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Dois inimigos irresistíveis

Escrito por Neo Mondo | 7 de agosto de 2025

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Dois são os grandes inimigos das democracias: o medo e a ignorância - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

A democracia vem sofrendo muito, coitadinha, pelo mundo afora. É que, de algum jeito (muito equivocado), acreditamos que ela seria mais forte do que parece. Por aqui, por exemplo, em mais de quinhentos anos de história com a presença europeia, ela só deu as caras duas vezes: entre 1946 e 1964 e agora. Na primeira experiência, um presidente se matou, dois quase não assumiram, um renunciou e outro foi derrubado. Agora, depois de dois impeachments e uma tentativa de golpe, vamos que vamos.

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E mesmo no país que inventou a democracia moderna, as coisas andam sinistras: ordens executivas, uso da Guarda Nacional sem autorização dos governadores, achaques à imprensa, pressão sobre juízes, universidades, censura nas escolas, prisões indiscriminadas de cidadãos de origem latina — um show de horrores. Isso sem falar da tentativa canhestra e bizarra de interferir na ordem jurídica de outro país, mesmo que esse país também tenha uma democracia meio deficitária.

O que explica o sucesso do fracasso do modelo democrático em quase todo o mundo? Com exceção dos países do norte europeu, cujos regimes parlamentares e políticas sociais-democratas continuam com sua higidez em dia (por enquanto), o crescimento de grupos antidemocráticos, oriundos das redes sociais e com apoio crescente — principalmente entre jovens e idosos —, com seus discursos de ódio e de restrição aos valores e costumes duramente conquistados ao longo do tempo, como o respeito pela alteridade, é uma coisa evidente.

O último reduto rompido pelo nacionalismo canhestro de um candidato kamikaze foi o Japão, onde um ex-militar e youtuber de sucesso criou o partido Sanseito há cinco anos e emplacou 14 cadeiras no Senado na última eleição, com o slogan “Japão primeiro”.

Dois são os grandes inimigos das democracias: o medo e a ignorância. São dois componentes primordiais da espécie humana e, por isso, são, por natureza, antidemocráticos. Um alimenta o outro: o que não conheço desperta o meu medo; o que me dá medo, não me interessa conhecer — quero destruir. A espécie, reunida em pequenos grupos, conseguiu sobreviver graças a esses dois fundamentos. Até que a sedentarização marcou uma nova etapa da nossa existência, com o desenvolvimento de alianças práticas colaborativas. Assim criamos as grandes civilizações. Mas, no fundo de nossas almas, o apelo da tribo ficou intacto. Até que as redes sociais viessem para explorá-lo ao máximo.

É só assistir com calma ao vídeo daquele deputado sobre o “perigo do Pix”. Um verdadeiro grito das selvas, um apelo aos outros primatas para que peguem suas bordunas e tacapes e enfrentem o inimigo invisível que se aproxima. Medo e ignorância. Ignorância e medo. E todo um esforço de décadas é capaz de ruir em poucos anos.

A democracia é antinatural. É, portanto, a mais humana das invenções. Um conjunto de princípios e regras que pressupõe que todos garantirão os interesses dos outros e todos protegerão o que é comum, sem que seja preciso eliminar o incomum — mas preservando, no limite do interesse coletivo, todas as formas de organização da vida.

A democracia é uma rede de apoio coletivo para o viver de cada um. Um projeto político que tem como pressuposto o seu não-acabamento, a sua inconclusão — arte genial que garante seu permanente autoaperfeiçoamento, sua tessitura cada vez mais densa e refinada, feita por milhões de pacientes mãos, que criticam e apoiam, que mudam e mantêm, que deliberam e vetam, que apoiam ou substituem, numa dança de acordos e debates sem fim.

Mas basta que a ignorância — pois esquecemos que essa complexa operação precisava ser ensinada às novas gerações e treinada ano após ano na escola, que é o espaço de preparação para a vida pública — ou o medo — que desperta o desejo de um Leviatã protetor, mesmo que feroz e violento — se imponham, para que essa ciranda coletiva entre em colapso.

A democracia vem sofrendo muito, coitadinha, pelo mundo afora. Há tempo para salvá-la? Ou os que a conhecem e a admiram não passarão, em breve, de uma espécie de colecionadores de vinis? Sem vencer esses dois inimigos irresistíveis — e sem engajar os jovens —, logo seremos tão nostálgicos quanto o povo que troca discos em feiras de garagem e evoca “os bons tempos” das vitrolas e do som com aquele chiadinho gostoso que quase ninguém mais conhece... ou quer conhecer.

*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Dois inimigos irresistíveis
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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