fazendas solares, existe o risco de comprometer serviços ecossistêmicos essenciais, como a proteção do solo, a manutenção da biodiversidade e até o microclima local.

A boa notícia é que existem caminhos para tornar essa expansão mais sustentável. É possível priorizar áreas já degradadas, investir em projetos de agrovoltaicos (que combinam produção agrícola e geração solar) e desenvolver programas de compensação ambiental robustos. A transição energética deve ser uma oportunidade de regeneração, e não de novos passivos socioambientais.

Um futuro brilhante para a Caatinga e para o Brasil

No fim do dia, o que essa história nos mostra é que a Caatinga é muito mais do que um bioma esquecido. Ela é, neste momento, o motor de uma transformação global. A energia que sai dessas usinas não ilumina apenas casas e cidades — ela ilumina o caminho do Brasil rumo a uma economia de baixo carbono, mais justa e competitiva.

Ver a Caatinga brilhar é emocionante. É imaginar que o sol que sempre castigou agora é também o sol que garante um futuro melhor para milhões de pessoas. É pensar em comunidades que recebem royalties, em jovens que encontram emprego no setor solar, em famílias que têm uma nova fonte de renda. É sonhar com um Nordeste protagonista da agenda climática global.

Energia que vem com consciência

Falar de energia é falar de futuro — mas também de escolhas. A Caatinga está nos mostrando que é possível, sim, ser líder em renováveis. Mas cabe a nós, sociedade, empresas e governos, garantir que essa liderança não custe o que resta de vegetação nativa.

A energia solar é, sem dúvida, uma das peças-chave para evitar o colapso climático. Mas ela precisa vir acompanhada de planejamento territorial, de ciência, de participação das comunidades locais e de uma visão de longo prazo. Porque, no fim das contas, de nada adianta salvar o clima se perdermos os biomas no processo.

Quer saber mais sobre os dados do MapBiomas e sobre como a Caatinga está mudando o futuro energético do país? Acesse o relatório completo neste link e veja como ciência, inovação e resiliência podem caminhar lado a lado.

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