Destaques Educação

Sem dinheiro

Escrito por Neo Mondo | 28 de julho de 2025

Compartilhe:

Imagem gerada por IA - Foto: Ilustratriva/Divulgação

ARTIGO

Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização

Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

É fato: isso faz cinquenta anos. Mas, de tudo o que me lembro da minha infância, ter dinheiro não aparece em nenhuma passagem recordada. Nunca. E a razão é bem simples: não havia dinheiro. Exceto para a passagem de ônibus — moedas contadas. Para comprar o pão e o leite e trazer para o lanche da tarde, com a padaria longe, eu caminhava pela beirada da rodovia sem calçamento, temendo os carros e caminhões. E só.

Leia também: Vocação para quintal

Leia também: Força e poder

A escola era pública. O uniforme, minha mãe costurava. Bolos, sorvetes, guloseimas em geral, ela fazia, explorando a riqueza das frutas do quintal imenso da casa antiga, na vila militar construída pelos americanos na Segunda Guerra. Casa de paredes grossas e janelas de madeira, com venezianas para deixar o ar circular; o piso, de tacos que soltavam aqui e ali; a porta da frente, de duas folhas, trancada por uma chave mínima. À noite, o pai colocava panelas na maçaneta para assustar os ladrões. Nossa segurança impecável.

A casa era de esquina, e os muros laterais e dos fundos eram altos — o que não impedia a molecada da favela, que ficava a uma quadra de distância, de subir pelo tronco da mangueira que crescera rente ao muro do lado de fora e furtar as mangas, as jacas, os cajus e as frutas-do-conde que amadureciam nos galhos frondosos, espalhados pelo quintal de areia solta e formigueiros imensos. Mamãe, no alto de seu metro e meio, agitava uma vara e tentava expulsar os invasores, dizendo-lhes imprecações, sem temer represálias. Afinal, tinha razão — e o invasor não merecia negociação. Os meninos riam, nervosos, e saíam com as blusas em forma de bolsa, cheias de frutas. Sempre voltavam. Era uma espécie de comensalismo entre duas espécies pobres, mas uma menos pobre que a outra, e que, por isso, cedia parte do que lhe sobrava para não ver ameaçado aquilo que lhe era indispensável. Essa era a nossa relação com o nosso habitat.

Nós mesmos, eu e meu irmão, diferíamos pouco da molecada da favela. Shorts feitos pela minha mãe, blusas que duravam até desmanchar, pés no chão, estilingue no peito ou uma pipa feita de vara de bambu e colada com farinha d’água. O cerol, de vidro moído na linha de costura, servia para as disputas aéreas. Ou a bola de plástico debaixo do braço, convidando com os olhos os meninos para uma pelada no campinho da serraria, que ficava ao lado de casa. E ali todos se misturavam e se esqueciam da vida — até que o ronco na barriga avisava que era hora de comer. E voltávamos para casa: a comida simples na mesa, o frango do quintal que virava almoço, jantar e, depois, almoço de novo, e ainda canja no fim do segundo dia — tudo se aproveitava. Nada era totalmente sem valor.

Do lixo, buscávamos tampinhas de garrafas de refrigerante — que quase nunca bebíamos. Somente os sucos das frutas ou, em dias mais festivos, os sucos de saquinho, com seu inconfundível gosto de morango e uva artificiais (o gosto verdadeiro, desconhecíamos). Meu irmão, cheio de habilidades, certa vez fez um quadro de madeira com preguinhos para ostentar a coleção dele — todos invejavam as tampinhas raras que ele exibia.

Meus dias de infância nunca foram pensados. Sem saber, exercitava a máxima do Pessoa: “pensar é estar doente dos olhos”. Só me interessava sentir o calor na pele, o frescor da chuva, o cansaço das brincadeiras, os gritos, as correrias, a alegre solidão compartilhada com a pipa perdida na imensidão do céu sem nuvens — até que uma outra pipa aparecia, sugerindo uma batalha aérea; a emoção de ganhar ou perder e depois voltar para casa e comer e dormir na varanda, olhando o céu e as palhas do coqueiro que crescia sem parar na lateral da casa, com seus cocos ameaçadores caindo de vez em quando, espantando as galinhas e a cachorra que insistia em dormir aos seus pés.

Lembro-me de pensar em dinheiro pela primeira vez quando arrumei minha primeira namorada e a convidei para passear no centro, comer um pastel e tomar uma Grapette. Foi minha mãe quem me deu os trocados para o ônibus e para esse excesso de consumo, com um olhar ao mesmo tempo orgulhoso e pesaroso. Ela sabia que ali algo de muito bom estava chegando ao fim.

Eu já tinha dezesseis anos.

*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo sem dinheiro
Daniel Medeiros, autor do artigo "Sem dinheiro" - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável

O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é

Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado


Artigos relacionados